Entrevista com o presidente da ABCM, Fernando Zancan

22.04.2013

 

“O que buscamos é tornar o carvão competitivo para que ocupe o seu espaço no Brasil.”

Fernando Zancan, Presidente da ABCM

 

“Carvão garante segurança energética para SC”

 

 

Engenheiro de minas formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atualmente preside a Associação Brasileira de Carvão Mineral (ABCM) e é secretário-executivo do Sindicato da Indústria de Extração de Carvão de Santa Catarina (Siecesc). Ainda é membro do Comitê de Combustíveis Fósseis do Conselho Mundial de Energia, da Agência Internacional de Energia e da Associação Mundial do Carvão. Com o anúncio de que o carvão mineral poderá participar do próximo leilão da União para compra de energia elétrica, o trabalho de Zancan tornou-se ainda mais intenso junto aos órgãos governamentais. Nesta entrevista exclusiva concedida à ADI-SC/Central de Diários/CNR-SC, ele fala sobre os desafios que o carvão mineral enfrenta, os benefícios que todo o estado terá com essa inclusão, mas alerta: “O fato de estar confirmada a participação, não quer dizer que iremos ganhar o leilão.”

 

 

[PeloEstado] - Com a inclusão do carvão no próximo leilão de energia, quais os próximos passos?

Fernando Zancan - O fato de estar confirmada a participação, não quer dizer que iremos ganhar o leilão. Há notícias de que o preço-teto será em valores baixos. Se for assim, o carvão mineral estará fora do processo. Estamos buscando soluções de nível técnico que permitam a competitividade de nossa parte, com pleitos federais como: extensão do prazo do contrato para 25 anos, isenção de PIS, Cofins e de impostos, além de questões de financiamento como no BNDES, onde o carvão é penalizado. Houve uma política de governo de penalização das matrizes fósseis e incentivo às renováveis. Então, o carvão mineral ficou em pior situação de financiamento. Essa é uma questão que estamos discutindo com o BNDES, porque pode inviabilizar os projetos e o desenvolvimento da matriz. Sobre equipamentos importados, se tivermos que pagar tantos impostos de importação, acabaremos elevando demais os custos de investimento. Há pleitos estaduais, onde buscamos reduzir o custo do combustível. São necessárias discussões com os governos federal e estadual, para que o leilão não coloque impedimento em preço-teto que inviabilize a participação. Se for o que está sendo colocado na imprensa, estamos fora.

 

[PE] - Qual o preço-teto divulgado?

FZ - Coloca-se na mídia o valor de R$ 110 por megawatt-hora. Isso é inviável para o setor. Para o carvão mineral, esse valor deveria ser, pelo menos, de R$ 150 por megawatt-hora. Não adianta entrar no leilão, se não há como competir. O governo deve dar condições de isonomia entre as fontes de geração de energia.

 

[PE] - Como está a movimentação política em prol do carvão?

FZ - Os setores políticos estão sendo mobilizados. Houve reuniões com os ministérios, com a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) e estamos trabalhando muito, porque temos notícias que em cerca de 15 dias será divulgado o edital do leilão. Nesse documento, teremos a definição das regras para que busquemos a isonomia entre os competidores nessas duas semanas. Corremos contra o tempo e estamos conversando com todas as autoridades possíveis. Se continuar dessa forma, repito que o carvão estará fora.

 

[PE] - Há compreensão por parte dos governos?

FZ - O governo federal não iria dizer que haverá leilão para fazer jogo de cena. Sabemos que os governos estaduais estão trabalhando e têm interesse em viabilizar o uso do carvão mineral para geração de energia, porque grandes investimentos estão envolvidos nesse tema. Santa Catarina investirá cerca de R$ 2 bilhões no setor com a Usitesc (Usina Termelétrica Sul Catarinense). Ferrovias e uma série de outras obras vêm junto com um empreendimento desse porte. É importante para o Sul de Santa Catarina e o governo tem interesse em viabilizar.

 

[PE] - Há novidade envolvendo o governo e o setor?

FZ - Estivemos no Ministério de Ciência e Tecnologia na última semana pedindo apoio às iniciativas que existem de tecnologia de carvão mineral, mas precisamos de uma política industrial para o carvão. Em meados de junho devemos entregar à Presidência da República uma proposta de política industrial específica para o carvão, olhando curto, médio e longo prazo.

