Entrevista com o presidente da SCGás, Cósme Polêse

10.06.2013
“Estamos bem próximo de vivenciar um apagão do gás” 
Cósme Polêse, presidente da SCGás
 
 
"O biogás é uma alternativa importante e, sem dúvida, uma solução ambiental singular. "
 
 
Formado em Economia, Ciências Contábeis e Administração, possui Especialização em Economia e cursa Mestrado em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Sustentável. Polêse ocupou o cargo de diretor de planejamento da Companhia de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (Codesc) e atuou profissionalmente no Sapiens Park S.A., na Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina (Fatma), no Ministério do Meio Ambiente e no BESC. Nessa entrevista exclusiva à reportagem da CNR-SC/ADI-SC/Central de Diários, ele falou sobre a preocupação com o esgotamento da oferta de gás natural e todas as soluções possíveis para reverter a situação que, no caso de Santa Catarina, pode representar perda de empresas. Polêse garante que “se o gás natural não estivesse disponível, é bem provável que a BMW não escolheria Santa Catarina para instalar sua primeira fábrica na América Latina”. 

 
[PeloEstado] - O senhor  esteve na Europa para conhecer sistemas de biogás. Quais os planos da SCGás nessa área?
Cósme Polêse - Nossa companhia tem papel fundamental nos projetos de biogás em estudo no Estado: adquirir o gás que será gerado pelos projetos e distribuí-lo aos consumidores, apoiar tecnicamente e fomentar os projetos através de ações que incluem a parceria com órgãos governamentais.Atualmente, possuímos, em parceria com diversas entidades, três projetos que intentam produzir biogás em Santa Catarina. A implantação de usinas em Concórdia e Braço do Norte e o aproveitamento de gás gerado através de aterro sanitário da Grande Florianópolis. Este último deve permitir que em 2015 cerca de 50 mil m³/dia de energia renovável seja distribuída através de nossa rede. Nossa recente passagem pela Alemanha e Suécia, países referência na exploração de biogás, nos mostrou que os projetos são viáveis e há tecnologia disponível para que possamos operar com biogás.
 
[PE] - A questão ambiental também pesa nesses planos?   
CP - O biogás é uma alternativa importante e, sem dúvida, uma solução ambiental singular. Santa Catarina é um Estado que responde por mais de 30% do plantel nacional de suínos e estudos realizados pela SCGÁS em parceria com a UFSC demonstram que há potencial de geração de 3MMm³/dia de biometano, equivalente a uma vez e meia  o que compramos hoje da Bolívia. Além do tratamento adequado para dejetos gerados na produção da carne, a produção de biogás tem aspectos como geração de renda para o agricultor e ampliação do suprimento com energia renovável.
 
[PE] - Há uma preocupação com o esgotamento da oferta de gás natural para o Sul do país?
CP - Estamos operando no limite. Distribuímos 95% do gás disponível. Ou seja, estamos bem próximo de vivenciar um “apagão do gás” se, através do Ministério de Minas e Energia  (MME), da própria Petrobras ou outro supridor, não recebermos nova oferta do insumo. Temos uma fila de clientes esperando pelo gás e potencial para mais do que duplicar o que distribuímos hoje, considerando apenas o consumo industrial. Um exemplo: se o gás natural não estivesse disponível, é bem provável que a BMW não escolheria Santa Catarina para instalar sua primeira fábrica na América Latina. As alternativas de suprimento passam, essencialmente, por investimentos em infraestrutura de transporte e aquisição de gás dos Estados Unidos, Malásia, Trindade Tobago ou outro país ofertante. Nossas opções no médio e longo prazo, conforme estudos do Grupo de Economia da UFRJ, sinalizam para a necessidade de implantação de terminal de GNL (gás natural liquefeito) na região Sul do Brasil, investimentos na recomprensão do Gasoduto Brasil-Bolívia (Gasbol) e a construção de novos gasodutos de transportes que “cortariam” regiões ainda sem atendimento. Cabe lembrar que temos gás sendo queimado diariamente em plataformas petrolíferas  próximas ao território catarinense. Estudos de viabilidade econômica devem ser feitos para analisar a possiblidade de trazê-lo até a costa. Além disso, o “pré-sal” deverá produzir e ofertar muito gás. 
 
