Entrevista com o presidente da Fiesc, Glauco José Côrte

15.07.2013

“O industrial está vivendo um momento de expectativa”

Glauco José Côrte, presidente Fiesc

 

"Há necessidade de um mutirão. Temos que transformar Santa Catarina, de fato, num canteiro de obras."

 

Como foi o primeiro semestre para a indústria catarinense? O que se projeta para o segundo semestre? Que cenário é esse em que vive o Brasil, com alta inflacionária, queda no consumo e elevação de juros? Essas e muitas outras perguntas foram respondidas pelo presidente do Sistema Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), em entrevista exclusiva à rede CNR-SC/ADI-SC/Central de Diários. Seu lado crítico afirma que o governo federal não consegue fazer os investimentos que anuncia, o que prejudica toda a cadeia produtiva. Seu lado otimista, no entanto, garante que o país tem plenas condições de retomar o caminho do crescimento: “Esse novo ambiente que estamos vivendo deve ser um instrumento de estímulo ao setor privado e não de maior intervenção do setor público”.

 

[PeloEstado] - Elevação da taxa básica de juros, inflação subindo, dólar em alta e Produto Interno Bruto (PIB) em queda. Como a indústria reage a esse cenário?

Glauco Côrte -Nós tivemos um primeiro semestre difícil, tanto para a indústria quanto para a economia em geral. Entramos no ano com uma expectativa de desempenho bem melhor, o que não se confirmou. No caso de Santa Catarina, estamos fechando o primeiro semestre com uma pequena queda na produção, estabilidade nas vendas e estoque muito elevado. Também não fomos bem nas exportações, com déficit de 2,4 bilhões de dólares de janeiro a junho. E o cenário para esse segundo semestre não é alentador. Está se repetindo em 2013 o mesmo fenômeno que tivemos nos dois últimos anos, que é a inflação superior ao crescimento do país. A competitividade da indústria está contida pela elevação dos custos, pelo baixo investimento em infraestrutura física e pressionada por uma inflação em alta.

 

[PE] - Pesa ainda a questão tributária.

GC - Esse não é um ingrediente novo, mas é uma das causas do custo elevado da produção brasileira. Para se ter uma ideia, aqui no estado tivemos crescimento da massa salarial acima de 4,4%, de janeiro a maio, e a nossa produtividade tem sido negativa, ou praticamente negativa. E essa não é uma realidade só de Santa Catarina. Nos últimos dez anos, a média do crescimento da produtividade do trabalhador brasileiro foi inferior a meio por cento. Entre países com porte semelhante ao Brasil, só estamos à frente da Itália nesse sentido.

 

[PE] - O que faz piorar essa situação?

GC - Como falei, a carga tributária não é novidade. O que há de novo é o processo de deterioração crescente da infraestrutura. O país não está conseguindo investir, situação agora agravada pelo fato de o setor privado também estar resistindo à realização de novos investimentos. Temos planos de investimentos, indicados por pesquisa, que devem somar R$ 1,5 bilhão, a mesma média dos últimos anos. Ainda assim, é possível perceber que a confiança do industrial catarinense vem caindo mês a mês.

 

[PE] - Como está o Índice de Confiança do Empresário Industrial catarinense (ICEI)?

GC - Desde dezembro estamos em queda do ICEI e hoje estamos com 53 pontos, para uma média histórica de 57,5 pontos. Menos confiança, menor disposição para investir. O industrial está vivendo um momento de expectativa. Ainda que acredite que o país possa iniciar um processo de recuperação, age com mais cautela. Afinal, estamos diante de um cenário de baixa competitividade, queda de consumo e retração também nas vendas externas. No primeiro semestre, Santa Catarina recuou 3% nas exportações e o Brasil, 2,4%.

 

[PE] - Há perspectiva de melhora desse quadro?

GC - Não. A China está desacelerando o crescimento e os Estados Unidos, que iniciou um processo de recuperação, hoje é o destino de uma parcela muito pequena das nossas exportações. E o processo de recuperação da economia norte-americana, ao mesmo tempo em que favorece um pouco as nossas exportações, reduz a nossa atratividade em relação aos investimentos, que gradativamente estão voltando para os Estados Unidos. Estamos numa encruzilhada. Tudo indica que o modelo que o governo brasileiro tem aplicado nos últimos anos está se esgotando. A capacidade de consumo da população está se exaurindo. Houve, sim, um crescimento expressivo do poder aquisitivo das famílias, mas chegou em um momento de crescimento modesto daqui para frente.

