[Pelo Estado] Entrevista Comandante Geral da PMSC Paulo Henrique Hemm

25.04.2016

“A PMSC está investindo pesadamente em tecnologia”

"Estamos enxugando gelo. Às vezes prendemos quatro ou cinco vezes o mesmo delinquente!"

Natural de Porto União, assumiu o Comando Geral da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) em janeiro de 2015. Iniciou a carreira militar com a Formação de Oficiais. É pós-graduado em Segurança Pública e em Gestão Estratégica em Segurança Pública (Unisul). Fez os cursos de Operações Especiais (PM São Paulo), de Capacitação para Implementação da Qualidade do Trabalho (PMSC), de Táticas Policiais e Explosivos (Tees Brazil), de Controle e Resolução de Conflitos e Situação de Crise (Senasp), de Polícia Comunitária (PMSC), Avançado de Gerenciamento de Crises (Academia Internacional de Polícia Roswell, EUA), de Gerenciamento de Crises, Sequestros e Negociações de Reféns (FBI), Gestão de Políticas em Segurança Cidadã. Dentro da instituição, exerceu chefia no 3º Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Canoinhas, cidade em que também foi comandante do Pelotão de Choque. Foi comandante de BPM ainda em Porto União, Mafra, Concórdia e Chapecó, chegando, em 2009, a comandante da 4ª Região Policial Militar (Chapecó). Em 2010, assumiu a chefia da Casa Militar da Assembleia Legislativa. Nesta entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado, o Coronel Paulo Henrique Hemm falou do momento da PMSC, referência no país especialmente pelos avanços tecnológicos que vem acumulando.

[PeloEstado] - Como o senhor classifica a Polícia Militar de Santa Catarina em comparação com outros estados e com a demanda da população?
Cel. Hemm
- Tenho participado do Conselho Nacional dos Comandantes Gerais, que congrega todas as polícias militares do Brasil e posso afirmar que, hoje, a PMSC é a melhor do país, principalmente em tecnologia. Nossa Polícia Militar, desde 2007, quando começou a fazer os termos circunstanciados (TC, documento elaborado pela autoridade policial com o escopo de substituir o auto de prisão em flagrante delito, especificamente, nas ocorrências em que for constatada infração de menor potencial ofensivo), teve um ganho de eficiência muito grande. Só alguns estados do país fazem TCs. Nós procuramos melhorar cada vez mais o nosso atendimento, com mais capacitação, em resposta tática, resposta técnica. Mesmo sendo uma das menores corporações do país, temos resultados excelentes. Quando se trata de homicídios, por exemplo, nossa taxa é uma das menores e em 209 municípios dos 295 do estado, não houve o registro de nenhum homicídio de janeiro até agora. Como eu disse, Santa Catarina se destaca pelo avanço em tecnologia, tanto que outras organizações policiais vêm buscar os nossos conhecimentos.    

[PE] - Sobre que assunto?
Cel. Hemm
- Atualmente, sobre o PMSC Mobile, um projeto que começou em Balneário Camboriú e consiste em tecnologia embarcada. Ou seja, nossas viaturas têm um tablet, um smartphone, uma impressora térmica, com todo o nosso aparato tecnológico e todas as informações que precisamos para dar agilidade ao atendimento. Hoje já estamos em 30 municípios. A diferença está entre o preenchimento de até 11 registros, que serão repassados depois para outro policial colocar no sistema. Esse processo leva perto de 40 minutos, só na primeira etapa. Com o PMSC Mobile, reduzimos para perto de 10 minutos e os dados vão direto para o sistema, liberando o trabalho de um agente para o objetivo maior, que é ter mais policiais nas ruas. Estamos deixando o papel e a caneta e otimizando os recursos, algo essencial, já que recebemos quatro chamadas por minuto no Copom (Central de Operações Policias Militares, o 190).

[PE] - Em quanto tempo o PMSC Mobile estará disponível em todos os municípios?
Cel. Hemm
- Esse sistema depende da implantação de outro, o Sistema de Despacho de Emergência (SADE), que traz um ganho extremamente considerável, porque as informações são centralizadas em um ambiente único de trabalho. Com isso, o trabalho do setor de segurança se torna mais eficiente e mais qualificado. Para o PMSC Mobile, nós temos alguns aportes financeiros. O Tribunal de Justiça (TJSC) nos repassou 860 mil reais e estamos aguardando o repasse do convênio com o Ministério Público (MPSC), no valor de 3 milhões de reais. Também fizemos convênios com algumas prefeituras. O objetivo é estar em todos os municípios até o final do ano. Até maio queremos disponibilizar para a Grande Florianópolis, Joinville e Criciúma. O projeto PMSC Mobile foi desenvolvido por policiais e praças nossos e o Ministério da Justiça tem planos de levar para o restante do país.
[PE] - Quais têm sido os investimentos mais importantes da PMSC?
Cel. Hemm - Pela própria situação que atravessamos no país, é claro que nosso orçamento vira custeio para que se garantam as condições ideais de trabalho, para que não falte combustível, alimentação para a tropa, renovação da frota e demais materiais de serviço. Mas temos investido pesadamente em tecnologia, uma ferramenta extremamente importante e que vem somar nos resultados que queremos alcançar.