[PE] - Como estão as tratativas com o Ministério de Minas e Energia e a Petrobras sobre a questão?   
CP - Eles conhecem a necessidade de Santa Catarina. Recentemente, estivemos reunidos com o MME e nos foi apresentada uma alternativa de curto prazo que depende da aprovação da Petrobras: a aquisição do GNL entregue na Baía de Guanabara. Nesse caso, faríamos uma permuta de gás com o Estado do Rio de Janeiro. Aguardamos também o lançamento do Plano de Expansão da Malha de Transporte (Pemat), o planejamento decenal do Ministério. O MME afirma que o problema não está na infraestrutura de transporte e, sim, em encontrar mais fontes de oferta de gás.
 
[PE] - Que papel as federações industriais (Fiesc, Fiergs e Fiep) cumprem nesse momento crítico?   
CP -  Papel decisivo. A principal demanda por gás natural vem do setor industrial. As federações têm se mobilizado em prol da ampliação de suprimento para os Estados do Sul. Seminários, encontros e fóruns que são realizados de forma permanente visando sensibilizar a classe política e os setores estratégicos que fazem a gestão da energia nacional. Na prática, essas ações têm colocado o gás natural na agenda de setores estratégicos nacionais. Precisamos mostrar ao país que o gás é o combustível que fará a transição para energia renovável e o produto não pode ficar apenas como um back up do setor elétrico. Ele terá papel no desenvolvimento econômico das cidades muito maior do que desempenha hoje.
 
[PE] - A bancada federal catarinense tem contribuído nesse debate?   
CP - Sim, principalmente os senadores. O senador Luiz Henrique da Silveira e o governador Raimundo Colombo proporão agenda com a presidente Graça Foster para que possamos apresentar pessoalmente as necessidades de Santa Catarina. Quando estivemos em Brasília no mês passado, Luiz Henrique  lembrou que, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos, Graça conceituou a SCGÁS como distribuidora referência para o Brasil. Temos certeza de que com essa manifestação, e pelo fato de a Gaspetro ser sócia da SCGÁS, teremos uma solução em breve.
 
[PE] - Quais os planos de expansão?   
CP - Executamos um total de sete frentes de obras neste ano que, quando concluídas, ampliarão em 45 km a malha de gasodutos em Santa Catarina, que hoje é de 1.020 km. Os maiores investimentos são em redes estruturantes que passarão a atender os diversos segmentos de mercado que possuem o gás natural como alternativa energética. Considerando um cenário conservador, iremos crescer 50% em quilômetros de rede implantada nos próximos cinco anos, ultrapassando 1,5 mil km e atendendo mais de 75 cidades. Isso nos permitirá entregar o gás a 120 mil veículos automotivos através de 155 postos, mais de 410 estabelecimentos comerciais e quase 300 indústrias. Um crescimento de 15% no GNV, de 58% no atendimento a comércios e 36% a indústrias. O principal crescimento será no mercado residencial, onde pretendemos saltar das atuais 4 mil para 30 mil unidades residenciais atendidas. Nosso grande objetivo, sem dúvida é ampliar nossa capacidade de investimento para fazer mais, melhor e mais rápido.

[PE] - Em que prazo Santa Catarina tem que ver a situação resolvida antes de começar a perder empresas para outros estados?    
CP - A orientação que temos do governo do Estado é atender a todos os novos empreendimentos que desejam se instalar em Santa Catarina. Hoje a demanda é maior que a oferta. Temos que adequar nossos planos de investimentos, considerando a solução na ampliação do suprimento, para que nossa rede de distribuição alcance novas cidades e regiões. Quando estive na Malásia, no ano passado, participando do maior encontro de gás natural do mundo, a mensagem principal que recebemos é que aqueles que possuírem infraestrutura de transporte e distribuição receberão o gás natural, pois a projeção de oferta chegará a índices históricos nos próximos dez anos. É o que pretendemos fazer.   
 
 
Andréa Leonora e Nícola Martins
Florianópolis, 10 de junho de 2013.
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