[Pelo Estado] Entrevista Governador Raimundo Colombo 27/06/2017

27.06.2017

“Estou muito otimista. O pior já passou”

O governador Raimundo Colombo recebeu a reportagem da Coluna Pelo Estado, na manhã de ontem, em seu gabinete na Casa D’Agronômica, para um balanço do primeiro semestre do ano. Apesar de manter o tom otimista, ele não deixou de falar das dificuldades que foram superadas e das que ainda precisam ser vencidas. Para Colombo, Santa Catarina vive agora o período do “pós-impacto” da crise econômica e política que domina o país. “Começa a se perceber certo resultado. A economia não está expandindo aceleradamente, mas está se recuperando. É visível. Na semana passada estive em Criciúma, Joinville, Blumenau, Rio do Sul, Lages e Chapecó, e foi possível perceber que todos os setores, com mais ou menos dificuldades, estão avançando”, garante.
Aqui ele destaca, mais uma vez, as decisões que vem tomando desde 2011 e que garantem, hoje, um maior equilíbrio financeiro do Estado, o pagamento em dia dos salários e benefícios e a manutenção do nível de investimentos, condições que diferenciam Santa Catarina de praticamente todos os demais estados do país.
Em outro momento da entrevista, o governador Colombo fala da mudança na Secretaria de Estado da Fazenda e de seus planos para 2018: “Eu me preparei para que em 2018 possamos colher um bom governo, como de fato está ocorrendo”, disse ao confirmar que pretende uma vaga no Senado.

 

[PeloEstado] - O que contribuiu para esse começo de retomada?
Raimundo Colombo -
Tivemos boa temporada de verão, excelentes safras agrícolas, a nossa exportação está se recuperando com intensidade. E eu sinto também nas contas públicas. Não é que esteja bom, mas há um sinal de reação. Tivemos um primeiro quadrimestre excelente, e abril foi o melhor mês do período. Em maio houve uma nova queda de arrecadação, que recuperamos em junho. Outro indicativo da reação é o consumo de energia. Há bons sinais vindos também do setor de combustíveis, de veículos, têxteis, bebidas, supermercados.

[PE] - O Estado é um dos poucos com salários em dia. Qual o reflexo disso?
Colombo -
A questão dos salários dos servidores públicos estaduais é um componente importante para a nossa economia. Outros estados estão atrasando os pagamentos de salários e benefícios, o que cria uma insegurança e retração no consumo. Quando o nosso governo consegue cumprir toda a programação, sem atrasar ou parcelar salários, cria uma estabilidade que permite o planejamento das famílias. A ideia de fazermos esse balanço do primeiro semestre é para mostrar os bons números e dar força para que esse ritmo continue, em que pese o cenário nacional, que é desafiador.


[PE] - Santa Catarina sentiu o impacto da crise nacional?
Colombo -
Sim. Estamos falando justamente do período pós-impacto. Nós lutamos muito para que Santa Catarina fosse o último estado a entrar na crise e o primeiro a sair. E de fato isso aconteceu. Mas nós tivemos um segundo semestre do ano passado muito duro, no qual andamos de lado e em alguns casos andamos para trás. Agora já retomamos o caminho. A geração de empregos está com saldo positivo significativo, com destaque nacional.

[PE] - As contas do Estado estão em dia?
Colombo -
Na sexta-feira (23) pagamos mais uma parcela da dívida internacional que o Estado tem e isso é muito importante. A avaliação do governo federal é de que Santa Catarina vai ganhar várias posições frente a outros estados. Isso nos permite assumir mais dívidas, se desejarmos. Mas a ideia agora é assumir esse empréstimo do Fundam (Fundo Estadual de Apoio aos Municípios) e algumas obras complementares (a Assembleia Legislativa autorizou o governo do Estado a assumir empréstimos junto ao BRDE e ao Banco do Brasil no total de R$ 1,5 bilhão. Desse total, R$ 700 milhões serão destinados aos municípios catarinenses na segunda etapa do Fundam. O valor restante será distribuído entre várias áreas), recursos que não serão usados provavelmente no meu período como governador. Nós conseguimos melhorar muito o perfil da dívida do Estado. Em pouco mais de um ano, desde que houve a renegociação da dívida com a União, o governo economizou mais de R$ 1 bilhão. Também contribuíram as reformas que nós fizemos em 2015, como a da Previdência Pública do Estado, que gera uma economia de R$ 838,2 milhões. Só nessas duas medidas temos quase R$ 2 bilhões de economia.

