[Pelo Estado] Entrevista Pres. do Cons. Nac. de Mulheres Empresárias, Neiva Kieling

02.10.2017

Empoderamento da Mulher Empresária: catarinense recebe prêmio internacional

"No início desse processo de mudança era impensável uma mulher presidir uma associação empresarial, diferentemente de hoje."

“Não é uma questão de disputa por espaço. Mas a mulher vê o poder de uma forma diferente do homem. Não é o poder pelo poder, mas o poder de interferir em decisões que alterem positivamente a vida das pessoas.” A breve definição é da advogada e empresária catarinense Neiva Kieling, que há um ano preside o Conselho Nacional da Mulher Empresária na Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), apoiada pela Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc), onde também presidiu a instância por duas gestões. Ela concedeu essa entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado poucas horas depois de ter chegado da Austrália, onde foi receber o prêmio World Chambers Competition (Concurso Mundial das Associações Empresariais), na categoria Melhor Projeto Corporativo de Responsabilidade Social. O case Empoderamento da Mulher Empresária concorreu com outros cinco e saiu vencedor. O caminho foi longo até chegar a esse reconhecimento e vem sendo construído há pelo menos 20 anos. Parte dele Neiva conta aqui.

 

[PeloEstado] - A senhora esteve na Austrália para receber um prêmio internacional. Que prêmio é esse e qual a sua importância?
Neiva Kieling -
Estivemos no Congresso Mundial das Câmaras de Comércio (World Chambers Congress – WCC, em Inglês), com a delegação liderada pela CACB (Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil). Nós concorremos no World Chambers Competition (Concurso Mundial das Associações Empresariais) na categoria Melhor Projeto Corporativo de Responsabilidade Social. Nosso projeto, Empoderamento da Mulher Empresária, concorreu com cinco cases finalistas e foi escolhido para receber o prêmio de três mil euros, além do troféu. Uma honra e um reconhecimento ao trabalho desenvolvido no Brasil, dentro da metodologia do Empreender, trazida pela Facisc da Alemanha para ser adaptada à realidade brasileira. E é essa a metodologia que o Conselho Estadual da Mulher Empresária (CEME) aplica nos núcleos de mulheres empresárias que, destaco, são multissetoriais.  

[PE] - Que outras repercussões esse trabalho trouxe?
Neiva Kieling -
O viés do CEME é o empreendedorismo feminino, com consequente empoderamento da mulher. Dentro dessa visão, a Facisc, pelo conjunto de ações, foi contemplada no Al-Invest 5.0, um programa de parceria da União Europeia com a América Latina para a redução da pobreza na região, com destinação de 30% dos recursos para projetos voltados às mulheres. A erradicação da pobreza não se dá por ações paternalistas, mas com o fortalecimento das micro e pequenas empresas. O Al-Invest prevê o desenvolvimento da América Latina por meio da conexão entre as empresas, ou seja, um crescimento integrado para a coesão social. Por sua vez, a Confederação das Federações de Associações Empresariais do Brasil (CACB) faz parte do consórcio executor do AL-Invest 5.0, que é formado por 11 organizações internacionais.

[PE] - Um caminho longo.
Neiva Kieling -
Sim! Mais de 20 anos. Fui a primeira mulher a participar da diretoria da Associação Empresarial de Florianópolis (ACIF), em 1997, mesmo ano de lançamento do Projeto Empreender, pela Facisc. E criei o núcleo da mulher empresária da ACIF. Solicitaram que eu desenvolvesse um trabalho com as mulheres empresárias através dessa metodologia. Foram duas gestões de muito trabalho e depois disso fui convidada para presidir o CEME, da Facisc, onde eu tinha que coordenar todas as ações dos núcleos femininos. Começamos a quebrar paradigmas. Até então, a direção da entidade não entendia e tampouco reconhecia a relevância das mulheres empresárias. Era uma visão deturpada do que significava esse encontro de mulheres, muitas vezes relegadas meramente a realizar funções sociais. Aos poucos, com um trabalho forte de convencimento até das próprias empresárias, mostramos que o trabalho que estávamos desenvolvendo tinha diretrizes bem específicas, que são quatro: Representatividade, Empoderamento da Mulher Empresária, Fortalecimento do Associativismo Feminino e Aumento da Competitividade Empresarial. Hoje o reconhecimento está consolidado, tanto que conseguimos resgatar o Dia Estadual da Mulher, com um encontro na Assembleia Legislativa, e conquistamos a criação do Dia Nacional da Mulher Empresária, em 17 de agosto.

