Pelo Estado Entrevista: Ademar Stocker

05.11.2012

 

Entrevista Ademar Stocker

Bacharel em Direito e com uma carreira de 33 anos na Polícia Federal (PF), desde 2009 é superintendente Regional da PF-SC. Ao mesmo tempo em que se destaca, em nível nacional, por ter provocado a prática do leilão antecipado de bens apreendidos e por ter sido convidado pela corregedora do Conselho Nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon da Sá, para integrar a Comissão que disciplina o Projeto Nacional de Segurança aos Magistrados, Stocker também tem seu nome reconhecido no meio cultural, especialmente no Sul do país. É que entre um curso de aprimoramento e outro, uma investigação e outra, ele é declamador e ainda compõem poemas e canções nativistas, tendo até lançado o CD “Jeitão de Missioneiro”. Ele recebeu a reportagem da Central de Diários/ADI-SC/CNR-SC em seu gabinete para uma entrevista exclusiva. Falou sobre as recentes ações da PF-SC que tiveram repercussão na imprensa e sobre o esforço para o controle migratório, o combate ao tráfico de drogas e ao contrabando.

 

[PeloEstado] - Recente­mente, a PF-SC concluiu duas operações que tive­ram grande repercussão. Fale sobre elas.

Ademar Stocker - Uma das operações foi a prisão de um fí­sico alemão, que teria cometido um crime em seu país e lesado empresas públicas e privadas em 4 milhões de euros. Conde­nado em dezembro de 2011, as­sim que tomou conhecimento da decisão da Justiça alemã, fugiu para o Brasil. Imediatamente, as instituições judiciais e policiais da Alemanha comunicaram à Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol, em inglês International Criminal Police Organization), da qual o Brasil é país-membro. A partir dos indícios de que ele estaria no Brasil, iniciamos o proces­so de investigação e logramos encontrá-lo em Florianópolis. Efetuamos a prisão, conforme pedido de extradição por parte do governo alemão, e agora es­tamos fazendo a instrução do processo para a extradição, que depende de julgamento do Su­premo Tribunal Federal (STF). O outro caso foi de tráfico de se­res humanos para prostituição.

 

[PE] - Essa investigação começou a partir de de­núncia?

AS - Nós temos uma delega­cia especializada que cuida de todos os processos de tráfico de seres humanos para fins de prostituição, daqui para o ex­terior e do exterior para cá. E, realmente, na região de Imbitu­ba, cidade portuária, tomamos conhecimento da existência de casas de prostituição e com in­formações de que 21, 22 mulhe­res paraguaias estavam sendo contratadas para se prostituir nesses locais. Confirmado o fato, comunicamos o Consula­do do Paraguai e executamos uma operação, identificando os donos dos prostíbulos e as mu­lheres trazidas para cá.

[PE] - Elas foram engana­das ou vieram sabendo que iriam se prostituir?

 

AS - Vieram conscientes do que teriam que fazer. Geralmente são pessoas muito pobres, para as quais é oferecida a possibili­dade de uma vida melhor por aqui. E elas acabam aceitando. Fizemos um trabalho bem con­sistente, junto com o Consula­do, e todas foram devolvidas ao país de origem.

 

[PE] - Tabém é comum ca­sos de mulheres saindo da­qui para se prostituir em outros países?

 

AS - Sim. E aí temos uma par­ticularidade. Essa é uma pre­ocupação da Polícia Federal brasileira, especialmente nos últimos cinco anos. Para agili­zar a condução dos processos, uma vez que o número de casos estava crescendo nos dois sen­tidos, pessoas saindo e pessoas entrando com esse fim, a PF se preocupou em expandir o seu campo de atuação no exterior. Hoje, nós temos adidâncias po­liciais em praticamente todos os países da América, com poli­ciais que atuam junto à Embai­xada brasileira. Recentemente, abrimos adidâncias no México e na Venezuela. Já tínhamos nos Estados Unidos e agora temos também um oficial de ligação no Canadá. Essas adidâncias são conduzidas por policiais sempre muito experientes e é um trabalho muito interessante pela agilidade que traz. Em fra­ção de segundos, eu consigo me comunicar com qualquer um desses policiais, em qualquer parte do mundo. Antes tínha­mos que atuar via Interpol, cujo rito tornava o processo mais de­morado. Temos policiais, ainda, em Portugal, Itália, Inglaterra, Espanha, França e Japão.

 

[PE] - Esses braços inter­nacionais da PF atuam em outras áreas?

