[Pelo Estado] Entrevista Consultor em Comunicação Carlos Amberto Di Franco

12.06.2017

“Só os jornais regionais podem falar do dia a dia das pessoas”

"É preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal"

Bacharel em Direito e especialista em Jornalismo Brasileiro e Comparado, é doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra (Espanha), diretor do Master em Jornalismo do Instituto Internacional de Ciências Sociais e da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, da qual é representante no Brasil. Professor convidado da Facultà di Comunicazione Sociale Istituzionale (Roma, Itália) e professor do Curso de Jornalismo Aplicado do Grupo Estado. Diretor da ‘Di Franco, Consultoria em Estratégia de Mídi’, atua como consultor de Empresas Informativas. É colunista de O Estado de S.Paulo, O Globo (Rio de Janeiro), Gazeta do Povo (Curitiba), Estado de Minas (Belo Horizonte), O Popular (Goiânia), A Tarde (Salvador), entre outros jornais brasileiros. É membro do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), do Comitê Editorial da Associação Nacional de Jornais (ANJ), do Conselho Editorial da Revista Comunicación y Sociedad (Pamplona, Espanha) e da Academia Cristã de Letras. É autor e co-autor de livros publicados no Brasil, na Argentina, no México e em Portugal. Dono de extensa experiência na área, o professor doutor Carlos Alberto Di Franco foi convidado pela Associação Catarinense de Imprensa (ACI) para falar sobre
O Valor da Informação e o Futuro do Jornalismo. Considerando o momento que o país atravessa e a importância da imprensa na cobertura dos fatos, a reportagem da Coluna Pelo Estado fez uma entrevista exclusiva com Di Franco sobre o jornalismo brasileiro da atualidade.

 

 [PeloEstado] - Como o senhor avalia o Jornalismo, hoje, no Brasil?

Carlos Alberto Di Franco - O jornalismo brasileiro tem boa qualidade. É comparável com os grandes veículos norte-america­nos. Sofre, no entanto, as conse­quências da doença da perda de foco. Assustados com o avanço do mundo digital e das redes sociais, que não deve ser subes­timado, os jornais abandonaram sua vocação de contar boas his­tórias e sua capacidade de estar próximos do seu público leitor. Jornalismo sem alma e sem rigor. É o diagnóstico de uma perigosa doença que contamina redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto. As empresas precisam repensar os seus mode­los e investir poderosamente no coração. É preciso dar novo bri­lho à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, isen­to. O prestígio de uma publica­ção não é fruto do acaso. É uma conquista diária. A credibilidade não se edifica com descargas de adrenalina.

É preciso contar boas histó­rias. Com transparência e sem filtros ideológicos. O bom jorna­lista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história. Na verdade, a batalha da isenção enfrenta a sabotagem da mani­pulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. Todos os manuais de redação consagram a necessida­de de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns pro­cedimentos, próprios de opções ideológicas invencíveis, trans­formam um princípio irretocável num jogo de aparência.

A apuração de mentira repre­senta uma das mais graves agres­sões à ética e à qualidade infor­mativa. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da im­parcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é ho­nesta, não se apoia na busca da verdade, mas num artifício que transmite um simulacro de isen­ção, uma ficção de imparcialida­de. O assalto à verdade culmina com uma estratégia exemplar: repercussão seletiva. O plura­lismo de fachada, hermético e dogmático, convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a notícia. Cria-se a versão.

[PE] - As redes sociais são uma ameaça à profissão de jornalista?

Di Franco - A sobrevivência dos meios tradicionais demanda foco absoluto na qualidade de seu conteúdo. A internet é um fenômeno de desintermediação. E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado? Só nos resta uma saída: produ­zir informação de alta qualidade técnica e ética. Ou fazemos jor­nalismo para valer, fiel à verda­de dos fatos, sem engajamentos ideológicos, apoiado na força de uma opinião equilibrada e qua­lificada, verdadeiramente fisca­lizador dos poderes públicos e com excelência na prestação de serviço, ou seremos descartados por um consumidor cada vez mais fascinado pelo aparente autocontrole da informação na plataforma digital.