 

[PE] - Quais os pontos dessa política?

FZ - Estamos discutindo políticas que envolvam projetos de carboquímica e de termelétricas, mas tudo ainda está em discussão. Também há uma série de incentivos para que se viabilize o uso do carvão mineral, mostre que esta fonte é sustentável e tem benefícios como um produto nacional.

 

[PE] - O que isso representa para Santa Catarina?

FZ - A Usitesc terá capacidade de gerar 440 megawatts. Isso gerará de dois a três mil empregos diretos já na construção e depois, na operação, cerca de 300 empregos na usina e 700 na mina. Serão mil empregos diretos na Usitesc para cerca de oito mil na cadeia produtora. Esperamos que em 48 meses a usina entre em operação. O projeto iniciou em 1999 e está sendo trabalhado desde então. Nunca havia tido uma oportunidade tão real de construção como essa, pela demanda que existe. O governo, nesse momento, entendeu que é necessário trazer energia firme ao sistema e o carvão mineral é a energia firme mais barata disponível.

 

[PE] - Como o setor pode ganhar mais espaço no mercado?

FZ - Hoje, temos 1,4% na matriz em geração de energia elétrica. O ideal é participarmos da matriz e contribuirmos para a suficiência energética. Não se sabe qual será o potencial hidráulico a partir de 2023 e o carvão está aí. Temos sete bilhões de toneladas de reserva comprovada, o que mostra que ainda é possível utilizar muito o carvão mineral,  por muitas décadas. Nosso foco atual é viabilizar projetos como o da Usitesc e de usinas no Rio Grande do Sul. Tudo, como já falei, depende de condições de financiamento e de incentivos do governo.

 

[PE] - Como o desenvolvimento do carvão do Sul beneficia todo o estado?

FZ - O projeto alavanca o projeto da ferrovia de 236 quilômetros, de Imbituba a Araquari, um grande ganho. Um projeto como o da Usitesc é do estado inteiro e não somente do Sul. Ele gera uma energia firme, ajuda a reduzir o custo para o consumidor final e garante segurança energética para todos os catarinenses, com capacidade para atrair empresas. Para o município de Treviso, por exemplo, onde será construída a usina, a renda per capita aumentará em cerca de 120%, mais que duplicando.

 

[PE] - A questão ambiental ainda preocupa?

FZ - Ainda há muito mito. Os projetos são modernos, com todas as licenças ambientais emitidas para instalação e com todas as mais modernas tecnologias existentes. A questão ambiental está equacionada. Na mineração também não há mais problema. Hoje em dia, se minera sem qualquer impacto ambiental. A problemática do CO2 é uma questão mundial. O carvão não representa praticamente nada - 0,34 % em emissão de gases de efeito estufa no Brasil. Se duplicar o parque instalado, o índice continuará insignificante em relação ao aumento das emissões dos carros, por exemplo.

 

[PE] - O que se vislumbra para o setor energético? Há risco de apagão?

FZ - Não acredito que tenha risco de apagão, porque o Brasil tem que botar seis mil megawatts de capacidade instalada ao ano para que possa crescer 4,7%, que é a expectativa para os próximos dez anos. Para  alcançar essa meta, precisamos melhorar a capacidade armazenada. O que está contratado agora para suprir esses seis mil megawatts, são energias renováveis, eólicas e hidráulicas, que não têm reservatórios. E o país precisa de energia firme. Por isso, há necessidade de incluir as térmicas no sistema. Não há risco de apagão, mas é preciso melhorar a base térmica nacional e o perfil de contratação para que não soframos sustos. E a base térmica mais barata é o carvão mineral.

 

[PE] - Qual foi o auge do carvão mineral?

FZ - O crescimento do carvão aconteceu em períodos de guerra e em momentos de crise de outras matrizes energéticas. O que buscamos é tornar o carvão competitivo, a médio e longo prazo, para que ocupe o seu espaço em definitivo no Brasil e que seu auge ainda chegue.

 

 

Andréa Leonora e Nícola Martins

Florianópolis, 22 de abril de 2013.

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