Entrevista com o secretário de Planejamento do Estado, Murilo Flores

19.08.2013

“Santa Catarina é um polo de atração”

O secretário de Planejamento do Estado não se inibe diante de nenhuma pergunta. Para todas tem respostas, não só rápidas como firmes. Nessa entrevista exclusiva à rede CNR-SC/ADI-SC/Central de Diários, ele conta como está o andamento do Pacto por Santa Catarina e admite que a área em que as obras estão mais lentas é a da Saúde, ainda que comemore o que virá de resultados. Flores também falou sobre a viagem que fez à Coreia do Sul e da necessidade de investimentos de grande proporção para que o estado possa atrair mais empresas. Ao final, na condição de filiado ao PSB, falou sobre política: “Vivemos um desarranjo político-partidário. Não temos mais uma linha clara entre Esquerda e Direita”. 

 

[PeloEstado] - Em que estágio está o Pacto por Santa Catarina?

Murilo Flores - Temos quatro grandes contratos de financiamento em andamento: dois com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), um com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e um com o Banco do Brasil. Eles dão sustentação ao Pacto. A Assembleia Legislativa também já está analisando um projeto de lei para outro contrato com o Banco do Brasil, no valor de R$ 2 bilhões. Estes contratos somam o maior volume de recursos. Porém, existem outras fontes de menor expressão – não em importância, mas em valor. Temos um convênio com o Ministério da Integração Nacional, de cerca de R$ 250 milhões para obras de Defesa Civil, por exemplo.

 

[PE] - Em que áreas se percebe maior avanço?

MF - O setor de Infraestrutura, principalmente em rodovias, é o que mais avança e o que tem volume maior de recursos. Tivemos alguns problemas pontuais, mas é o setor com melhor desempenho. Isso acontece porque grande parte dos projetos já estava pronta, só faltava o recurso. Um setor que nos preocupava muito pela burocracia envolvida era a Educação, porque são muitas pequenas obras. O que acontece é que as escolas tinham problemas de documentação. Muitas não possuíam nem escritura ou averbação, documentos essenciais para liberação de recurso do BNDES. Surpreendentemente, está correndo tudo bem. São 300 escolas com obras concluídas ou em andamento e esse número deve crescer, porque está fluindo numa rapidez muito grande. As escrituras foram obtidas com trabalho árduo das secretarias de Desenvolvimento Regional e das prefeituras. As construções de presídios na Justiça e Cidadania também avançam consideravelmente. A situação é gravíssima a ponto de haver decisões judiciais impedindo mais prisões por falta de vagas. É o caos total. Diante disso, o governador assinou um decreto de emergência para ampliar os presídios de Itajaí, Criciúma e Joinville e as obras estão caminhando muito bem. São 640 vagas só nessas três. Está caminhando bem, porque estamos com um tipo de cela pré-moldada que é mais segura e mais rápida para construção. Esse mesmo regime será contratado para construção e ampliação de outras unidades prisionais, nos permitindo alcançar a ousada meta de mais 2,5 mil vagas até o início de 2014.

 

[PE] - Qual a área que mais preocupa?

MF - A área que está mais lenta do que deveria é a da Saúde. Entretanto, o resultado vai ser muito bom. Já temos ordem de serviços em Chapecó, estamos encaminhando processos de financiamentos para Lages e Itajaí. A ampliação será tão grande nestas unidades que podemos considerar quase como novos hospitais. Estamos com pedido no BNDES de cerca de R$ 260 milhões para isso, mas ainda não houve liberação. A verdade é que o BNDES não está dando vazão à nossa velocidade. É preciso reconhecer que eles também têm uma estrutura limitada e precisam analisar projeto por projeto. 

 

[PE] - Em quanto está o Pacto por SC? E como está o endividamento do Estado?

