Entrevista com o Secretário de Estado de Agricultura e Pesca de SC, João Rodrigues

03.06.2013

“Estiagem já causou R$ 96 milhões de prejuízo em SC”

João Rodrigues, Secretário de Estado de Agricultura e Pesca de SC

 

Um dia pretendo governar Santa Catarina.

 

Secretário de Estado de Agricultura e Pesca desde o início do mandato do governador Raimundo Colombo, João Rodrigues licenciou-se do mandato de deputado federal - eleito com 134.558 votos - para assumir o desafio. Em sua gestão, buscou manter o destaque catarinense no setor agropecuário e pesqueiro com o apoio das empresas públicas Epagri e Cidasc, que dão suporte para o trabalho realizado pela secretaria. Nesta entrevista exclusiva concedida à CNR-SC/ADI-SC/Central de Diários, o secretário fala da conquista da abertura do mercado japonês à carne suína, uma antiga reivindicação de Santa Catarina, do combate à estiagem e dos programas da secretaria, além de seus planos políticos. Rodrigues atendeu à reportagem enquanto se recuperava de uma cirurgia. “A Secretaria da Agricultura e da Pesca vem desenvolvendo uma série de programas em apoio ao agricultor catarinense.”
 
 
[PeloEstado] - Como a abertura do mercado japonês  beneficia a cadeia da suinocultura catarinense?
João Rodrigues - Além do reconhecimento da qualidade da carne pelo mais exigente e valorizado importador mundial do produto, a abertura do mercado japonês beneficia a expansão do setor produtivo e industrial da suinocultura, com manutenção e geração de empregos no meio rural e urbano e incremento da economia estadual. A abertura do mercado japonês, por si só, representa uma grande conquista, em função do seu potencial de importação anual, avaliado em 1,2 milhão de toneladas de carne suína, ao custo aproximado de 5 bilhões de dólares. A parcela inicial, de 10% a 15% desse mercado, significa uma condição decisiva para a estabilidade no destino da produção catarinense, estimada em 800 mil toneladas em 2013. Por outro lado, mercados consumidores competitivos, como a Coreia do Sul, que mantém negociação com a mesma finalidade em Santa Catarina, poderão considerar a decisão japonesa em termos de segurança sanitária para definir favoravelmente às importações de carne suína catarinense.
 
[PE] - Quais as perdas causadas pela seca no estado?
JR - A estiagem de agosto e início de setembro de 2012 teve impacto direto nas lavouras de inverno, especialmente, na cultura de trigo, retardando o desenvolvimento desta lavoura. Além disso, apressou a maturação das pastagens de inverno e atrasou o plantio das pastagens de verão. Com isso, os produtores de leite tiveram aumento do custo de produção, pois foi necessário suplementar a alimentação das vacas com alimentos concentrados. A estiagem que ocorreu em novembro foi a que mais prejudicou a lavoura, pois acarretou em atraso no plantio das lavouras de verão e o desenvolvimento vegetativo dessas lavouras foi prejudicado, causando perda de produção, especialmente nas lavouras de milho soja e feijão. Estima-se que a estiagem tenha causado um prejuízo da ordem de R$ 96 milhões à economia catarinense, em 2012 e 2013.
 
[PE] - Quais as culturas e regiões mais atingidas?
JR - As maiores perdas ocorrem nas lavouras de grãos, pelo fato de ocuparem uma grande área plantada, sendo praticamente inviável o uso de irrigação, seja pelo alto investimento ou pela indisponibilidade de água para a área ocupada. Geralmente, a estiagem tem sido mais recorrente e mais intensa no Oeste. Na safra 2011-12, o Extremo Oeste foi a região mais atingida, inclusive com falta de água para uso humano e para fornecimento aos animais. Na safra 2012-13, a região mais atingida foi o Meio-Oeste.
 
[PE] - Quais investimentos estão sendo feitos?
JR - O maior volume de investimentos da história de Santa Catarina em ações de combate a estiagem está sendo realizado pelo governo Raimundo Colombo e Eduardo Moreira. São R$ 60 milhões na perfuração de poços artesianos, aquisição de distribuidores de adubo líquido e construção de 1.632 cisternas com capacidade de 500 mil litros para suinocultores e avicultores. Serão adquiridos três comboios de perfuração de poços artesianos, compostos por perfuratrizes, ferramentas auxiliares e caminhões de apoio. Cada comboio de perfuração de poços artesianos tem capacidade de atingir até 500 metros de profundidade, sendo que em solo catarinense a profundidade média dos poços é de 150 metros. Ao total, são quase R$ 100 milhões de investimentos e mais R$ 10 milhões do Programa Juro Zero Agricultura e Piscicultura para construção de cisternas. Com esses investimentos, estaremos tirando quase 30 mil pessoas dos problemas causados com a estiagem.
 
