Entrevista com o proprietário da Gran Padania do Brasil, Acari Menestrina

22.07.2013
“Saí de toneladas para quilos e gramas de valor agregado”

Acari Menestrina, proprietário da Gran Padania do Brasil

 

"O Brasil tem um consumo anual de 2,8 quilos per capita. Na Itália e na França o consumo chega a 25 quilos."

 

Nascido em Rio dos Cedros, Médio Vale do Itajaí, instalou-se no Oeste catarinense em 1976 como extensionista da antiga Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina (Acaresc), hoje Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). Tinha, então, por volta de 20 anos, estagiou em Itapiranga e em São Miguel do Oeste, para depois assumir o escritório local de Guarujá do Sul. A partir daí iniciou uma revolução que transformou a região Oeste catarinense em uma das mais produtivas – e promissoras – bacias de leite do país. Hoje, com 37 anos dedicados ao setor, é dono da Gran Padania do Brasil, marca Gran Mestri, fábrica de queijos nobres e padrão de qualidade europeu com os quais pretende ser referência no Brasil e faturar R$ 150 milhões ao ano a partir de 2017. Em entrevista exclusiva à reportagem da CNR-SC/ADI/SC/Central de Diários afirmou: “Queremos fazer dez anos em um. E não nos interessa nada menos do que a liderança de mercado em cada uma das nossas linhas.”

 

[PeloEstado] - Sua história está diretamente relacionada com o desenvolvimento do Oeste catarinense...

Acari Menestrina - É verdade. A região vivia um empobrecimento profundo. Não tinha energia, nem estradas, nem telefone. Era um abandono total! E os produtores se dedicavam a milho, soja, um pouco de suínos e de aves. Costumo dizer que desde pequeno segurei o rabo da vaca pra nona tirar leite. E nós, lá em Rio dos Cedros, já vendíamos para laticínios na época. Eu já tinha leite na veia. Quando vi a situação do Oeste, concluí que os produtores estavam na contramão. Diante daquele cenário eu disse a mim mesmo: Vou tornar essa região uma bacia leiteira referência para o Brasil. Teve quem me chamasse de maluco, mas segui com o plano. Trouxe para a região a primeira vaca holandesa, a primeira cerca elétrica, a primeira pastagem de inverno, a primeira silagem. Naquele tempo, aqui no Oeste, as famílias não tinham leite nem para a subsistência. 

 

[PE] - E hoje?

Menestrina - Olha no que resultou esse trabalho, que desenvolvi de forma pioneira entre 1976 e 1977! Basta olhar os dados: o crescimento da produção de leite no Brasil em 2012 foi de 3,2%. Em Santa Catarina, 7,2%, Rio Grande do Sul, 4,8% e o Paraná, 4%. Mas o Oeste e o Extremo Oeste de Santa Catarina apresentaram 10% de crescimento. Hoje, 80% das famílias rurais do Grande Oeste têm como principal fonte de renda o leite. No Extremo Oeste esse índice chega a 90%. No estado, 70 mil famílias vivem da atividade de leite e produzem, juntas, mais de 7 milhões de litros por dia. Cada família tem de oito a dez salários mínimos por mês de renda gerada pelo leite. Com isso, os que migraram para o litoral ou para os grandes centros do país em busca de uma vida melhor, já estão voltando para tirar leite aqui no Oeste. 

 

[PE] - Foi o chamado ponto da virada?

Menestrina - Para a região e na minha vida profissional também. Fui extensionista da Acaresc por oito anos, uma grande escola. Santa Catarina tinha o melhor serviço de extensão rural do Brasil. Depois fui executivo de duas empresas durante mais oito anos. Após isso, fundei a Cedrense, que era referência no Brasil. Eu trazia toda inovação europeia. Começamos com mil litros de leite e chegamos a um milhão de litros e 80 produtos.

 

[PE] - Quando chegou aos queijos nobres?

Menestrina -  Produto commodity vai ficar na mão de dois ou três grandes players. Olha o que está acontecendo no mercado de carnes. Ficou na mão da JBS e da BRF. No mercado de leite e laticínios vai acontecer o mesmo. As commodities queijo prato, mussarela, leite longa vida e leite em pó a granel vão ficar nas mãos de dois ou três no Brasil, ou de empresas de regime familiar. Por isso me desfiz da Cedrense. A grande tendência é a boutique de queijos e foi o que fiz ao criar a Gran Padania (marca Gran Mestri). Saí das toneladas para os quilos e gramas de valor agregado. Saí para um nicho de mercado.

 

[PE] - Como se preparou para essa nova etapa?

