[Pelo Estado] Entrevista Diretor do BRDE Neuto de Conto - 03/10/2016

03.10.2016

“Nossa missão é fazer a economia crescer”

Neuto Fausto de Conto foi senador, deputado estadual, secretário da Fazenda de Santa Catarina e vereador. É também empresário. Nascido em Encantado (RS), é radicado em Santa Catarina, onde se estabeleceu primeiro em São Miguel do Oeste. Lá iniciou a carreira política como um dos fundadores do PMDB e foi eleito vereador. No Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), foi diretor de Operações, presidente e hoje responde pela Diretoria de Acompanhamento e Recuperação de Créditos. Ele concedeu essa entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado para falar do momento do banco que, em julho, alcançou R$ 15,5 bilhões de ativos totais e R$ 2,4 bilhões de patrimônio líquido. O saldo das operações de crédito chegou a R$ 12,8 bilhões e as operações aprovadas foram 4,8 mil (até julho) contra 7,3 mil registradas nos 12 meses de 2015. As operações contratadas de janeiro a julho somaram 4,4 mil e envolvem R$ 1,9 bilhão. São 35,1 mil clientes ativos cobrindo 90% dos municípios dos três estados do Sul. Em Santa Catarina a cobertura é de 100% das cidades.

 

[PeloEstado] - No atual cenário econômico, qual a situação do BRDE?
Neuto de Conto -
O BRDE se enquadra no contexto da economia em geral e a crise, embora mais acentuada para alguns setores, o banco tem desempenhado bem o seu papel. Em 2015 tivemos uma forte atuação e registramos o maior resultado da nossa história. Participamos efetivamente com programas fundamentais para o desenvolvimento e o crescimento de diversos setores de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Já 2016 ficou um pouco mais complexo. Parece que a crise chegou por aqui um pouco mais tarde. A preocupação com o cenário atual está em grande parte concentrada nos pedidos de recuperação judicial, de falência e concordata. Preocupa porque tem os casos verdadeiros, outros que são precipitados e ainda os que pedem, e conseguem, de forma não adequada, para não dizer de forma ilícita. Isso repercute fortemente em um banco de fomento, responsável por alimentar o setor produtivo.

[PE] - Por causa da inadimplência que gera?
De Conto -
Sim, mesmo que no BRDE seja ainda muito baixa, hoje em 3,9%. Mas no nosso melhor momento, em 2013, foi de 1,9% apenas. Embora seja crescente, é talvez a mais baixa inadimplência do país e bastante suportável Temos, sim, alguns clientes que estão solicitando ou solicitaram principalmente recuperação judicial. Portanto, são casos que estão sendo avaliados pela Justiça. Mas temos outros clientes com resultados muito bons!

[PE] - Por exemplo?
De Conto -
O agronegócio, que envolve pecuária, agricultura e indústria em uma grande cadeia produtiva. Já responde por 35% do Produto Interno Bruto (PIB) e logo vai chegar aos 50%. Além disso, daí saem 40% das nossas exportações. O Brasil é o segundo maior produtor de alimentos do mundo, sendo que os três estados do Sul respondem por mais de 90% da produção e da exportação de frangos e suínos. Praticamente está aqui toda essa economia e daqui saímos para 170 países. Isso nos dá um franco desenvolvimento nas proteínas animais. O BRDE está presente, ativamente, em todo o setor cooperativo do Sul do país, que é forte na produção de soja, milho, trigo e grandes frigoríficos. São muitas cooperativas centrais e singulares que reúnem 70 mil sócios, produtores familiares, que faz com que essa máquina gire e se desenvolva.

[PE] - Outros setores mostram bom desempenho?
De Conto -
Temos o setor cerâmico, o têxtil e o madeireiro que estão em franca recuperação. Temos o metal-mecânico ainda sufocado e a agropecuária em pleno desenvolvimento. A explicação para esse avanço da agropecuária brasileira é óbvia: a Europa está deixando de criar animais, até para produzir leite. A Ásia e a África precisam desesperadamente de alimentos para alimentar suas populações. Isso faz com que o Brasil se torne, talvez ainda nesta década, o maior produtor mundial de gêneros alimentícios.

[PE] - Estamos na era da tecnologia, porém muito dependentes do setor primário. Isso é positivo?
De Conto -
Os aspectos se somam. O uso de tecnologia e inovação no agronegócio, em todo o ciclo, é intensivo. Lembro quando um hectare de terra produzia 30 sacas de milho. Hoje produz 260 sacas. Quando a soja não podia ser produzida no Centro-Oeste brasileiro. Agora foi desenvolvida uma semente adaptada ao solo e ao clima da região. As máquinas colheitadeiras e os caminhões perdiam de 10% a 20% do que era colhido. Hoje não perde quase nada. Cada uma dessas mudanças carrega tecnologia como solução.