[PE] - O que ainda falta a ser realizado dentro do plano de reorganização do Estado?
Colombo -
A extinção da Codesc (Companhia de Desenvolvimento), Cohab (Companhia de Habitação) e Bescor (Corretora de Seguros e Administradora de Bens Móveis e Imóveis), que deve ser aprovada pela Assembleia Legislativa ainda nesse semestr. Está pronta para ser votada. Vencida essa etapa, faremos um plano de demissão incentivada. No primeiro momento haverá um crescimento de despesa por conta dessas saídas, mas em um ano e meio ou dois projetamos, com essa medida, economia de R$ 42 milhões por ano. Todo dia é assim: um ajustezinho aqui, outro ajustezinho ali para poder sobreviver.

[PE] - O que explica a maior parte dos outros estados não terem tomado essas precauções?
Colombo -
Escolhas. Por exemplo, quando eles aumentaram impostos, eu acho que cometeram um erro muito grave. O resultado é o enfraquecimento da atividade econômica. Então, o que temos é que hoje, no Brasil, a taxa de desemprego está na faixa de 14%, enquanto que em Santa Catarina é de 6%. Uma vez que a nossa escolha foi não aumentar impostos, ficou mais barato produzir aqui. E as empresas sabem disso.

[PE] - Por outro lado, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, está falando em aumentar impostos. Isso pode atrapalhar o ritmo da retomada econômica?
Colombo -
Falei com ele na terça-feira (20) e achei que estava muito otimista. Disse que agosto é um mês de retomada acentuada da geração de empregos, que o segundo semestre será bem melhor do que foi o primeiro e que a expectativa dele para o trimestre final, comparado com o ano passado, é de um crescimento próximo dos 3%, o que é bem significativo. Acredito que ele só vai aumentar impostos se essas expectativas se frustrarem.

[PE] - O senhor defende a política de renúncias e isenções fiscais mantida por seu governo?
Colombo -
O modelo catarinense é a nossa maior riqueza. Vamos pegar o exemplo do Oeste: um saco de milho no Mato Grosso custa R$ 14,00 e aqui, 26 ou 27 reais. Considerando que 70% da proteína animal resultam da alimentação dos rebanhos, o risco que corremos é que as agroindústrias migrem todas para onde o grão é mais barato. Ou damos um apoio, ou esse modelo de pequenas propriedades, de agricultura familiar, que é um sucesso extraordinário, vai desaparecer. Quando a isenção ou a renúncia é aplicada de forma a levar ao equilíbrio fiscal e não à injustiça fiscal, eu concordo. Mas aceitar propostas só para atrair empresas, não. Política permanente deve ser essa, de baixar encargos, não aumentar impostos e ainda reduzir onde é possível. E isso foi importante, por exemplo, para o setor têxtil, para o qual demos um apoio incrível quando precisou concorrer com a China. Agora o resultado veio com um crescimento de 27% desde o início do ano até aqui. O setor da maçã estava quebrado. Fomos lá, retiramos imposto e agora vemos a recuperação. A suinocultura está pleiteando a redução de ICMS de 12% para 6%, para concorrer com o Rio Grande do Sul, que já está aplicando esse novo índice. Vai ter que ser feito. Não tem jeito, porque é preciso manter um nível de competitividade. São Paulo é o estado que mais reclama, mas é o que mais cede impostos. A gente viu a briga que eles fizeram pela BMW. Foi uma loucura! Eles não deixavam vir. Nós perdemos a Land Rover porque o Rio de Janeiro deu o que não tínhamos como dar. Acho muito burra a guerra fiscal, agora, uma política fiscal justa, que gere empregos, que leve ao desenvolvimento e que tenha lógica, acho importante.

[PE] - Como é administrar um Estado em meio à crise política e econômica que paralisa o país?
Colombo -
Traz uma instabilidade incrível e não se tem como fazer planejamento de médio prazo ou de longo prazo. Precisamos trabalhar mês a mês. Fica muito difícil estimular os processos de produção porque as pessoas estão inseguras, o quadro está muito negativo, muito destrutivo, uma aposta no pior. Isso faz com que as consequências sejam duras. O setor privado meio que descolou desse clima, mas todos sofrem com os reflexos. Exemplo disso é a Operação Carne Fraca, que agora culminou com o fechamento do mercado dos Estados Unidos para a carne brasileira, claramente uma oportunidade gerada naquele momento. Esse processo nos impôs vários problemas que estamos lutando todo o dia para resolver. Temos que fazer um trabalho minucioso, mostrar para o mundo que nós somos estado livre de febre aftosa sem vacinação, que temos um status sanitário diferenciado... o esforço é muito grande para não deixar o quadro se agravar. Por isso nós temos percorrido o estado inteiro, falando com lideranças da sociedade, animando os setores da economia, para fazer um contraponto a esse quadro extremamente pessimista que está aí.

