Entrevista exclusiva com o novo ministro do trabalho, Manoel Dias

25.03.2013

 

“As políticas de Trabalho e Emprego devem ter foco na inserção social”

 

Manoel Dias

 

Nascido em Içara, no Sul catarinense, Manoel Dias é advogado, graduado em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e fundador do PDT, junto com Leonel Brizola – de quem foi secretário por mais de 30 anos. Presidiu a União Catarinense de Estudantes (UCE) e em 1962 foi eleito vereador pelo antigo PTB. Conheceu o peso da ditadura militar ao ter dois mandatos de deputado estadual cassados, em 1964 e em 1967. Por conta do temido AI-5, ficou sem direitos políticos durante uma década inteira. Concursado, tornou-se promotor público-adjunto e, posteriormente, auditor fiscal da Receita Federal. Com Brizola, ajudou a fundar o Partido Democrático Trabalhista (PDT), sigla na qual ocupa a secretaria-geral da sigla e presidência da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini, de estudos políticos. No dia 16 de março, tornou-se o segundo ministro catarinense no governo Dilma Rousseff/Michel Temer ao assumir o comando do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

 

 

[PeloEstado] - Quando seu antecessor, Brizola Neto, assumiu o MTE, seu nome era um dos cotados. Menos de um ano depois, o senhor é chamado pela presidente Dilma Rousseff para assumir o Ministério. Foi um tempo de preparação?

Manoel Dias - Foi um período longo. Nunca tive muita esperança de que seria nomeado ministro. Então, durante esse tempo cumpri a tarefa da construção partidária e isso me absorveu o tempo todo. Estou feliz por ter sido chamado para o Ministério. É um reforço considerável para Santa Catarina, que já contava com a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais). Poderemos, e certamente iremos, trabalhar em conjunto, ampliando a representatividade do estado no governo federal. Embora sejamos ministros do país, e não do estado, é inevitável que, sendo de Santa Catarina, tenhamos o dever de contribuir com as prefeituras, com o governo do Estado, somando esforços.

 

[PE] - O convite foi uma reaproximação do governo com o grupo do ex-ministro Carlos Lupi?

MD - O Lupi é o presidente nacional do PDT e eu sou o secretário-geral do partido. Somos duas pessoas envolvidas com a construção partidária e isso exige contatos frequentes. A nossa relação é antiga, muito sincera. Temos visões muito parecidas quanto aos destinos do PDT e eu estou aqui representando esse partido. A influência do presidente Lupi na minha gestão, com certeza, vai ser no sentido de apoiar, de incentivar. Sei que ele vai torcer para que eu realize um bom trabalho, porque na medida em que a minha gestão for aprovada, meu partido estará sendo aprovado dentro do governo.

 

[PE] - Qual a principal tarefa passada pela presidente Dilma Rousseff?

MD - Ela quer que eu cuide dos projetos e dos programas do Ministério. Vou procurar analisá-los para poder integrar as ações do Ministério aos grandes debates nacionais, junto com as centrais sindicais, as confederações empresariais. O objetivo, é claro, é fazer com que a geração de emprego continue avançando cada vez mais, tendo em mente que as políticas de Trabalho e Emprego devem ser realizadas com foco na inserção social. Tudo isso compõe um conjunto de ações que temos que realizar. A hora é de trabalhar, planejar e executar.

 

[PE] - Tudo em sinergia com outros ministérios.

MD - Com certeza. Vamos interagir e trabalhar em conjunto com todos os ministérios que têm relação direta com os movimentos sociais ou com os trabalhadores. A sinergia é fundamental para que as metas do governo sejam atingidas.

 

[PE] - Quais os planos em relação ao Serviço Nacional de Emprego (SINE)?

MD - Vamos fazer um projeto para revitalizar as agências, os escritórios, especialmente os espaços de atendimento direto ao trabalhador. Queremos fazer com que o cidadão que procura um posto do SINE se sinta confortável e que seja bem atendido. Vamos modernizar as agências, ampliar serviços, melhorar a infraestrutura.

 

[PE] - Uma das críticas que se faz ao governo é o distanciamento em relação às centrais sindicais. Como pretende reverter essa situação?

MD - Já conversei com todos os presidentes das centrais sindicais e estou organizando uma agenda para visitar cada uma delas. Na terça-feira (26) estarei em São Paulo iniciando a rodada de reuniões com as centrais. Vamos afinar essa relação para, juntos, discutirmos os grandes temas que envolvem os trabalhadores brasileiros. Com boa parte dessas lideranças eu já tenho um bom relacionamento. O que já deu para perceber é que todos estão interessados em contribuir para a construção da nação.

 

[PE] - Qual deve ser o teor desses encontros?

MD - É um contato inicial. Vamos ouvir suas demandas, críticas e sugestões. E vamos pedir a colaboração, colocar o Ministério à disposição para ser um espaço de discussão dos grandes temas que afetam a vida dos trabalhadores e do setor produtivo brasileiro.

 

[PE] - Qual deve ser o seu maior desafio à frente do Ministério?

MD - O maior desafio vai ser revitalizar o Ministério. Temos que ser agentes permanentes para que o país continue crescendo. O Brasil é, hoje, uma potência. Mas há alguns gargalos que teremos que superar. Um deles é a capacitação profissional dos trabalhadores, outro está na legislação, que precisa ser atualizada, modernizada, para facilitar a vida tanto dos trabalhadores quanto dos empregadores. São grandes tarefas, grandes temas que certamente vão marcar a nossa gestão.

 

 “Aprendi muito ao longo desse período sobre o valor da lealdade entre aqueles que desenvolvem com a gente a tarefa de governar.” Dilma Rousseff, na posse de Manoel Dias

 

 

[PE] - Cada vez mais se fala na necessidade de uma reforma trabalhista. Há o risco de que essa reforma represente perda de direitos para os trabalhadores?

MD - Não. Desde que eu participo da política, ouço reclamações dos empresários sobre a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). Sempre digo que nós não somos contra a modernização. Tudo o que é moderno, nós somos favoráveis. E ressalto que nada mais moderno do que a própria Educação. Agora, essa discussão não pode trazer em seu bojo qualquer tentativa de subtrair direitos dos trabalhadores. Vamos discutir, vamos avançar, vamos modernizar, vamos construir uma legislação que seja boa para o Brasil e, consequentemente, para os trabalhadores e para os empresários.

 

Andréa Leonora | Fotos: Renato Alves/MTE    

Visualizar todos