[PE] - Alguns estados estão apresentando perda de qualidade no solo. Qual a situação do solo catarinense?
JR - Em razão das características das chuvas - com ocorrência de chuvas erosivas durante todos os meses do ano -, dos tipos de solos e do relevo acidentado, é grande o risco de erosão em nosso estado, assim como no Rio Grande do Sul e no Paraná. Santa Catarina entrou no cenário nacional e, até, no cenário mundial a partir dos anos 90, com a implantação do projeto Microbacias/BIRD. A partir dessa época, foram desenvolvidos e implantados nas propriedades dos agricultores sistemas conservacionistas de manejo do solo que serviram de modelo para os agricultores familiares de várias regiões do Brasil e do mundo. Os inúmeros estudos sobre cultivo mínimo, uso de plantas de cobertura do solo e do próprio plantio direto nas pequenas propriedades foram capazes de mudar a situação de intensa degradação do solo e da água no estado. Como a irrigação é uma técnica indisponível para a grande maioria dos agricultores catarinenses e não temos mananciais com água suficiente para fazer irrigação nas lavouras, a saída é investir no manejo correto do solo.
 
[PE] - Quais os números do Seguro Agrícola no estado?
JR - O Programa de Subvenção ao Seguro Agrícola, criado em 2011, tem por objetivo minimizar o custo que os produtores catarinenses têm para realizar seguro de suas lavouras.  Além da maçã, as culturas de arroz, cebola, feijão, milho, soja, trigo, uva e frutas de caroço, como ameixa, nectarina e pêssego, também são atendidas. Com orçamento de R$ 4,1 milhões para a safra 2013/2014, o programa já definiu até esse mês (maio) o pagamento de R$ 2,2 milhões beneficiando 1,2 mil agricultores na subvenção de até 50% da parcela do prêmio que cabe ao produtor, já descontada a subvenção concedida pelo governo federal.
 
[PE] - Ainda se discute uma fusão entre a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola (Cidasc) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural (Epagri)? 
JR - Está totalmente descartada essa possibilidade, até porque as duas empresas têm missões distintas. A Cidasc cuida da sanidade animal e vegetal de Santa Catarina, mantendo o status do único estado de livre aftosa sem vacinação. E a Epagri leva o conhecimento, tecnologia e a extensão para o desenvolvimento sustentável. Então, reforçando, enquanto eu for secretário da Agricultura e da Pesca e o governador for o Raimundo Colombo, está totalmente descartada a fusão.
 
[PE] - Quais os outros programas da secretaria?
JR - A Secretaria da Agricultura e da Pesca vem desenvolvendo uma série de programas em apoio ao agricultor catarinense, com destaque para o programa Juro Zero Agricultura e Piscicultura, que desde 2010 já beneficiou 8.245 famílias de produtores rurais com R$ 12.536.833 de juros pagos pelo Fundo de Desenvolvimento Rural; o programa Terra Boa que já atendeu 48.126 famílias com distribuição de 831.385 toneladas de calcário, mais 136.996 famílias com distribuição de 503.026 sacos de sementes de milho, e 8.107 famílias com 8.107 kits forrageiras. No programa de fomento geral foram beneficiadas 1.942 famílias com R$ 12.363.251. No Programa Armazenar foram subvencionados, desde 2010, R$ 4.373.004, além de programas de apoio a piscicultura com distribuição de tratores e guinchos para colônias de pescadores, de regularização fundiária, crédito fundiário, o  Fundo Estadual de Sanidade Animal  (Fundesa), Programa de Controle da Anemia Infecciosa Equina e o de Erradicação da Brucelose, entre outros.
 
[PE] - Sobre política, quais seus planos para 2014 e 2018?
JR - Pretendo ser candidato a deputado federal na próxima eleição, mas, se for preciso, e preparado estou, meu nome está à disposição para qualquer desafio para compor a chapa majoritária. Em 2018, a meta é participar da chapa majoritária.
 
[PE] - Qual o seu maior sonho na política?
JR - Um dia pretendo governar Santa Catarina.
 
 
Andréa Leonora e Nícola Martins    
Florianópolis , 03 de junho de 2013.
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