[PE] - O senhor tem percorrido as regiões catarinenses falando do Fundam 2 para os prefeitos. O que percebe nesse público, que tanto sofre com a falta de recursos?
Colombo -
Há um clima de desgaste, de insegurança, de instabilidade, as pessoas não sabem o que vai acontecer. Isso é muito ruim.  Nosso papel é mostrar que temos condições de superar o momento difícil. A exportação está salvando a gente. Não vejo recuperação acelerada no mercado interno, porque houve perda de poder aquisitivo, mas o mercado externo está bom. Acredito que o pior passou. Os nossos bancos de investimentos, BRDE e Badesc (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul e Agência de Fomento de Santa Catarina), registraram aumento de procura por financiamentos, o que mostra otimismo. É importante lembrar que estamos no período historicamente mais fraco da atividade econômica, de maio a agosto. De setembro para frente há uma recuperação. Por isso nossa estratégia foi aproveitar o máximo possível o primeiro quadrimestre, nos manter de pé no segundo para apostar novamente no terceiro. Tudo o que o governo puder fazer para investir em obras e colocar dinheiro no mercado, vai ser feito.

[PE] - Nesse sentido, como estão as obras do Pacto por SC?
Colombo -
O programa está bem adiantado. Todas as obras estão em andamento, e praticamente todas em dia. Superamos problemas com burocracia, com empresas que ganharam a licitação e não honraram o compromisso. Muitas das obras planejadas serão entregues até depois de 2018, mas o ano atual é de muitos investimentos. Só para se ter uma ideia, entregamos 34 obras grandes de janeiro até agora. E no segundo semestre temos muito mais para entregar. Só de escolas, serão 20 entregues nos próximos dias;.

[PE] - Quais os resultados do Fundam 1?
Colombo -
Foi um grande sucesso. A filosofia desse programa é manter o modelo catarinense. Atende a todos os municípios, mas tem foco principalmente nos pequenos, porque capilariza recursos para melhorar a infraestrutura. São características muito positivas de Santa Catarina a boa distribuição demográfica, o trabalho de promoção cultural, social e econômica. Esse modelo não pode se desmanchar. Estamos injetando recursos nos municípios por três canais – a fundo perdido pelo Fundam, com R$ 606 milhões na primeira etapa, dos quais R$ 570 milhões já foram repassados, e R$ 700 milhões na próxima; pelo programa Badesc Cidades, que em 2017 vai emprestar mais R$ 400 milhões; e ainda por uma linha de crédito do BRDE para ajudar os municípios a fazerem investimentos, enfrentando a queda de receita.

[PE] - Quais os principais problemas do Estado hoje?
Colombo -
Os dois maiores problemas que nós temos, pelos custos elevados, são o sistema prisional, com uma população que só faz aumentar, e a Saúde que, além de sofrer com a judicialização, recebeu uma carga importante de pessoas que perderam seus planos privados. Isso também aconteceu na Educação. Estudantes que saíram da rede privada para a pública, mas conseguimos equilibrar bem e não temos um problema financeiro ali. Mas na Saúde e na Justiça e Cidadania o problema é financeiro. Em um cronograma de 12 meses, acredito que esses impactos financeiros também estarão sob controle.

[PE] - O senhor teve uma vitória importante na Assembleia com a aprovação das parcerias público-privadas, as PPPs. Como pretende conduzir isso agora?
Colombo -
Será um grande legado para o próximo governo. Uma parceria dessas não se faz em curto prazo. Vamos deixar os estudos feitos, a lei regulamentada, mas com certeza só vai deslanchar no próximo governo. É uma ação que fica, assim como a da extinção das empresas sobre as quais falamos. No meu período, terei aumento da despesa, mas o perfil muda em um ano, um ano e meio. Se não tivermos essas medidas, o Estado vai quebrar como está acontecendo com os outros. Todo dia é preciso fazer um corte, um ajuste, uma arrumação, para poder enfrentar o que está corroendo o Estado.

[PE] - Como por exemplo...
Colombo -
Apesar da reforma que implantamos, a maior corrosão vem da Previdência. É um saco sem fundo. O déficit continua na faixa de R$ 300 milhões por mês. Está subindo com menor velocidade, mas não baixou.

[PE] - Ainda assim o senhor conseguiu a incorporação de pessoal para a área da segurança. Por quê?
Colombo -
Não tinha saída. A violência é um problema que a sociedade está apontando como muito grave. E a gente que trabalha com informações do Serviço de Inteligência sabe que é isso mesmo. Já são perceptíveis os reflexos da reação do governo, mas o quadro continua difícil. Furtos e pequenos delitos relacionados às drogas são evidentes. Se ocorre uma grande apreensão de drogas, dois ou três dias depois vai ter banco sendo assaltado como forma de se obter dinheiro para pagar o tráfico pela droga perdida. Vamos ter que continuar investindo em segurança, em tecnologia e em efetivo por alguns anos. (No primeiro semestre foram incorporados 950 PMs, 45 delegados e 227 agentes da Polícia Civil. No período Colombo foram efetivados mais de 8 mil novos agentes de segurança.)

