Entrevista com o presidente da Fecomércio, Bruno Breithaupt

13.05.2013

 

“É preciso simplificar a parafernália de leis e normas”

 

Bruno Breithaupt,  presidente da Fecomércio

 

Ele comanda o Sistema Fecomércio-SC, que hoje representa cerca de 150 mil empresas, ou seja, 73% das companhias de Santa Catarina. Isso equivale a 59% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual e a 72% da arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Juntas, as empresas ligadas aos sindicatos que compõem a Fecomércio-SC empregam 48,9% da mão de obra do estado - 16,7% no comércio varejista, 3,5% no atacadista e 28,7% na área de serviços. Mais um detalhe, entre as 150 mil empresas, 62% pertencem ao Simples Nacional. Foi para falar sobre o momento desse conjunto de empreendedores e trabalhadores que Bruno Breithaupt recebeu a reportagem da CNR-SC/ADI-SC/Central de Diários. Durante a entrevista exclusiva declarou: “O real problema brasileiro é a falta de competitividade de sua economia, que faz com que o produto importado seja mais barato que o nacional”.

 

 

[PeloEstado] - A Confederação Nacional do Comércio (CNC) defendeu a bandeira de que as importações ajudavam a conter o avanço da inflação. A elevação do índice inflacionário pode, então, estar relacionada com as ações do governo federal de desestímulo às importações?

Bruno Breithaupt - Em certa medida, o maior aperto em torno das importações contribuiu para o atual cenário inflacionário brasileiro. Entretanto, as importações não são a causa do problema, mas sim um efeito – que efetivamente ajuda a puxar os preços para baixo. O real problema brasileiro é a falta de competitividade de sua economia, que faz com que o produto importado seja mais barato que o nacional. Os custos de se produzir no Brasil são muito elevados, temos uma carga tributária exorbitante, infraestrutura e logística precárias e, principalmente, um forte descompasso entre ganhos de produtividade e ganhos salariais nos últimos anos. Esse descompasso, que aumenta os custos, tem sido repassado para os preços finais, principalmente do setor de serviços, que hoje é o responsável por manter a inflação sempre rondando o teto da meta do Banco Central.

 

[PE] - De que forma a CNC e a Fecomércio-SC têm tratado a questão?

BB - A CNC e a Fecomércio- SC procuram mudar a visão de que a importação é o principal inimigo da economia doméstica. Pelo contrário, no atual cenário, de custos internos elevados, as importações ajudam a controlar a inflação. Controle inflacionário extremamente desejado, já que permite um melhor planejamento das empresas na hora de realizar investimentos, e também uma maior possibilidade de cortes dos juros da economia, outro fator que ajuda na hora de investir. Diante disso tudo, tenho dúvidas se as medidas que o governo federal vem tomando serão suficientes para acabar com a guerra fiscal. É o mercado que vai ditar o ritmo das importações. Eu gostaria que as empresas brasileiras se fortalecessem, porque isso gera emprego aqui, o que é bom para o comércio. O ideal seria que fôssemos mais exportadores, mas estamos enfrentando obstáculos por conta da crise da Europa e dos Estados Unidos. 

 

[PE] - CNC e Confederação Nacional da Indústria (CNI), Fecomércio-SC e Federação das Indústrias (Fiesc) estão de lados opostos nessa batalha?

BB - Não estamos em lados opostos. Todos nós queremos a maior competitividade da economia brasileira. Existem pontos divergentes, sim, mas que contribuem para enriquecer o debate não só com a Fiesc como com todas as outras federações. Entretanto, para a Fecomércio está claro que a inflação é decorrente de aspectos que não estão relacionados diretamente com a importação de produtos. A política tributária de incentivo à importação existente em Santa Catarina deu muito certo e se transformou em alvo de alguns estados que perceberam o avanço na nossa economia.

 

[PE] - O que precisa mudar na política tributária brasileira?

