Entrevista exclusiva com o Governador Raimundo Colombo

25.02.2013

 

" Estamos fugindo de prioridades falsas e buscando as reais prioridades"

 

Raimundo Colombo, Governador do Estado de Santa Catarina

 

trabalho continua e não vai parar”

 

 

   Apesar de ainda haver registro de ataques em diferentes cidades catarinenses, o governador Raimundo Colombo começa a respirar mais aliviado. Na entrevista exclusiva que concedeu em seu gabinete da moradia oficial, a Casa D’Agronômica, à reportagem da Central de Diários/ADI- SC/CNR-SC, transmitiu a sensação de que o pior já passou. Reconhece que o episódio trouxe perda de popularidade, mas, como bom estadista, diz que isso é o que menos importa. “Eu, sinceramente, não posso me preocupar com popularidade em um momento como esse. Se ela voltar ou não, para mim não faz diferença nenhuma. Agi de forma certa e fiz o que tinha que fazer.” Em vários pontos da entrevista, Colombo relembrou os momentos tensos que atravessou e reconheceu a importância do apoio que recebeu - e continua recebendo do governo federal, como o envio da Força Nacional de Segurança Pública e a transferência de presos.

 

[PeloEstado] - Em relação à série de ataques registrados no estado, já é possível dizer que o pior já passou?

Raimundo Colombo – Sinto-me mais tranquilo porque as medidas que foram adotadas estão produzindo o resultado esperado.  Na última semana, inauguramos a Central de Vídeo Monitoramento de Joaçaba e Herval do Oeste. Chapecó já conta com 175 câmeras.  Nós tínhamos 400câmeras em todo o estado há dois anos, hoje já temos 1,4 mil e até o final de 2014 contaremos com 3 mil câmeras. Tudo isso está produzindo muitos benefícios. Vamos iniciar  obras  que  decorrem dessa  crise,  convocando  os prefeitos da região de Blumenau e propondo a construção de  uma  nova  penitenciária, porque  a  que  existe  lá  está antiquada. Vamos acelerar o processo de Imaruí (construção de penitenciária) e vamos construir uma penitenciária com RDD (Regime Disciplinar  Diferenciado).  O  trabalho  continua  e  nunca  mais irá parar. A gente sente que a resposta da própria população está sendo positiva.

 

[PE]  -  Como  o  senhor  lidou com o risco de queda na popularidade?

Colombo - Depois que pudemos dizer às pessoas como estávamos agindo, sinto que elas passaram a compreender o que estava de fato acontecendo. Eu, sinceramente, não posso  me preocupar  com  popularidadeem um momento como esse. Se ela voltar ou não, para mim não faz diferença nenhuma. Agi de forma certa e fiz o que tinha que fazer. Todos viram a ação coordenada, acontecendo de maneira tranquila e sem que fosse disparado sequer um tiro. Foi visível a harmonia entre nós e o ministro (da Justiça, José Eduardo Cardozo). As pessoas não são idiotas e viram que nossas ações foram corretas.

 

[PE] - Ainda há contato com o governo federal?

Colombo - Conversamos todos os dias com o ministro. E a estrutura está conosco, aqui no estado. A Regina Mink (secretária nacional de Segurança Pública) e o Major Aragon (Alexandre Augusto  Aragon, diretor da Força Nacional) me acompanharam    a    Chapecó para o ato de entrada em operação  do  reforço  no  sistema de videomonitoramento. Essa guerra não parou. As divisas com outros estados e a fronteira com a Argentina estão sendo avaliadas. Falei com a presidente Dilma (Rousseff) durante esse período duas vezes. Ela foi muito parceira, sempre se mostrando disposta a colaborar.

 

[PE] - Quais as próximas ações que podem ser anunciadas?

Colombo - Temos uma série de trabalhos que serão realizados. São 6 mil detentos que estão trabalhando em todo o estado. Isso, inclusive, quebra a influência desses controles. Estamos iniciando um processo com o Poder Judiciário, pois temos 5 mil detentos de pequenas ocorrências. Santa Catarina sempre foi muito rigorosa, mas no modelo atual deixar nos presídios é pior, porque existem outros que utilizam essas pessoas para fazê-los escravos de ordens que são dadas. Vamos alterar o procedimento do Estado, via Judiciário, sobre essa questão. Não tenho autonomia para mandar prender ou soltar, mas podemos fazer uma política pública para dar outro tratamento para esses casos.

 

[PE] - Por que os ataques ocorreram em Santa Catarina?