Menestrina - Fiz 4 mil horas de voo internacional e visitei 30 países buscando referências no mundo. Para aprender sobre a produção do leite é preciso ir para a Nova Zelândia, que tem o melhor modelo, os melhores pasticultores, a melhor qualidade e o menor custo de produção. Eles exportam 30% dos lácteos do mundo. Tecnologia para um produto de alto valor agregado tem que ser buscada na Europa, especialmente Itália. Visitei mais de 600 fábricas por lá. Enquanto o Brasil tem um consumo anual de 2,8 quilos per capita, na Itália e na França o consumo chega a 25 quilos. O Brasil tem 40 milhões de pessoas de alto poder aquisitivo, que querem consumir produtos de alta qualidade. Temos um gigantesco potencial de crescimento para o mercado de queijos diferenciados. Isso também motivou a decisão.

 

[PE] - Tomada a decisão...

Menestrina - Em 2002, eu tinha a Cedrense e a Gran Mestri. Conciliei as duas empresas até dominar todas as tecnologias. Passei a investir pesadamente na Gran Mestri para sair de mil quilos por dia para 30 toneladas diárias. Aí foi o novo ponto da virada. Em 2010, fui para a Itália e visitei os líderes de mercado no grana padano, o queijo mais nobre do mundo. É feito de matéria-prima vinda de vacas criadas em sistema de bem-estar animal, com dieta alimentar e nutrição controladas, com padrão internacional nas características físico-químicas e microbiológicas. Temos vários produtos diferenciados, como o pecorino, queijo feito de leite de ovelha. Fui para a Sardenha e visitei os líderes de mercado no pecorino. Na França, os líderes de mercado na manteiga. Visitei fábricas de equipamentos e indústrias de ingredientes. Em 2011, comecei a executar o projeto.

 

[PE] - O que diferencia a Gran Mestri das demais marcas de queijo do Brasil?

Menestrina - Hoje, a Gran Mestri, em queijos duros, tem o parque industrial referência para a América Latina. Importamos uma fábrica completa, veio o mestre queijeiro, preparamos o nosso leite em padrão internacional. Mandamos uma mostra do leite para a Itália e estamos trazendo de lá o coalho e os fermentos láticos.

 

[PE] - Qual foi o investimento? E a previsão de retorno?

Menestrina - Foram investidos R$ 28 milhões, sendo 90% de recursos próprios, obtidos com a venda da Cedrense. Mas continuamos investindo. Dentro do nosso plano de negócios, o tempo de retorno é de cinco anos, quando chegaremos aos R$ 150 milhões de faturamento ao ano. Nossa meta é ter uma evolução anual de R$ 30 milhões no faturamento nesse período. O projeto é muito arrojado. Nós somos eficientes ao extremo e estamos ocupando, atualmente, de 35% a 40% da nossa capacidade de produção. A fábrica tem 35 mil metros quadrados e estamos prontos para os próximos 20 anos. O grande desafio é que são produtos maturados e temos que manter os estoques por um ano a um ano e meio até a venda. O mínimo de maturação do Grana Padano é de um ano. Ele pode maturar de 12, 18 a 24 meses. Só a nossa estocagem tem um milhão de quilos e é preciso dinheiro para manter um estoque desse tamanho nas condições ideais.

 

[PE] - Houve convites de outros estados para transferir a fábrica?

Menestrina - Sim. E até hoje a gente recebe. Até de Minas Gerais, bem como Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo. Afinal, a fábrica é das mais modernas e o produto é de elevado valor agregado. Mas eu sou de Santa Catarina, iniciei minha vida aqui no Oeste. Estou no meio de uma bacia leiteira com mais de 2 milhões de litros de leite, com 100 produtores fidelizados que em 18 meses serão 500. E em uma região com mão-de-obra qualificada e oferta de cursos que nos interessam, como Engenharia de Alimentos, Engenharia de Produção, Técnico em Alimentos. Não tenha motivos para sair daqui.

 

[PE] - E como está a formação do mercado para os produtos Gran Mestri?

Menestrina - Estamos trabalhando fortemente nos três estados do Sul. Também estamos conquistando espaço em São Paulo, que consome 45% de todos os alimentos do país. É o maior mercado. E o segundo mercado é o interior de São Paulo. Como o Rio de Janeiro sediou a República, o carioca tem uma cultura muito forte de produtos diferenciados e trata-se também de um importante mercado. Depois Belo Horizonte, Brasília, Espírito Santo... O nosso parque industrial está habilitado para exportar, mas por enquanto estamos fornecendo só para o mercado interno. O que a Gran Mestri produz, o mercado brasileiro importava.

 

[PE] - Quando começam as exportações? E por onde?

Menestrina - No final de 2014. Até lá vou desenvolver um queijo goya para exportar, junto com o grana padano, para os Estados Unidos. Devemos exportar para o Mercosul, países asiáticos e Arábia.

 

 

Andréa Leonora e Nícola Martins

Florianópolis, 22 de julho de 2013.

 

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