[PE] - Mesmo assim, pode faltar alimento?
De Conto -
Temos que ter em mente que a comida é o combustível do ser humano. Não tem como ignorar a parte in natura dessa cadeia. Eu entro em outra linha: hoje as terras agricultáveis são escassas no mundo, a urbanização é uma realidade no Brasil e no mundo, assim como o aumento do consumo. Somos hoje 7,5 bilhões de pessoas no planeta, número que deve subir para 11,5 bilhões em 2050. Imagina o aumento de consumo extraordinário que teremos. E o Brasil com essa imensidão de terras para produzir alimentos. Tem mais um dado: hoje temos em nosso país 20 milhões de hectares de solo degradado. No Planalto catarinense, por exemplo, as terras têm pouca produtividade. A tecnologia vai entrar aí também.

[PE] - O BRDE está atento a isso?
De Conto -
Não só no avanço tecnológico para a recuperação do solo e produção de milho, que nós somos carentes, mas também a consorciação entre pecuária e lavoura. Hoje, as nossas terras ficam seis meses vazias. Planta-se o milho, colhe-se, algumas regiões fazem a segunda safra, outras, por problemas de clima não o fazem, e essas áreas poderiam ser usadas para a engorda de animais. Estamos falando de tecnologia e avanço: ocupar o solo 365 dias por ano e não só 120 dias. Com isso evitamos avançar para a mata, para encostas, beira de rios. São áreas que devem ser preservadas permanentemente. Temos que investir em replantio de florestas, seja reflorestamento ou florestamento. Essa é uma missão que o banco pratica, porque estamos vinculados ao setor produtivo e temos que fazer a economia girar, crescer, gerar emprego, renda, tributos para o governo, sempre de forma sustentável social e ambientalmente.

[PE] - Outros nichos em estudo?
De Conto -
Energia. Hoje Santa Catarina tem 70 mil quilômetros de linhas elétricas monofásica, do tempo em que o agricultor pedia energia para instalar um bico de luz. Só que depois ele comprou a geladeira, a televisão, o motor para trabalhar seus produtos, um resfriador de leite... com a proximidade das propriedades, o que temos é um fornecimento deficiente. O Estado tem que se preocupar com a manutenção e em dar condições para sua ampliação. Para que isso aconteça, tem que garantir energia abundante e confiável. Estamos estudando soluções que envolvem BRDE, Celesc e governo. A ideia é criarmos um programa macro, com o BRDE viabilizando as operações com recursos do BNDES ou mesmo externos. A mesma realidade é percebida no Paraná e muito mais ainda no Rio Grande do Sul. A deficiência energética faz com que haja uma retração da produção. Nossa missão é reverter esse quadro. Além disso, financiamos quase 60 pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) em Santa Catarina, de até 30 megawatts, e duas grandes usinas eólicas no Rio Grande do Sul. Também temos em análise pedidos de investidores em energia fotovoltaica. Como vamos manter, por exemplo, o parque do agronegócio se não tivermos energia? E as cidades também passam por aí.


[PE] - De que forma?
De Conto -
Temos estudos para a troca de luminárias da iluminação pública das cidades. Hoje, se trocássemos todas as lâmpadas de todas as cidades do Brasil por lâmpadas LED, a economia gerada equivaleria a uma Usina Hidrelétrica Itaipu Binacional. Só que nós não temos ainda indústrias de LED no Brasil. É tudo importado e como tal não pode ser financiado. Temos cidades interessadas em fazer a transformação e embelezamento, mas ficaria muito onerosa a troca. Já temos indústrias interessadas em produzir LED aqui no Brasil, projetos em estudos.

[PE] - Estamos falando dos grandes empresários e produtores. Como o BRDE chega aos pequenos, que uma característica de Santa Catarina?
De Conto -
Nossa estrutura é pequena. Só temos três agências, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, e um escritório, no Mato Grosso, com 558 pessoas no quadro de pessoal. Duas ou três representações, para dar mais facilidade ao cliente. Para levar essa pequena estrutura aos pequenos empreendedores, fizemos convênios e parcerias com todas as cooperativas de crédito. Com isso, conseguimos marcar presença em todos os recantos dos estados e com investimentos dos mais diferentes valores. Pequeno ou médio comerciante, pequeno ou médio produtor rural, pequeno ou médio industrial, nós fomentamos com recursos e eles atendem às comunidades. Nesses contratos a inadimplência é praticamente zero. Nossa atuação no microcrédito, por meio dessas parcerias, com certeza contribui para que Santa Catarina sinta menos a crise, porque o fomento vai para a base. Isso gira a economia e gera tributos.
 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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