 

[PE] - Isso pode interferir no emprego?

GC - Embora ainda tenhamos um bom ritmo de crescimento do nível de emprego, há uma desaceleração também aí. A expectativa é que no segundo semestre não se consiga repetir os bons índices de anos anteriores em geração de emprego. Normalmente é o melhor semestre, mas as indústrias estão entrando no período com estoques elevados e a ocupação da nossa capacidade está estável, na faixa dos 83%. O panorama é de um crescimento modesto outra vez em 2013, com baixa contribuição do setor industrial. Se nós conseguirmos ter um crescimento, por menor que seja, já estaria bom, uma vez que no ano passado tivemos queda na produção industrial.

 

[PE] - Quais as projeções?

GC - A Confederação Nacional das Indústrias (CNI) trabalha com um crescimento do setor industrial em 2013 de mais ou menos 1%, contra os 2,5% projetados no início do ano e para uma expectativa de incremento do PIB que caiu para 2%, quando no início do ano era de 3,5% para a CNI e de 4,5% para o governo. Todas as projeções estão sendo reavaliadas. E agora com um componente novo, que sempre inibe o crescimento, que é a taxa de juros com três elevações seguidas, chegando aos 8,5% ao ano. Estamos vivendo um momento que exige muita reflexão.

 

[PE] - No início da entrevista o senhor falou que o país não está conseguindo investir...

GC - Há muitos projetos, muitos planos, muitos anúncios... mas, efetivamente, o governo continua com dificuldade de passar do plano para a ação. Criou-se uma expectativa muito positiva, caso das ferrovias para Santa Catarina, mas não há sequer projetos prontos ou obras começando. Embora em termos de planejamento o quadro seja bastante otimista, a concretização ainda é lenta.

 

[PE] - E o governo do Estado nesse contexto?

GC - O governo de Santa Catarina tem um projeto ambicioso na área de infraestrutura. Tem lançado muitas ordens de serviços e anunciado investimentos em muitos trechos novos que, uma vez efetivados, vão propiciar uma melhoria na redução dos custos de logística. Mas a economia não espera. Os nossos concorrentes não esperam. É preciso imprimir um ritmo muito mais dinâmico. Há necessidade de um mutirão. Temos que transformar Santa Catarina, de fato, num canteiro de obras.

 

[PE] - O senhor esteve no Japão e participou das tratativas para a exportação da carne suína catarinense. Qual a sua expectativa?

GC - Haverá um reflexo bastante importante na nossa economia, porque a agroindústria é o segmento de maior peso na transformação do valor industrial catarinense. O mercado japonês foi aberto, mas é um mercado que teremos que disputar com Estados Unidos, Canadá, Dinamarca e com os produtores japoneses. Durante a missão, descobrimos que o governo japonês também protege a produção local. Nem tudo se resume a preço. Temos uma tradição de exportação para o Japão na área de frango, há uma boa aceitação do produto catarinense, a nossa reputação é boa e tudo isso é positivo para nós. Ainda assim, teremos que fazer alguns ajustes progressivos. Acredito que de três a cinco anos o cenário será bastante favorável.

 

[PE] - E quanto ao setor automobilístico para o estado?

GC - Temos condições de nos transformar num polo dinâmico do desenvolvimento do país. Algumas condições nos diferenciam e a vinda da BMW é um fator de atração para outras empresas. Fomos aprovados no raio-x feito pela BMW em nosso estado, em nossa economia. Isso é uma credencial. Mas temos que ter agilidade, investir em melhores acessos aos portos, em ferrovias. Precisamos melhorar a eficiência operacional para corresponder às necessidades do setor privado.

 

[PE] - Para finalizar...

GC - É preciso dizer que o Brasil, apesar de todas as dificuldades, tem plenas condições de reverter o quadro. Esse novo ambiente que estamos vivendo deve ser um instrumento de estímulo ao setor privado e não de maior intervenção do setor público. Está na hora de o público e o privado serem tratados como parceiros e não como adversários. Temos esperança de que vamos evoluir para isso no país.

 

Andréa Leonora e Nícola Martins

Florianópolis, 15 de julho de 2013.

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