BB - Na política tributária, faz-se necessário que as empresas tenham segurança jurídica nas operações que estão realizando, principalmente, a partir de benefícios fiscais concedidos pelo governo estadual. As empresas precisam da garantia da validação do regime tributário vigente, independente de posterior revogação, seja pelo administrativo, seja pelo judiciário. Atualmente, os empresários convivem com uma política de incertezas, com uma avalanche de mudanças tributárias quase que cotidianas. No caso do ICMS, por exemplo, temos mais de 3.500 normas no Brasil regulamentando as operações de circulação de mercadorias e prestação de serviços. A segurança jurídica, garantindo pleno conhecimento ao empresário da situação futura, favorece o investimento seguro e proporciona um desenvolvimento para a economia como um todo, qualquer que seja o setor. Isso vale também para os investidores externos. Além disso, é preciso simplificar a parafernália de leis e normas com relação a todos os tipos de impostos.

 

 

    “Para a Fecomércio-SC está claro que a inflação é decorrente de aspectos que não estão relacionados diretamente com a importação de produtos”. Bruno Breithaupt

 

 

[PE] - No Estado, como está o relacionamento com o governo e com a Secretaria da Fazenda para o atendimento às demandas do setor?

BB - O relacionamento da entidade com a Secretaria da Fazenda é propositiva, nas pautas apresentadas pelo governo do Estado, como o Diferencial de Alíquota (DIFA), e nos próprios pleitos do setor. A base de representação da entidade, por ser ampla e diversificada entre os setores do comércio de bens, serviços e turismo, faz com que todas as medidas sejam ponderadas pela entidade no relacionamento com o poder público. O DIFA é um exemplo disso. Ao passo que setores seriam prejudicados, outros se beneficiariam, como o segmento atacadista. A entidade, dessa forma, propôs à Secretaria da Fazenda que a discussão fosse setorizada, permitindo que os prejuízos fossem superados através de outras proposições, e os benefícios do diferimento fossem garantidos.

 

[PE] - Como tem sido o ano de 2013 para o comércio? 

BB - Desde a metade do ano passado o comércio catarinense vem apresentando desaceleração no volume de vendas. Segundo dados do IBGE, enquanto que em junho do ano passado as vendas cresciam a uma taxa de 8,79%, em fevereiro deste ano (último dado disponível) as vendas tiveram crescimento de  5,26% (ambas as comparações referem-se à variação acumulada dos últimos 12 meses). Ou seja, o comércio continua crescendo, mas já não tem as mesmas taxas de períodos atrás. Em geral, um menor ganho de renda por parte das famílias, muito associado ao próprio descontrole da inflação, e o consequente menor recurso ao crédito, vem contribuindo para esse cenário de crescimento menos expressivo das vendas. Mas o comércio não para.

 

[PE] - Dentro desse quadro, como foi o comportamento de vendas para o Dia das Mães?  

BB - Mesmo que as vendas no geral não apresentem variação tão forte como as observadas até 2011, as datas comemorativas continuam sendo de forte movimentação. As famílias estão preferindo não comprar durante os dias comuns para gastar nas datas especiais. Para o Dia das Mães, a Fecomércio-SC estimou uma variação em torno de 7% no faturamento das empresas em relação à mesma data do ano passado. Estimativa que tem por base a maior expectativa de gasto médio do consumidor, que na Pesquisa de Intenção de Compra para o Dia das Mães de 2013 ficou em R$ 151,39, valor superior ao da mesma pesquisa de 2012, R$ 123,00. O presente mais procurado é no segmento de vestuário e a região de Joinville terá o maior gasto médio por consumidor (R$ 180,56). A variação de gasto médio entre as diferentes regiões da pesquisa são pequenas, o que traz uma marcante uniformidade da situação econômica do Estado. Mas os índices reais só teremos na quarta-feira (15), quando a pesquisa de resultado de vendas será finalizada no estado.

 

Andréa Leonora e Nícola Martins | Fotos: Nícola Martins 

Florianópolis 13 de maio de 2013.

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