Entrevista com o secretário Nacional de Políticas de Turismo do Ministério do Turismo (MTur), Vinícius Lummertz

17.06.2013

“O turismo não é vagão. É locomotiva!”

Vinícius Lummertz, secretário Nacional de Políticas de Turismo do Ministério do Turismo (MTur)

 

"Precisamos começar a nos comparar com os grandes destinos turísticos do mundo."

 

Bacharel em Ciências Políticas, pela Universidade Americana de Paris, França, é pós-graduado na Kennedy School, da Harvard University, Estados Unidos, e no International Institute for Management Development (IMD), de Lausanne, Suíça. Foi secretário de Estado do Planejamento e de Articulação Internacional, presidente responsável pela implantação da SC-Parcerias S.A., e secretário de Turismo de Florianópolis. Atualmente, é secretário Nacional de Políticas de Turismo, do Ministério do Turismo (MTur), e secretário Executivo do Conselho Nacional do Turismo, que reúne 71 instituições. Em entrevista à CNR-SC/ADI-SC/Central de Diários, Lummertz falou sobre a prova de fogo do turismo brasileiro com os grandes eventos esportivos, como a Copa das Confederações, que começou no sábado (15): “Inegavelmente, o turismo saiu de uma posição periférica na agenda nacional para uma posição central”, afirma.

 

[PeloEstado] - Como a sua secretaria vem atuando na preparação do país para os grandes eventos?
Vinícius Lummertz - Não só a secretaria que coordeno, mas o Ministério do Turismo como um todo participa diretamente do Grupo Gestor da Copa, o G-Copa, que envolve a Copa das Confederações e da Copa do Mundo. Diretamente, mediante obras nas cidades-sede, e de outras formas. Estamos lançando um aplicativo para celular em três idiomas para as cidades-sede da Copa das Confederações que, depois, será ampliado para todas as cidades-sede da Copa do Mundo. Temos ainda um programa de capacitação de 240 mil pessoas, inclusive aqui, em Santa Catarina, para onde foram deslocados R$ 3 milhões com vistas à Copa do Mundo, resultado de parceria com a Secretaria de Turismo do Estado. A nossa atuação é dentro de um conjunto, cada um com a sua especialidade, com o entendimento que o maior legado desse período vai ficar com o próprio Ministério do Turismo. Passados os grandes eventos, sobra o turismo e a mudança no entendimento sobre a importância do setor. Inegavelmente, o turismo saiu de uma posição periférica na agenda nacional para uma posição central. 
 
[PE] - Como esses eventos afetarão Santa Catarina?
VL - Apesar de não ter nenhuma sede da Copa, Santa Catarina vai ter algum reflexo pela possível presença de seleções instaladas em centros de treinamento em Florianópolis e Joinville. Santa Catarina precisa, na verdade, aprofundar sua estratégia de turismo. O estado é muito bem sucedido no setor, que tem uma participação no PIB catarinense três vezes maior que a média nacional. Só que estamos numa outra etapa agora. Precisamos começar a nos comparar com os grandes destinos do mundo. No que diz respeito à Copa, nós não temos um papel central, não somos sede e não teremos qualquer impacto direto. Mas o impacto indireto da mudança da importância do turismo no Brasil vai ser percebido também em Santa Catarina. O turismo mudou de importância política e institucional. E isso só nos beneficia. Nós temos que optar pelo desenvolvimento qualitativo. E o turismo está no centro disso, porque o nosso potencial natural e de diversidade étnica é único no planeta.   
 