MF - Nós temos R$ 9,3 bilhões e podemos chegar a R$ 11 bilhões no Pacto. Quanto ao endividamento. Muitos críticos têm falado olha, isso é um risco. É claro que nenhum estado gostaria de se endividar. O correto seria um pacto federativo novo que permitisse melhor distribuição dos recursos. Enquanto isso não ocorre, a única forma é partir para o endividamento. Estamos cuidando para que os investimentos impliquem no menor aumento possível do custeio. Além disso, alguns investimentos de infraestrutura têm componente econômico importante, porque vão aumentar a competitividade da nossa economia. Associados a outras ações, como Inovação, que é um foco da Secretaria de Desenvolvimento Econômico Sustentável, esses investimentos são uma aposta no crescimento da economia catarinense e, em consequência, da arrecadação. São financiamentos com prazos longos, de sete anos, e juros baixos, o que nos dá uma margem de segurança. 

 

[PE] - E as críticas de que o governo é apático?

MF - As pessoas não têm ideia do que o governador Raimundo Colombo teve que fazer para controlar a economia do Estado. O sentimento de responsabilidade pública que ele tem é muito grande. Resultado: em 2012 ainda não tínhamos as contas sob controle e em 2013 já temos. E já pagamos a metade do 13º salário. Essa é a nossa estratégia. Manter as contas sob controle, manter o custeio baixo e ter tempo para esperar o impacto na nossa economia dos investimentos que estão sendo feitos. E isso se faz melhorando a infraestrutura, aplicando em inovação e atraindo novas empresas, como a BMW. Santa Catarina, hoje, é um polo de atração.

 

[PE] - O senhor fez uma viagem para a Coreia recentemente. Quais os resultados?

MF - Visitei a Hyundai, a Samsung... eles estão muito interessados em investir no Brasil e muito curiosos com Santa Catarina. Mas já tinham muita informação sobre nosso estado. Só que eles estão esperando algo muito concreto do Estado. E essa viagem foi de sondagem. Dinheiro eles têm para investir. Interesse também. Mas nossa preocupação é ter infraestrutura para receber mais empresas. Se nós não fizermos as ferrovias Norte-Sul e Leste-Oeste, se não fizermos o intermodal, com ligação entre aeroportos, portos, rodovias e ferrovias, se não modernizarmos nossos portos e ampliarmos nossos aeroportos, não haverá esforço suficiente que se faça pelo estado para garantir competitividade.

 

[PE] - Quais os seus projetos políticos?

MF - Eu, pessoalmente, não tenho. Sou parceiro do governador Raimundo Colombo e tenho candidato a presidente, o Eduardo Campos, porque sou membro do Partido Socialista Brasileiro. Estarei com os dois em 2014.

 

[PE] - Sobre a filiação do secretário Paulo Bornhausen ao PSB. Os Bornhausen estão virando Esquerda ou o PSB está virando Direita?

MF - Até o PT assumir o governo federal, em 2003, ainda havia certa diferenciação ideológica. Mas desde que o PT entrou virou uma confusão essa coisa de Direita e Esquerda. Os acordos partidários não têm nada a ver com esses posicionamentos. Fiz doutorado em Sociologia Política e é obrigatório o estudo de todos os pensadores, inclusive Marx (Karl Marx, fundador da doutrina comunista). Eu acho que quando alguém chama o Hugo Chávez de “esquerda” o Marx deve rolar na tumba e gritar não é isso o que eu estava dizendo! Um populismo atrasado, latino-americano, sendo a vanguarda de Esquerda? Sobre os Bornhausen... o que está acontecendo é que as pessoas estão começando a olhar as coisas de forma mais ampla. A entender que as questões sociais não podem ser dissociadas das econômicas. Não existe um país desenvolvido diante de um país injusto. E o Brasil precisa buscar justiça social para chegar ao primeiro mundo. Ou seremos sempre a quinta economia, a quarta economia, mas nessa bagunça que somos. O Eduardo Campos é um cara ultramoderno e plural. E ninguém vai mais governar o Brasil se não entender a pluralidade do país. Vivemos um desarranjo político-partidário. Não temos mais uma linha clara entre Esquerda e Direita.

 

 

Entrevista e fotos: Nícola Martins | Edição: Andréa Leonora 

Florianópolis, 19 de agosto de 2013.

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