Pelo Estado Entrevista: José Sebastião Nunes

17.09.2012

“Administração é a profissão mais procurada e desejada do país”

 

“Somente com a profissionalização da gestão dos negócios, é que alcançaremos um índice menor de mortalidade entre os novos empreendimentos.”

 

Presidente do Conselho Regional de Administração de Santa Catarina (CRA-SC), nasceu em Florianópolis e é Administrador. Foi diretor-técnico da Fundação dos Administradores (Fundasc), professor e coordenador de programas de pós-graduação, servidor público, produtor rural, consultor, conferencista e organizador de eventos nacionais e internacionais. O CRA-SC é uma autarquia federal, um órgão consultivo, orientador, disciplinador e fiscalizador do exercício da profissão de Administrador, cuja missão é promover a difusão da ciência da administração e a valorização do administrador, em defesa da sociedade catarinense. Nessa entrevista exclusiva aos veículos da ADI-SC/Central de Diários/CNR-SC, Nunes faz um alerta: “Muitas funções que deveriam ser exercidas por administradores são executadas ilegalmente por outros profissionais, como contadores, economistas, engenheiros e advogados”.

 

[PeloEstado] - Fale sobre a atuação da CRA-SC na sua gestão. Quais as principais atribuições e atividades?

 

José Nunes - Uma das mar­cas desta gestão é a defesa da sociedade através da fiscaliza­ção profissional na área da ad­ministração. Outra ação foi que o CRA-SC selou parceria com as Instituições de Ensino Superior (IES) catarinenses no sentido de elevar os padrões educacio­nais na formação do futuro ad­ministrador, visando torná-lo mais competitivo. Trabalhamos com o conceito de fiscalização preventiva, antecipando infor­mações e esclarecimentos ne­cessários para evitar possíveis problemas. Também focamos no debate dos projetos peda­gógicos dos cursos de Adminis­tração, pois acreditamos que já nas IES esses conceitos devem ser assimilados. Com isso, bus­camos um melhor alinhamento entre as demandas do mercado e a preparação profissional.

 

[PE] - A atuação do CRA-SC é estadualizada?

 

JN - Sim. O CRA-SC também implantou um novo modelo de gestão, que prevê, entre ou­tras ações, a estadualização por meio de cinco macrorregionais: Chapecó, Criciúma, Joinville, Blumenau e Lages. Desde o início do ano, nossos fiscais já realizaram mais de 500 dili­gências em todas as regiões do estado, as quais originaram, até o final de julho, a abertura de 454 processos de fiscalização e 94 regularizações. O Conselho contava com cinco fiscais e pas­sou a ter 17, todos administra­dores. Outra conquista da atual gestão foi a aquisição da nova sede, localizada na região cen­tral de Florianópolis, com me­lhor estrutura para atender os administradores catarinenses.

 

[PE] - Quantos profissio­nais existem no mercado estadual? É um mercado promissor?

 

JN - O mercado é muito pro­missor para o profissional de Administração. Os conheci­mentos e habilidades em gestão nunca foram tão valorizados e tão necessários. Para uma em­presa se manter competitiva no mercado, é imprescindível que tenha uma gestão profissional e competente, e esse é o papel do administrador. As áreas de eventos e negócios são algu­mas das que mais crescem no país. Aqui no estado, queremos profissionalizar o turismo de negócios, por exemplo. A Ad­ministração é a profissão mais procurada e desejada do país. A razão da busca de conhecer e dominar a área de gestão é uma vasta oportunidade que o mer­cado oferece ao administrador. Os profissionais podem ser em­preendedores e gerenciar o seu próprio negócio, bem como uti­lizar a sua habilidade para ga­rantir a sobrevivência e assegu­rar o sucesso das empresas que já estão inseridas no mercado.

 

[PE] - Administração é o curso mais procurado no país. Entre públicas e pri­vadas, quantas faculdades oferecem o curso?

 

JN - São mais de 2.800 cur­sos de Administração no Brasil, com mais de 1,3 milhão de es­tudantes. Cerca de 200 desses cursos estão em Santa Catarina, onde temos aproximadamente 3 mil professores administra­dores e quase 50 mil estudan­tes. Do universo de estudantes em IES, 20% estudam Admi­nistração. Aproximadamente 3 mil estudantes se formam todos os semestres em Santa Catarina, sendo que, por ano, segundo estatísticas da Jucesc (Junta Comercial do Estado de Santa Catarina), são constituí­das de 25 a 30 mil empresas. Portanto, o mercado comporta tais profissionais recém-forma­dos.