[PE] - Haverá algum grande evento para debater e definir prioridades quanto às políticas para o setor?
VL - Nós lançamos recentemente um novo programa de regionalização do turismo, com novas premissas, e lançamos o Plano Nacional do Turismo, com as metas do setor. Estamos mudando de patamar, buscando um novo marco legal, com prioridade para parques naturais e todo esse conjunto de potencialidades. Falando em Santa Catarina, o estado precisa fazer o seu Plano Estadual de Turismo, que já está bem avançado, e a sociedade precisa comprar o turismo, que não pode mais ser visto como algo negativo. Muitas vezes um prefeito quer promover o turismo em seu município e a população e a oposição dizem que não, que tem que se investir é na obra social desse ou daquele bairro. Acontece que o turismo não é um vagão. É uma locomotiva! A receita gerada pelo turismo pode pagar muitas obras sociais em bairros. Eu me alimento da isca ou pesco o peixe? Se eu tenho potencial turístico, devo desenvolvê-lo. Caso contrário, estarei abrindo mão de uma riqueza. 
 
[PE] - Santa Catarina foi eleita por vários anos consecutivos como o melhor destino turístico dentro do país e o segundo destino turístico mais procurado por estrangeiros. O que o MTur faz ou fará para manter ou mesmo ampliar esse status? 
VL - Temos pequenas e médias obras no estado inteiro e estamos negociando para ajudar a desenvolver melhor o Projeto Orla em Santa Catarina. Eu penso que o litoral catarinense precisa ser mais bem organizado do ponto de vista das suas múltiplas vocações, pois corremos o risco de haver um conflito entre as várias atividades e demandas. É preciso organizar também os parques naturais. Em São Francisco do Sul, nós temos um parque com 25 quilômetros de frente para o mar. São Joaquim também tem um mega parque. Temos parques no estado inteiro. Mas as prefeituras não conseguem desenvolver um projeto de exploração sustentável, via turismo, dessas áreas. Por quê? Porque o turismo não é prioridade. Temos tudo por fazer. Isso é um problema? Não. Isso é uma oportunidade.
 
[PE] - Como se dá a integração do MTur com outros ministérios?
MD -  Nosso principal parceiro, especialmente nesse momento de grandes eventos esportivos, é o Ministério dos Esportes. Mas tenho conversado também com o secretário nacional de Acessibilidade e Programas Urbanos do Ministério das Cidades, o também catarinense Leodegar Tiscoski, para alinhar nossas ações. O problema é que os prefeitos sofrem pressões por obras imediatas. As obras para o turismo giram a economia, mas não são prioritárias para os prefeitos, que sofrem pressão político-eleitoral. Por isso, é tão importante mudarmos a noção da importância do turismo, que deve ser tratado como fundamental no desenvolvimento econômico.
 
[PE] - Passando para a política, quais os seus planos?
VL - Pertenço aos quadros do PMDB e sou soldado do partido. Fui indicado ao cargo pela bancada do PMDB de Santa Catarina, que levou o meu nome à bancada nacional do partido que, por sua vez, apresentou meu nome à presidente Dilma Rousseff. Deverei seguir no Ministério do Turismo até o final do governo. Algo diferente disso, só se eu for convocado pelo partido para uma missão. Estou disponível para qualquer missão partidária, de candidatura, se for do desejo do PMDB catarinense.
 
[PE] - Quais as suas expectativas sobre a convenção do PMDB, no dia 29?
VL - A minha indicação teve o apoio de toda a bancada catarinense do meu partido, mas partiu do deputado Mauro Mariani. Então, eu tenho, evidentemente, uma relação muito especial com o Mariani. E vejo que ele está se posicionando muito bem no processo democrático de debate interno. O partido tem tradição de debate, mas também tem tradição de união. Depois de decididos os embates na eleição do dia 29 de junho, a tendência do PMDB é aglutinar. Os dois candidatos – o vice-governador e atual presidente do partido no Estado, Eduardo Pinho Moreira, e o deputado federal Mauro Mariani – têm relevância política. Passada a convenção, independentemente do resultado, os dois estarão juntos pelo PMDB e em prol de Santa Catarina.
 
 
Andréa Leonora e Nícola Martins | Foto de Paulino Meneses/MTur  
Florianópolis, 17 junho de 2013
 
Visualizar todos