Entrevista com Pierre Pérès, presidente da ABPM - Associação Brasileira de Produtores de Maçã

02.09.2013

“Um dos melhores invernos dos últimos 15 anos para a maçã”



“Hoje eu diria que temos uma boa adequação entre a oferta de espaço de câmara fria e a produção.”


Nascido na França, está há 29 anos no Brasil e hoje mora em Fraiburgo, Serra catarinense. Tem Licença em Comércio Internacional pela EDC, Paris, La Défense 1982 e MBA em Administração Internacional na Universidade de Dallas, Texas 1983. É diretor da Pomagri Frutas desde 1986 e desde 2004 preside a Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM). Hoje o setor é formado por 3 mil produtores no Brasil, sendo que 2,3 mil em Santa Catarina. No total, são 55 mil empregos diretos e 95 mil indiretos. Em entrevista exclusiva à reportagem da CNR-SC/ADI-SC/Central de Diários, Pérès falou do momento do setor, da expectativa positiva para a safra do ano que vem e das pesquisas na área. E comemora: “O consumidor brasileiro está mais exigente.”


[PeloEstado] - Qual a expectativa do setor da maçã para a próxima safra?

Pierre Pérès - O inverno foi muito bom. As gemas (parte suculenta da fruta) e a sanidade dos pomares são de excelente qualidade. Tivemos, por enquanto, todas as condições climáticas necessárias para uma safra muito boa. Mas ainda é cedo para saber o que vai acontecer. Pode surgir uma geada tardia. O frio está demorando a sair do Sul e está sendo esperada mais uma frente fria para a esta primeira semana de setembro, com temperaturas negativas. A gema da maçã está crescendo e a cada dia que passa a fruta fica mais suscetível a geadas. A partir da segunda semana de setembro, dependendo da intensidade, tudo o que vier de frio pode ser prejudicial.


[PE] - Há outros riscos?

Pérès - Nos próximos meses, até a colheita, o maior risco é o granizo, com maior incidência entre outubro e dezembro. Esses eventos climáticos podem atrapalhar a vida do produtor, mas o inverno de 2013 está sendo muito bom. Um dos melhores dos últimos 15 anos.


[PE] - Como foi a safra 2013 e qual a projeção para 2014?

Pérès - Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul a colheita acontece, normalmente, em janeiro. Por conta do frio, estamos atrasados no enchimento de gema e na quebra de dormência (tratamento químico para uniformizar a brotação e floração) em uma ou duas semanas em relação ao ano passado. Colhendo em janeiro de 2014, com certeza será nos últimos dias ou no início de fevereiro. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que temos 38,8 mil hectares de pomares no Brasil e 48% estão em Santa Catarina. A produtividade média no país está em torno de 30 toneladas por hectare, o que nos leva a uma colheita potencial de 1,2 milhão a 1,3 milhão de toneladas, das quais 300 mil toneladas vão para a produção de suco. Em 2013 tivemos 1,1 milhão de toneladas colhidas porque houve problema com os tipos de maçãs Fuji e Gala, justamente por conta da geada em plena floração.


[PE] - Qual a consequência?

Pérès - No início os produtores acharam que a geada não ia queimar tanto. Mas a flor que foi queimada foi a primeira, que dá a fruta mais graúda. Acreditamos que a diferença não foi pela quantidade de frutas, mas pelo peso médio. As frutas ficaram pequenas.


[PE] - Então agora vocês entram no período mais tenso.

Pérès - Estamos vivendo o período técnico mais complicado, porque temos que fazer o tratamento da quebra de dormência, que introduz óleo mineral e adubo para homogeneizar a florada. Para aplicar a técnica, precisamos de cinco dias seguidos de Sol e temperatura acima de 20ºC, o que ainda não ocorreu. Por isso há estresse entre os produtores. Nessa época do ano já deveríamos ter terminado a quebra de dormência e sequer a iniciamos.


[PE] - Como está a exportação da maçã brasileira?

Pérès - Teve uma queda e há cerca de três as exportações voltaram a crescer. Houve a safra de 2010, que foi muito ruim por conta de chuvas recorrentes de granizo, o que acarretou perda de qualidade e uma queda substancial na exportação, chegando a 45 mil toneladas. Neste ano, estamos com 88 mil toneladas exportadas e no  ano que vem esperamos chegar em 120 mil toneladas exportadas. Esse aumento também é acarretado pela boa recuperação do dólar. Em receita, isso representa de 17 a 22 dólares FOB (Free On Board) por caixa de 18 quilos, dependendo do perfil da fruta.