 

[PE] - Em agosto, durante o ADM Fórum, foi lançada uma pesquisa encomenda­da pelo Conselho traçando o perfil do profissional da área. Quem é este profis­sional?

 

JN - O perfil desse profissional já começa a ser delimitado na escolha do curso. Entre os mo­tivos da escolha da profissão, a pesquisa aponta que o principal é a necessidade (mais de 45%), seguido de credibilidade (mais de 35%). A pesquisa revela ain­da que mais de 20% dos admi­nistradores ocupam cargos de gerência nas organizações, e que cerca de 12% atuam como proprietários de negócios. Mas o estudo também apontou que muitas funções que deveriam ser exercidas por administrado­res são executadas, ilegalmente, por outros profissionais, como contadores, economistas, enge­nheiros e advogados.

 

[PE] - Também houve de­bate de propostas peda­gógicas. O curso de Admi­nistração está distante do mercado?

 

JN - Atualmente, 90% dos alu­nos não sabem qual é a vocação do curso, ou seja, as IES não deixam claro qual é o projeto pedagógico e quais as diretrizes. Questiona-se a compatibilidade entre os modelos pedagógicos, as expectativas dos alunos e as demandas específicas de cada região. Sobre a vocação regio­nal dos cursos, o estudo mostra que a maior parte deles não é condizente e que 80% deles não têm foco. Nossos administrado­res estão muito mais voltados à área gerencial e operacional, pois os alunos são levados a executar tarefas e processos e os professores não conseguem contextualizar o que ensinam.

 

[PE] - Que balanço o se­nhor faz do evento?

 

JN - O ADM Fórum foi muito importante, pois proporcionou um momento para debater o ensino e o exercício da Admi­nistração e a participação do profissional no mercado. Vale lembrar que foi apresentado o resultado da pesquisa regiona­lizada sobre o perfil do adminis­trador catarinense, que servirá como ferramenta fundamental para começarmos a provocar mudanças no cenário atual. Outro aspecto a ser destacado são os debates, que reuniram grandes nomes e abordaram diferentes temas.

 

[PE] - No final de agosto, o IBGE lançou estudo indi­cando que mais da metade das empresas não superam o terceiro ano de atividade. Uma má administração é o principal fator de falência dos negócios?

 

JN - Sem dúvidas. Somente com a profissionalização da gestão dos negócios, desde as microempresas até as grandes corporações empresariais, é que alcançaremos um índice menor de mortalidade entre os novos empreendimentos. Essa profissionalização e a consequente longevidade dos negócios influenciam não só o setor econômico, mas também pode desencadear uma série de benefícios, como a geração de emprego e renda e a melhoria na qualidade de vida da popu­lação.

 

[PE] - Apesar disso, San­ta Catarina apresentou a maior taxa de sobrevivên­cia (82,1%). O que difere SC do restante do Brasil?

 

JN - Simplesmente educação e questões culturais. Santa Cata­rina tem uma cultura empreen­dedora e é um dos estados que possui a maior quantidade de empresas. Além disso, a edu­cação se difere de todo o resto do país, conforme pesquisas já apresentadas.

 

[PE] - Qual o papel do ad­ministrador para evitar a mortalidade prematura das empresas?

 

JN - Muitos empreendimentos, principalmente os de menor porte, nascem das competências técnicas dos sócios. Acumulan­do funções no início da empre­sa, eles assumem também as tarefas de gestão, mesmo sem os conhecimentos e habilidades fundamentais para essa ativi­dade estratégica e isso pode ser decisivo para a sobrevivência do empreendimento.

 

Diante desse cenário, o papel do administra­dor e do conhecimento obtido nos cursos de Administração, como planejamento, finanças, mercado, orçamentos e outros assuntos afins, é fundamental. Os administradores são melhor qualificados para exercer uma administração eficiente junto a empreendimentos de todos os portes, em diferentes áreas es­tratégicas.

 

Por Camila Latrova | Editado por Andréa Leonora

Florianópolis, 17 de setembro 2012

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