[PE] - A tecnologia compensa o baixo número de policiais?
Cel. Hemm
- Não compensa. É apenas uma ferramenta que usamos para otimizar nossos recursos. O policial é fundamental dentro da instituição. Não é a máquina que vai suprir o trabalho do homem. O Estado está envidando esforços para aumentar o efetivo. Temos um efetivo com um bom tempo de serviço e houve um momento da nossa história que os governos não se preocuparam com segurança pública como deveriam. Hoje estamos colhendo os resultados disso. O atual governo foi o que mais investiu na área. Só na Polícia Militar, desde 2011, ingressaram 3.058 policiais. Em contrapartida, 2.800 saíram, por tempo de serviço. O saldo é positivo, mas pequeno. Portanto, se não tivesse sido feito esse esforço, estaríamos com saldo negativo e não teríamos como fazer segurança. Para mudar isso, precisamos do ingresso de mais policiais. Precisaríamos de um efetivo de 20 mil homens e hoje estamos com 50% disso.

[PE] - Os novos policiais são jovens e têm formação superior. É alta a taxa de desistência?
Cel. Hemm
- Nossa polícia é diferenciada também nesse aspecto da formação superior. Todos os que ingressam têm que ter curso superior, o que não acontece em outras instituições do país. Isso nos dá um ganho no atendimento e na qualidade do serviço prestado. Além disso, a maior parte é de Santa Catarina mesmo e nós fazemos questão de distribuir esses agentes de acordo com suas regiões de origem, pois conhecem a realidade da região. Quanto à evasão, é baixa: 95% permanecem. Até porque temos uma carreira atrativa e a instituição oferece possibilidades de evolução por meio de concursos internos.

[PE] - Em algumas regiões há uma forte demanda por mais presença da PMSC. O que está sendo feito?
Cel. Hemm
- A Polícia Militar faz o seu dever de casa. Vai à região, intensifica o policiamento, faz várias operações, prende envolvidos e encaminha ao Judiciário. Agimos assim em, Criciúma, em Chapecó e estamos em Joinville. Os problemas mais sentidos pela população não são os homicídios, mas roubo, furto, assalto e a presença das facções criminosas. Estamos aprendendo a trabalhar com essa realidade. O problema está também nos presos que voltam para as ruas e voltam a delinquir. O maior problema para o cidadão está nas leis, que não protegem o policial e muito menos o cidadão e por isso precisam ser revistas. Estamos enxugando gelo. Às vezes prendemos quatro ou cinco vezes o mesmo delinquente! Pode encher as cidades de efetivo policial e não vai adiantar. Temos hoje no sistema prisional do Estado em torno de 19 mil presos. Só a Polícia Militar prendeu 38 mil em 2015. A diferença entre um número e outro está novamente nas ruas.

[PE] - O trabalho precisa ser integrado, então.
Cel. Hemm
- Nossos órgãos policiais precisam estar irmanados e não ter divergências. O inimigo é outro. E o Estado tem que estar presente. Não só a Polícia Militar. Convidamos os setores que podem contribuir. Se falta iluminação pública, chamamos a Celesc. Se tem entulho nas ruas, prejudicando o avanço dos nossos veículos, chamamos a empresa de limpeza pública. E a comunidade tem que fazer a sua parte. Fiz um curso recentemente na Colômbia sobre polícia cidadã e o diferencial foi exatamente a participação dos cidadãos, com reflexo na redução da criminalidade.

[PE] - Como atender a população com redução de recursos?
Cel. Hemm
- Orçamento não é dinheiro, mas uma previsão. Nossos orçamentos sempre foram aprovados. Tivemos bons momentos, com bastante investimento. Mas em 2015 já tivemos contingenciamento. E contingenciamento não é corte. Em 2015 tivemos 84 milhões de reais em caixa para fazer segurança e tivemos um aporte de mais 10 milhões de reais. Já tínhamos a perspectiva de que 2016 não seria diferente, o que está obrigando todos os órgãos do governo a racionalizarem os gastos. Tudo o que foi programado em 2015 foi feito e tudo o que foi programado para 2016 está sendo feito. Em nenhum momento o governador disse que ia faltar dinheiro para a Segurança Pública. Mas estamos tendo que exigir mais cuidado com os recursos públicos, sem prejudicar os nossos resultados, mesmo com menos efetivo e mais ocorrência.
 

Por Andréa Leonora
Fpolis, 25/Abr/2016
redacao@peloestado.com.br

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