 

AS - Certamente. Com esse tra­balho, estamos apurando com muito mais facilidade o envio de pessoas para exploração sexual e o tráfico internacional de dro­gas. E aqui, novamente, Santa Catarina tem uma situação pe­culiar, porque está na rota de duas formas: tráfico de peque­nas quantidades, geralmente transportadas para o exterior por jovens de classes média e média alta que levam cocaína para distribuição na Europa; e de lá para cá são trazidas dro­gas sintéticas, principalmente ecstasy e LSD. Santa Catarina já bateu, em 2011 e em 2012, o recorde em apreensões desse tipo de droga.

 

[PE] - É um transporte fei­to por quadrilhas interna­cionais?

 

AS - Pode-se dizer que sim. No ano passado, desmantelamos uma quadrilha que transporta­va grande quantidade de coca­ína. Era formada por seis sér­vios, que começaram operando em Pernambuco, depois Santos, até chegar a Itajaí. Com a nossa movimentação de investigação e com a criação do Núcleo Es­pecial de Polícia Marítima, eles desceram para o porto do Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Mas como as investigações es­tavam adiantadas, antes do des­carregamento de 72 quilos de cocaína, nós prendemos todos eles, desarticulando essa qua­drilha que transportava drogas em grandes quantidades. Eles usavam barcos e levavam a dro­ga para navios cargueiros em alto mar e cujo destino era, prin­cipalmente a Europa. Todos es­tão presos e condenados. Após cumprida a pena, em torno de 20 anos, serão expulsos do país, em ato assinado pelo presidente da República.

 

[PE] - O que mais preocupa a Polícia Federal em Santa Catarina?

 

AS - Nós damos muita atenção ao controle migratório via ter­restre, em Dionísio Cerqueira, onde temos fronteira com Ar­gentina e Paraguai. E temos a Operação Sentinela, realizada em conjunto com a Polícia Ro­doviária Federal e alguns inte­grantes da Força Nacional, para combate ao tráfico internacio­nal de drogas e ao contrabando. É uma operação permanente, que já mantemos há dois anos. No litoral, temos a preocupação de combater o tráfico de drogas, utilizando o Núcleo Especial de Polícia Marítima, mas também estamos agindo contra crimes ambientais. Depois da instala­ção desse núcleo, que tem seis barcos de grande potência e jet ski, temos patrulhado a cos­ta catarinense, em especial as ilhas, e combatido com afinco a pesca predatória. Não tínhamos mecanismos de controle dessa prática e isso mudou. Em pou­cas operações, foram apreen­didas mais de 50 toneladas de pescados, que, por orientação do governo federal, destinamos ao Fome Brasil, que tem insti­tuições cadastradas.

 

[PE] - Além de Florianópo­lis, onde mais a PF está pre­sente em Santa Catarina?

 

AS - Aqui, na Capital, fica a Su­perintendência. E temos Dele­gacias em Itajaí, Joinville, Cha­pecó, Dionísio Cerqueira, Lages e Criciúma. Todas cumprem funções de Polícia Judiciária - apuração de tráfico de pessoas e drogas, contrabando, crimes contra o sistema financeiro, la­vagem de dinheiro - e de Polícia Administrativa, que envolve emissão de passaportes, regis­tro de estrangeiros, instrução de processos de expulsão, ex­tradição e deportação, fiscali­zação do sistema de seguran­ça bancária, das empresas de transportes de valores e do co­mércio e transporte de produtos químicos.

 

Agora, na temporada de verão, nós reforçamos a ati­vidade da Polícia Administrati­va. Isso porque, em 2011, só no Aeroporto Hercílio Luz, tive­mos 1.380 voos charter e, nos portos, 86 navios de turismo. Com um salto de qualidade. Santa Catarina é o único estado do Brasil que consegue fazer o controle migratório via online. Antes, a demora podia a chegar a mais de um ano para saber se o estrangeiro tinha passado por aqui ou não. No aeroporto, pas­samos de dois para oito guichês, o que também agiliza muito.

 

[PE] - Nesses quase qua­tro anos que o senhor está aqui, melhorou a es­trutura?

 

AS - A Superintendência de Santa Catarina está muito bem tanto em recursos humanos, aparelhos de informática, arma­mento, viaturas. Estou, ainda, com uma deficiência funcional, que é de pessoal nas delegacias do interior. No dia 23 de de­zembro, 600 novos agentes se­rão formados e tenho esperança de que alguns virão para Santa Catarina. Imagino que uns 30. Mesmo assim, posso afirmar que esta é a Superintendência mais bem estruturada do país.

 

Andréa Leonora

 

Florianópolis, 05 de novembro de 2012

Pelo Estado Entrevista

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