[PE] - O que ocorre no Brasil se vê também em outros países?

Di Franco - Sim. Trata-se de um fenômeno mundial. Os jornais que estão conseguindo virar o jogo são aqueles que procuram manter uma forte conexão com seu público leitor. Aqueles que são capazes de mostrar que são importantes para o dia-a-dia dos seus leitores. Cito um exemplo europeu. O Grupo Voz de Galí­cia. É um grupo de comunicação que investiu – e investe – podero­samente em jornais. Muito bem feitos e com forte conexão com o mundo real, aumentam seus lei­tores e são um caso de sucesso. Enquanto gigantes como El País e El Mundo se debatem em grave crise, A Voz de Galícia avança e conquista novos consumidores.

[PE] - O que pode e deve mudar para que se resgate a boa quali­dade do Jornalismo?

Di Franco - A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estra­tégicas. É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil ofi­cial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivoli­dade e mais consistência. Além disso, os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também exis­te. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o ca­tastrofismo que domina muitas de nossas pautas.

[PE] - Há um movimento pela regionalização dos veículos e/ou grupos de comunicação. Qual a sua opinião sobre isso?

Di Franco - Estou convencido de que o jornalismo regional tem um papel importantíssimo. Só ele pode conversar sobre os pro­blemas, as demandas, as inquie­tações, as soluções da região. Os jornalões, sobretudo do eixo Rio-São Paulo, falam do Brasil oficial, da grande política. Mas só os jornais regionais podem falar da vida concreta e real, do dia a dia das pessoas.

[PE] - O que não pode faltar ao jornal impresso do interior para que sobreviva como empresa e como protagonista da comunica­ção em seu espaço regional?

Di Franco - Repito o que disse na resposta anterior: aprofundar o diálogo com o seu público real. Deixe a cobertura Brasília para os veículos de influência nacional e procure focar a cobertura nos problemas reais da sua comunida­de. Quem fizer isso, com talento, vigor e qualidade, será vencedor.

[PE] - Como atrair novos leitores em gerações tão acostumadas aos meios virtuais?

Di Franco - É evidente que a juventude de hoje lê muito me­nos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico “O Senhor dos Anéis” e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas. O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O proble­ma, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real. Mas não é só a juventude que foge dos jornais. A chamada elite, classes A e B, também tem aumentado a fileira dos desencantados. Será inviável conquistar toda essa gente para o fascinante mundo do jornalismo? Creio que não. O que falta, estou certo, é ousadia e qualidade.

Os jornais, equivocadamente, pensam que são meio de comu­nicação de massa. E não o são. Daí derivam erros fatais: a inútil imitação da televisão, a incapa­cidade de dialogar com a geração dos blogs e dos videogames e o alinhamento acrítico com os mo­dismos politicamente corretos. Esqueceram que os diários de su­cesso são aqueles que sabem que o seu público, independentemen­te da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de produtos de qualidade. Num momento de ênfase no didatismo e na presta­ção de serviços - estratégias úteis e necessárias-, defendo a urgen­te necessidade de complicar as pautas. O leitor que precisamos conquistar não quer o que pode conseguir na internet. Ele quer qualidade informativa: o texto elegante, a matéria aprofunda­da, a análise que o ajude, efeti­vamente, a tomar decisões. Quer também mais rigor e menos ali­nhamento com unanimidades ideológicas.

[PE] - Sobre o momento do país, no qual o Jornalismo exerce um papel importante, o que esperar?

Di Franco - Perdemos a capaci­dade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. É hora de proceder às oportunas retificações de rumo. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do con­teúdo. E redescobrir uma verda­de constantemente negligencia­da: o bom jornalismo é sempre um trabalho de garimpagem.

O papel da informação no con­turbado momento nacional mos­tra uma coisa: o jornalismo está mais vivo que nunca. E a demo­cracia depende da qualidade e da independência dos seus jornais.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

Visualizar todos