[PE] - Quais os principais mercados compradores?

Pérès - Europa, sendo os principais importadores, pela ordem, Holanda, Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Itália e toda a Escandinávia. Depois vem a Ásia, com Bangladesh, Índia, Filipinas, Singapura e um pouco para Hong Kong. São vários países e que estão aumentando bastante as compras. E o Oriente Médio, com Qatar, Emirados Árabes Unidos e Omã. As vendas para esses países ainda são pequenas, mas crescem a cada ano, o que mostra boa aceitação da maçã brasileira.


[PE] - E a remuneração ao produtor, como está?

Pérès - Esse é um tema muito amplo e com variações. Há o produtor bastante capacitado tecnicamente, que cuida muito de sua produção e de sua lavoura, produzindo a fruta que agrada ao mercado. Esse produtor receberá mais de um real por quilo. Há também o produtor que não está tão qualificado e não faz os procedimentos necessários. Esse venderá o quilo por valor entre R$ 0,60 e R$ 0,80. Em Santa Catarina temos produtores muito qualificados e dedicados, que por isso têm remuneração elevada.


[PE] - A armazenagem ainda é um problema?

Pérès - Hoje eu diria que temos uma boa adequação entre a oferta de espaço de câmara fria e a produção. Chegamos a quase 800 mil toneladas de capacidade de armazenagem para uma produção total de 1,2 milhão de toneladas, considerando os números da ABPM. Diante dos dois volumes, ficamos com 400 mil toneladas para serem comercializadas imediatamente, durante os meses de colheita, de janeiro a maio.


[PE] - O setor voltou a se equilibrar após o socorro do governo federal?

Pérès - Tivemos dez anos de safra bastante grande e com preço pouco remunerador. Mas, principalmente, tivemos eventos climáticos que desestabilizaram muito os produtores, levaram à descapitalização e a uma corrida aos bancos, com juros altos. Sentamos com o governo e dissemos que não poderíamos arcar com aqueles juros altos porque a condição de mercado não permite isso. Temos que construir uma política que permita ao produtor vislumbrar uma recuperação futura. Como o problema é o granizo, foi criado o seguro, com prêmio ao produtor para incentivar à proteção. E este ano o governo nos deu a possibilidade de instalar telas anti-granizo sobre os pomares, algo que não era contemplado em nenhuma linha de financiamento. A soma dessas medidas permitiu a estabilização do produtor e manutenção da atividade.


[PE] - Existe pesquisa em andamento para novas variedades de maçã?

Pérès - A Epagri de Caçador é a que tem pesquisa mais avançada nessa área. Está estudando a variedade Monalisa, que gustativamente é bem interessante. É uma maçã de poupa dura, teor de açúcar elevado e uma acidez atraente. Parece uma mandarina bem doce. A acidez faz pensar hum, comi uma maçã. Bem comeria outra!(risos) E é uma fruta resistente a muitas doenças. A Epagri está cuidando muito desse aspecto para diminuir a quantidade de tratamentos.


[PE] - Havia uma preocupação com a cydia pomonella, praga que causou prejuízos.

Pérès - A cydia pomonella está erradicada no Brasil desde o ano passado. O governo federal já liberou uma verba para fazer o monitoramento geral de toda a região Sul, para ver se essa praga está definitivamente erradicada. Se em 2014 a leitura mostrar, mais uma vez, zero casos, será considerada mundialmente como praga erradicada no Brasil. Deixaremos de usar alguns defensivos e isso trará uma economia de 400 dólares por hectare. Graças a Deus, ao trabalho do Ministério da Agricultura, dos pesquisadores, dos produtores, conseguimos esse resultado. E há aí um aspecto comercial. Se fruta contaminada com essa praga vier de outros países, o Brasil pode mandar de volta para a origem e proibir a importação. É uma arma para proteger o nosso mercado no caso de uma super safra.


[PE] - O consumidor do Brasil mudou?

Pérès - Bastante. Exige cada vez mais qualidade. Antigamente, tudo o que se produzia era vendido. Hoje, de 20% a 30% são rejeitados por imperfeições na fruta. Nós temos que nos profissionalizar. Estamos lidando com alimento e temos que investir em qualidade e em pesquisa para que, na mesa do consumidor, apareça uma fruta muito bonita de se ver e gostosa de comer.


Andréa Leonora e Nícola Martins

Florianópolis, 02 de setembro de 2013.


Visualizar todos