[PE] - É no que se baseia o projeto premiado?
Neiva Kieling -
Exatamente. Transformamos em um case as ações desenvolvidas com as mulheres nas entidades ligadas à CACB. Uma experiência vivida dia a dia, com resultados expressivos. De 1997 a 2017 o avanço foi notável. Começamos com 12 núcleos de mulheres empresárias e o crescimento foi rápido. Em 2014 éramos 720 mulheres em 46 núcleos. No ano seguinte, 892 empresárias em 51 núcleos. Hoje são 53 núcleos com cerca de mil mulheres. Para se ter uma ideia, no Brasil todo são 241 municípios com núcleos femininos e 4.260 mulheres participando. É inegável a predominância de Santa Catarina nesse conjunto. E queremos mais! Das 146 associações do estado, pouco mais de um terço têm núcleo de mulheres empresárias. Nosso estado é referência nacional nesse segmento, mas ainda temos um longo caminho a percorrer para garantir nossa participação. Por outro lado, também temos muito a comemorar.

[PE] - Por exemplo?
Neiva Kieling -
No início desse processo de mudança era impensável uma mulher presidir uma associação empresarial, diferentemente de hoje. Na última década, o número de associações presididas por mulheres no país cresceu 61% e o de mulheres em diretoria subiu 51%. Englobando todos os cargos de direção ocupados por empresárias, passamos de 4,5% para 12% nesse período, ou seja, praticamente triplicou a nossa participação. Concomitantemente, a criação de núcleos de mulheres aumentou 259%. A Facisc e a CACB, hoje, reconhecem a importância da inserção da mulher empresária, cada vez mais preparada para fazer a gestão da sua empresa, impactando toda a economia. Afinal, 43% das micro e pequenas empresas brasileiras são lideradas por mulheres, quadro que se repete em Santa Catarina. A dimensão desse percentual fica mais clara se lembrarmos que 98% das empresas do país são desses segmentos. É preciso fomentar as empresárias, dar ferramentas a elas para que suas empresas se consolidem, cresçam, gerem empregos. Além disso, a visibilidade que as mulheres empresárias vêm conquistando as projetou para outros espaços institucionais. São mais reconhecidas em suas comunidades, ao ponto de já termos prefeitas, vice-prefeitas e vereadoras provenientes desse movimento. Isso não se consegue de uma hora para outra. É resultado de muitas horas de capacitação, qualificação, planejamento, valorização da autoestima, organização, em resumo, formação de lideranças a partir da atuação nos núcleos. As mulheres empresárias aprenderam a lidar com os códigos de um universo ainda tão masculino.

[PE] - Quais as próximas metas?
Neiva Kieling -
Assumi a presidência do Conselho Nacional no ano passado e vou até o ano que vem no cargo. São três anos, podendo haver recondução. A minha grande meta é conhecer as realidades regionais do ponto de vista do nosso segmento. O que nos leva à identificação de demandas comuns a todas para que os CEMEs atuem na mesma linha. E queremos que essas mulheres se conectem, se encontrem, que possam fazer negócios entre elas. Há um potencial inexplorado aí.

[PE] - Essas são as metas para o país. E para Santa Catarina?
Neiva Kieling -
Continuo atuando na Facisc, onde sou a vice-presidente de Educação Empreendedora, projeto criado em 2015. O conceito é que os participantes dos conselhos estaduais da Mulher Empresária e do Jovem Empresário sejam capacitados em uma metodologia que desenvolvemos. Eles podem, então, dar aulas de 12 horas sobre empreendedorismo para jovens estudantes, de 12 a 18 anos, selecionados pelas próprias escolas. Ali esses adolescentes são motivados a pensar de um jeito diferente e recebem um treinamento. Na sequência, outros empresários recebem esses estudantes para um dia dentro da empresa. É um projeto que tem tido muito sucesso. Só em 2017, são 21 municípios e cerca de 600 estudantes envolvidos. Números muito maiores que os dois primeiros anos do programa. Em 2015 foram apenas sete cidades e 144 estudantes, passando para 14 cidades e 292 estudantes em 2016. Esse trabalho foi criado em Santa Catarina e o sucesso chamou tamanha atenção que outros estados já pedem. Mas ainda precisamos aprimorar essa metodologia antes de repassar, até para lidar com todo o aumento da participação.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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