Colombo - Existem várias razões. Santa Catarina é a “bola da vez” por causa do turismo, pelo seu charme. Por ser um estado de referência, muitas pessoas vêm morar e construir sua vida aqui. Um fato concreto é que Santa Catarina virou o maior centro de distribuição de drogas sintéticas no Brasil. Isso é um sério problema e que coincide com toda essa situação. Circula muito dinheiro em torno disso. Há um alto consumo, mas o principal é a distribuição feita a todo o país. Esse problema está latejando no Brasil inteiro. Estourou aqui porque a gente jogou duro. Não posso dizer que não erramos, porque o caso de Joinville (onde um vídeo mostra maus tratos a detentos) é inaceitável e potencializou. Aquilo não podia e não pode mais ocorrer.

 

 

[PE] - Há previsão para saída da Força Nacional e de novas transferências de detentos?

Colombo - Não há uma data prevista, mas haverá novas transferências. As informações são sigilosas.

 

[PE] - Algo mudará no comando da Segurança Pública e da Justiça e Cidadania?

Colombo - Tivemos um ótimo desempenho. Alguns agentes ficaram cansados, porque a pressão é muito grande, mas esse não é o momento para fazer qualquer tipo de mudança. O Estado não fracassou e isso deve ser ressaltado. Tudo que era possível, foi feito.

 

[PE] - Existem problemas de relacionamento entre essas pastas?

Colombo - Historicamente as instituições – Polícia Civil, Polícia Militar e Justiça e Cidadania – nunca tiveram a integração “dos sonhos”. Neste momento, a integração é muito melhor do que era no passado. Tenho certeza que nós avançamos nisso. Mas, dizer que há unanimidade não é possível. São instituições históricas, estabelecidas e com características próprias. Uma das teses que se discute é a de criação de uma polícia única, mas é muito difícil fazer isso. Há sempre uma disputa que temos que administrar. Nesse episódio, garanto a vocês que houve uma integração que nunca havia acontecido antes.

 

[PE] - Apesar dos problemas que o senhor enfrentou, o Pacto por Santa Catarina é um marco. Existem novidades no programa?

Colombo - Não escolhi a truculência, mas enfrentei-a. A gente conseguiu colocar o trem no trilho por meio do Pacto por Santa Catarina. Temos problemas históricos que estão afetando a vida das pessoas de forma muito forte. A sociedade hoje é muito mais exigente e isso não é um fenômeno específico de Santa Catarina. Ela tem outro nível de consciência, de informação e há uma nova classe média influenciando a posição das pessoas. Tudo isso eu acho ótimo, só que a exigência e a transparência tiveram de aumentar consideravelmente. Estamos determinados em um processo de aperfeiçoamento de gestão. Fizemos um levantamento detalhado da saúde catarinense, mostrando item por item, custos específicos de cada hospital... Estão todos concentrados e consomem quase toda verba destinada. É preciso mudar essa realidade. Não é mudando as pessoas que vamos resolver, mas mudando o modelo de gestão. Estamos perdendo muito com isso e jogando dinheiro fora, porque fazemos o serviço e não cobramos. Se é realizada uma sutura em um paciente no hospital e o registro não é feito, não temos como cobrar do SUS (Sistema Único de Saúde). Em alguns locais, ninguém faz o registro, não cobramos e o Estado tem que bancar isso. Estamos vivendo um momento de melhoria acentuada da gestão e de um grande volume de obras e realizações que nunca Santa Catarina viu, que é o Pacto. Tenho certeza que o Governo vai ter um nível de melhoria muito significativo daqui pra frente.

 

[PE] - Haverá tempo para que a sociedade perceba as mudanças ainda em gestão?

Colombo - O processo de mudança da sociedade é mais rápido do que aquilo que conseguimos fazer, mas não tenho preocupação com avaliação. Claro, gostaria de sempre ser só aplaudido, mas o importante é a consciência de que isso é o que deve ser feito. O primeiro ano de uma gestão é importante para que você seja conhecido pelo seu temperamento, pela sua postura e por suas prioridades. No segundo ano vem a eleição municipal. Nós tivemos um segundo ano muito difícil com problemas econômicos. A queda de receita foi uma avalanche. Tivemos mais de um bilhão de reais de redução de receita. Isso te joga na lona. Agora, conseguimos equacionar as questões operacionais, conseguimos arrumar dinheiro para realização das obras e vencer a burocracia para iniciar essas obras. Uma coisa é passar pela Ponte Hercílio Luz hoje. Não vai dar de ver nada porque estão todos dentro do mar fazendo a última solda. Em cerca de 20 dias as balsas poderão ser vistas. Em 40 dias vai ser possível avistar a estrutura da ponte ser erguida. Fizemos hospital em São Miguel do Oeste. O de Chapecó é uma bela obra. Em Xanxerê, uma parte está pronta e a outra vai ser inaugurada em breve. Em todos, o governo repassou a gestão administrativa para organizações sociais. Em Maravilha, ativamos a UTI e em Concórdia modernizamos. Estive em Joaçaba e, em 12 meses, temos um novo hospital com 250 leitos e ótima estrutura. Uma região que tinha um gravíssimo problema na Saúde teve uma resolução. Tudo isso não é por acaso. Estudamos muito para chegar a esse ponto.

