Pelo Estado Entrevista: Guilherme Stark

13.08.2012

"Santa Catarina é um centro de inovação"

Natural do Rio de Janeiro, é formado em Engenharia Elétrica e sócio fundador da Reason, criada em 1991. Liderou a Vertical de Negócios Energia até ser empossado presidente da Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate). Durante essa entrevista exclusiva concedida à reportagem da ADI-SC/Central de Diários/CNR-SC, ensinou aos que desejam entrar nesse mercado: “Profissionalização é a palavra-chave. O setor de tecnologia oferece ótimas oportunidades e está em plena expansão, mas também exige muito conhecimento e qualificação constante. Além disso, esta área também oferece boas oportunidades para quem busca empreender. Neste caso, buscar segmentação, focar em um mercado e negócio é cada vez mais fundamental para a sobrevivência de um negócio de tecnologia. Os empreendedores precisam ter conhecimento específico para aplicar a tecnologia de forma inovadora. Persistir no negócio, sem ser míope, é outra característica importante para o empreendedor, pois muitos obstáculos devem ser superados para alcançar sucesso no setor tecnológico. Entender o ambiente, buscar sinergias, colaboração e associativismo garantem competitividade para negócios deste segmento”.

 

[PeloEstado] - Existe ca­rência de mão de obra na área de tecnologia? Qual o déficit? Em que segmentos a situação é pior?

Guilherme Stark - Existe, sim, e, se não tomarmos pro­vidências, teremos um apagão da mão de obra no setor de tec­nologia catarinense. É isso que aponta o último Mapeamento de Recursos Humanos e Cursos de Tecnologia da Informação e da Comunicação (TIC), feito pela Acate em parceria com o governo do Estado. Até 2015, mais de 11 mil postos de traba­lho estarão em aberto no setor de TIC. Nessa perspectiva, as áreas de atuação que mais de­mandam mão de obra são a terceirização de software (out­sourcing), internet e serviços, gestão empresarial e soluções para governo. Entre os cargos mais demandados até 2015, po­demos citar o analista desenvol­vedor, o analista de sistemas e o programador Java.

[PE] - O mercado catari­nense sofre com a fuga de bons profissionais? Como reter talentos?

GS - O setor de tecnologia care­ce de profissionais qualificados. Para se ter uma ideia, a taxa de adesão dos cursos da área tec­nológica em Santa Catarina é de 85%. As oportunidades de crescimento e desenvolvimen­to de carreira oferecidas por muitas empresas daqui, além da qualidade de vida propor­cionada pelo estado, atraem trabalhadores de outras regiões do país. Há sim, uma migração normal. Tanto profissionais ca­tarinenses mudam para outros estados, como Santa Catarina também é um estado procu­rado por especialistas interes­sados nas oportunidades ofe­recidas pelas empresas daqui. Cresce cada vez mais o número de trabalhadores especializados em busca de oportunidade em terras catarinenses. Para reter seus talentos, muitas empre­sas oferecem benefícios, como participação em lucros, apoio para especialização, cursos profissionalizantes, programas de recursos humanos, além de ambientes descontraídos e dife­renciados.

[PE] - Sobre as incubado­ras. Como a Acate apoia quem está começando?

GS - O modelo de incubação de empresas mostrou-se muito eficiente em diferentes partes do mundo. Em Santa Catari­na, contamos com importan­tes instituições que apoiam o desenvolvimento de empresas nascentes de base tecnológica, como MIDI Tecnológico, Celta, Uniinova, Blusoft, Softville, etc. A Acate se orgulha muito de ser a gestora do MIDI Tecnológico, em Florianópolis, juntamente com o Sebrae de Santa Catari­na, que apoia financeiramente a iniciativa. Esta incubadora, eleita em 2008 a melhor do país pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Em­preendimentos Inovadores, a Anprotec, ajudou na formação de cerca de 60 empresas que já se graduaram e apoia hoje 22 incubadas. O MIDI oferece con­sultorias, treinamento, opor­tunidades de relacionamento com investidores, fundos de investimento. Um grande avan­ço nosso nos últimos anos foi a incubação virtual, que per­mite a participação de organi­zações consolidadas, mas que precisam do networking e das consultorias que o MIDI traz. Afinal, muitos empresários têm um perfil muito técnico e pre­cisam de ajuda para melhorar a gestão interna. Dessa forma, ajudamos negócios nascentes a adquirirem governança corpo­rativa e solidez para entrar no aquecido mercado tecnológico.

[PE] - Além da Grande Flo­rianópolis, que regiões do estado se destacam na área de tecnologia?