[PE] - O senhor vinha com uma equipe bem azeitada na Secretaria da Fazenda. Quais as consequências da saída do secretário Antonio Gavazzoni?
Colombo -
Foi um prejuízo muito grande para o governo. O Gavazzoni é um rapaz bem articulado. Ele está ajudando no que pode, mas precisava se dedicar à parte jurídica dos processos nos quais temos que nos defender. Nós não estávamos dando a devida atenção a isso, até pelo envolvimento diário com o próprio governo. A equipe da Fazenda continua a mesma e o Almir Gorges (novo responsável pela pasta) foi adjunto do Gavazzoni. É um técnico, tem vários livros escritos, uma autoridade tributária do país. Para a continuidade e para a segurança do nosso modelo, com um sacrifício pessoal imenso, porque ele já estava aposentado e construindo um novo caminho profissional, o Almir aceitou o desafio. E segue a programação que estava estabelecida. Sempre é muito difícil. Quando em maio tivemos queda na arrecadação, acendeu o sinal de alerta. Se fosse uma tendência em junho e julho, isso exigiria uma reação. Em junho houve recuperação e agora a nossa expectativa é sobre julho. É assim o nosso trabalho: dia a dia.

[PE] - Como está o relacionamento com a Assembleia Legislativa? Não são raras as críticas a seu governo até por deputados da base.
Colombo -
Sempre entendi que os parlamentares devem ser respeitados por suas posições e as críticas que fazem devem ser ouvidas. Não sou o dono da verdade e nem tenho a pretensão de ter a unanimidade em temas polêmicos e até impopulares. Convivo com isso com absoluta tranquilidade. Tenho tido da Assembleia, ou pelo menos de grande parte dos deputados, o apoio para mudanças importantes. O Parlamento catarinense tomou atitudes corajosas, como a reforma da Previdência, a reforma da Educação, a extinção de vários órgãos. São medidas impopulares, medidas duras para um parlamentar que precisa da compreensão da sociedade. Respeito as posições contraditórias, faz parte da democracia, mas o mais importante é que naquilo que é essencial nós temos conseguido avançar.

[PE] - Para finalizar, preciso saber de seus planos para as eleições de 2018 e se houve prejuízo para sua imagem com a citação de seu nome em delações da Odebrecht e da JBS?
Colombo -
A minha disposição é ser candidato ao Senado. Sinto que posso ajudar ainda mais depois de ter acumulado essa experiência no Executivo estadual.  Em Brasília, o relacionamento, a amizade e o conhecimento com as pessoas são muito importantes para que se possa ser útil para o Estado. Eu me preparei para que em 2018 possamos colher um bom governo, como de fato está ocorrendo. Infelizmente, veio esse processo das delações que nos ataca. Não de corrupção, mas de doações de campanha que precisam ser esclarecidas. Com a quebra do meu sigilo telefônico, conseguimos ter acesso a quase todos os documentos necessários e estamos muito bem fundamentados sobre a legalidade de todas as ações que fizemos. Nossos elementos são robustos para mostrar, com absoluta transparência e tranquilidade, que houve espírito público, respeito com o dinheiro público, e as nossas ações serão plenamente justificadas. Não haverá dificuldade de defesa do governo ou de nossa parte por uma razão simples: não foram concedidos quaisquer benefícios à Odebrecht ou à JBS. Não foi vendida nenhuma ação, não tem nenhum contrato, não foi feito nenhum pagamento. Como a avaliação da Casan deu muito baixa, a bem do serviço público nós suspendemos o processo de busca de parceiros, conforme provam atas de reuniões. Estamos discutindo a paternidade de um filho que não nasceu. É uma coisa que incomoda muito, que dói muito, mas, por outro lado, tem o conforto de podermos mostrar, de forma muito transparente, todos os documentos que comprovam a correção das nossas atitudes.


 

“Santa Catarina está enfrentando a crise com trabalho, com dedicação, com bons resultados. Os desafios são feitos para serem superados com força. Vamos acreditar que o segundo semestre vai ser bem melhor e o resultado vai ajudar a proteger empregos, a gerar novos empregos, a trazer bem estar para toda a nossa população. Estou muito otimista com o segundo semestre. O pior já passou.”

Raimundo Colombo

 

 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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