 

[PE] - As reais prioridades estão sendo descobertas?

Colombo - Existem dois estados em Santa Catarina. Viajando pelo Oeste, vemos que é diferente do Litoral. É impressionante. Estamos fugindo de prioridades falsas e buscando as reais prioridades. Em um novo modelo de gestão, consigo reduzir custos de uma maneira extraordinária. Estamos corrigindo os problemas. Nosso custeio está caindo violentamente. Vou abrir o coração a vocês, não sei qual é a importância política disso. Eu vou fazer o que eu acho certo.

[PE] - O pedido de prisão do secretário de Saúde, Dalmo Claro de Oliveira, negado pela Justiça, por problemas no hospital de Joinville, afeta o governo?

Colombo - Uma notícia como essa é ruim. Decretar a prisão de um secretário de Estado, um homem sério e honrado. Profissional reconhecido e que está prestando um serviço ao Estado. Isso é algo exagerado. Não há nada de ordem moral na situação, mas de funcionamento. As medidas estão sendo tomadas baseadas em estudo. Vamos fazer uma transformação muito grande no modelo de gestão.

 

[PE] - Essa ação afeta o Pacto por Santa Catarina na área da Saúde?

Colombo - Não. De maneira alguma. Está tudo pronto e encaminhado. As pessoas podem questionar por que motivo não fizemos as mudanças antes, mas não tínhamos dinheiro. Precisávamos fazer o diagnóstico e arranjar o dinheiro para fazer os contratos. Santa Catarina fez o maior volume de contratos da história. Vencemos e atingimos a marca de R$ 7 bilhões. O maior contrato é de R$ 3 bilhões com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Quando houve o problema nacional da guerra fiscal de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), lutei como um leão e ali criamos as condições para conseguir um contrato onde não há juros, 30 anos para pagamento e sete anos de carência. É um negócio espetacular para o estado. Foi naquela negociação que conseguimos arranjar o dinheiro para fazer essas obras todas que estão iniciando agora. Aquele foi o momento da virada.

 

[PE] - Sobre política, o PSD assumirá o novo Ministério das Micro e Pequenas Empresas?

Colombo - Essa decisão, acredito que ainda não esteja tomada. O Kassab (Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD) marcou uma reunião para quarta-feira (dia 27 de fevereiro) em que não poderei comparecer por ter outros compromissos agendados. No meu ponto de vista, o PSD deve apoiar o governo da Dilma Rousseff, ajudar em tudo que pode, mas não deve entrar. Não deve porque não ajudou a ganhar e porque sinto que não haja consenso. Acho que temos que pensar é no Brasil. É importante que apoiemos o governo, porque isso é bom para o Brasil. Mas, acho que não é bom para a presidente, para nós e para o Brasil participar do governo. Deve ficar como está. Já passei essa opinião para o Kassab e acredito que essa decisão não sairá a curto prazo.

 

[PE] - Não assumir, é respaldar uma possível candidatura de Eduardo Campos (PSB, governador de Pernambuco) à presidência em 2014?

Colombo - Não relaciono a isso. Temos que apoiar o governo porque é bom para o Brasil. O maior dos golpes que você dá à democracia é impedir um governante eleito pelo povo de governar. Afinal de contas, se um governo é bom, é bom para todos. Então, eleição se trata em 2014 ou quando ela ocorrer. Nesse momento, precisamos ajudar o governo a governar. Às vezes se ajuda fazendo oposição, apresentando alternativas e fazendo o contraponto. Mas não vejo a razão para o nosso partido entrar no governo. Não é bom para o Governo Federal fazer mudança com característica política e nem é bom para nós. Um partido novo, como o nosso, não cria identidade entrando no governo. A minha expectativa é que essa ação seja postergada.

 

Texto e fotos: Andréa Leonora e Nícola Martins

Edição: Andréa Leonora

Florianópolis, 25 de fevereiro de 2013

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