GS - Algumas regiões do estado já se destacam por terem polos bem desenvolvidos. Joinville, por exemplo, conta com o Sof­tville. Em Blumenau, o Blusoft é referência para todo o Vale do Itajaí. A região Oeste se organi­zou e criou o Deatec, com sede em Chapecó. Fora as outras localidades, que perceberam a importância do setor tecnológi­co e passaram a reunir empre­sas do segmento, como Criciú­ma, Tubarão e Lages.

[PE] - O setor está em ple­no crescimento?

GS - Santa Catarina possui cerca de 2.300 empresas de tecnologia da informação e co­municação (TIC). Juntas, re­gistram taxa de crescimento de 20% a 30% ao ano. O mercado brasileiro de TI deve crescer 8,8% em relação ao ano passa­do, segundo uma pesquisa do IDC Brasil (International Data Corporation). Os segmentos que mais devem crescer são software e serviços. Em Santa Catarina, devemos aproveitar essa tendência e expandir o po­tencial de negócios das nossas empresas locais.

[PE] - No campo nacional, qual o principal concor­rente do estado? E qual o diferencial de SC?

GS - O Brasil tem grandes players do mercado de TI em estados como São Paulo (na ca­pital e no interior, como Cam­pinas) e Rio de Janeiro. Além disso, novos polos tecnológicos têm surgido e se destacado, como o Porto Digital, em Recife (PE). São exemplos que mos­tram o potencial do nosso país e que estimulam nossas empresas catarinenses a se desenvolver e conquistar novos mercados. E temos muita maturidade para isso. Acompanhei esse setor por muitos anos e posso dizer que, hoje, estamos bem organizados e em crescimento acelerado. Além disso, o catarinense tem um espírito empreendedor - e a tecnologia foi o trunfo para que negócios nascentes se transfor­massem em grandes organiza­ções. Por fim, o apoio do Estado e de outros parceiros tem for­talecido o segmento, transfor­mando Santa Catarina em um centro de inovação para o país.

[PE] - Há exemplos?

GS - A tecnologia catarinen­se suporta o desenvolvimento de vários setores da economia: energia, segurança, saúde, tele­comunicações, governo, agro­negócio, automação comercial, entre outros. Todos os seg­mentos precisam da tecnologia para serem competitivos. Então nosso crescimento está ligado diretamente ao aquecimento da economia. Hoje, só não cresce­mos mais porque ainda há gar­galos na formação da mão de obra - a demanda do setor tem sido maior do que a oferta de profissionais formados nas ins­tituições de ensino, do técnico ao ensino superior.

[PE] - Quais os planos para a atuação da Acate no inte­rior de Santa Catarina?

GS - Uma das metas da nossa gestão é aumentar o diálogo com os polos tecnológicos ca­tarinenses. É inegável a impor­tância que têm para o desenvol­vimento estadual do setor. Por isso, articulamos parcerias com Softville, Blusoft e outras enti­dades, a fim de que mais empre­sas possam integrar-se ao nosso associativismo inovador.

[PE] - O senhor tomou posse recentemente. Que balanço faz dos primeiros meses de sua gestão?

GS - Nosso principal foco como gestores é manter a imagem implantada pela última gestão, entre 2008 e 2012. A Acate cresceu, em números de asso­ciados, em serviços prestados, como em imagem de qualidade. A primeira meta é que a gente consiga manter esse reconheci­mento. E, logicamente, também queremos contribuir, deixar nossa marca de gestão. Contri­buir para o surgimento de no­vas empresas e dar alguma con­tribuição para toda a sociedade. Uma das grandes bandeiras que iremos dar continuidade é o Mapeamento de Recursos Humanos em TI, realizado em duas edições, apresenta as ca­rências de mão de obra no es­tado e oportunidades para os profissionais que atuam ou pre­tendem ingressar nesse setor.

[PE] - Como fica a relação com as escolas?

GS - Vamos ampliar a intera­ção com instituições de ensino, apontando melhorias, e promo­ver a adequação da grade curri­cular. Estamos fazendo também um forte trabalho com nossas empresas para que invistam na formação de recursos humanos, não somente entre seus colabo­radores, mas no próprio merca­do, pensando como fator essen­cial para crescimento do setor e do seu próprio negócio. Outra bandeira é a promoção da me­lhoria nos processos e busca de excelência nos produtos e servi­ços, sempre ancoradas pela ino­vação. Só assim nossos negócios se manterão competitivos, tanto no mercado nacional quanto no global. Por fim, vamos manter os esforços de representativida­de dos interesses das empresas catarinenses. 

Pelo Estado Entrevista

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