[Pelo Estado] Entrevista Presidente da ABPA, Francisco Turra

03.07.2017

“Temos que recuperar a imagem da carne brasileira”

Presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), criada em 2014 com a união das entidades representativas da avicultura (Ubabef) e da suinocultra (Abipecs), Turra foi presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Ministro da Agricultura e deputado federal (PP-RS). A ABPA reúne 148 associados, responsáveis por mais de 95% da produção nacional de aves e suínos. Juntos, garantem 4,1 milhões de empregos diretos e indiretos. Com 12,9 milhões de toneladas, o Brasil responde por 15% da produção mundial de aves e as 4,38 milhões de toneladas exportadas representam 37% das exportações mundiais do produto. No caso dos suínos, a produção de 3,7 milhões de toneladas significa 2% da produção mundial e as 730 mil toneladas exportadas são 11% do comércio internacional desse tipo de carne. Em entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado, o presidente da ABPA falou sobre o momento do setor, que sofreu perdas com a Operação Carne Fraca, da Polícia Federal. Apesar disso, ele acredita que produção e vendas terão crescimento ao final de 2017. E anuncia a negociação para abertura do mercado mexicano, que pode trazer um longo período de estabilidade para a suinocultura, especialmente a catarinense, livre de febre aftosa sem vacinação.

 

 

 

[PeloEstado] - Como está o setor de proteína animal no Brasil, hoje, com crises política e econômica, além da Operação Carne Fraca?

Francisco Turra - Nós estamos já há algum tempo vivendo momen­tos diferenciados. No ano pas­sado, o setor vinha de uma crise profunda em decorrência da ins­tabilidade econômica mundial, re­cessão no Brasil e, principalmen­te, elevação do custo dos insumos, como milho e farelo de soja. A es­cassez obrigou o Brasil a importar mais de 3 milhões de toneladas do Paraguai, da Argentina e a abrir o mercado norte-americano. Foi um ano extremamente difícil, muitas empresas surpreenderam com ba­lanços negativos. E 2017 começou absolutamente diferenciado. Pa­recia que o horizonte era outro.

[PE] - O que levava ao otimismo?

Turra - Primeira safra de grãos abundante, promessa de segunda safra também abundante, como de fato ocorreu, preços dos insu­mos caindo, mercados deman­dando muito. Sessenta países notificaram a OIE (Organização Mundial da Saúde Animal) por terem registros de gripe aviária. Há problemas também de peste suína clássica em algumas regiões do planeta. Tudo isso colocava o Brasil como a bola da vez. Nós vínhamos crescendo, até o mês de abril, em uma média de 13% na avicultura e mais de 40% na suinocultura em volumes de ex­portação. Um cenário favorecido por bons preços e melhor relação cambial. Ainda que a ABPA não englobe a carne bovina, uma vez que reunimos produtores de aves, ovos e suínos, posso afirmar que também este segmento vinha com bons resultados, inclusive abrindo caminho para os Estados Unidos, o que alavancou as exportações desse tipo de carne.

[PE] - Por que esse crescimento?

Turra - Por conta do nosso status sanitário impecável para o mun­do e também porque o mundo começou a descobrir nosso bom momento. Recebemos mais de mil missões internacionais que visitaram empresas, frigoríficos e granjas. Todos retornaram a seus países impressionados com a per­formance do Brasil nos últimos anos, com forte profissionaliza­ção. Não ficamos devendo nada a nenhum outro país e não foram raras as manifestações de que é muito melhor a biosseguridade praticada no Brasil do que nos Estados Unidos. Passamos a ter um produto diferenciado, sanida­de reconhecida e presença forte no mercado mundial.

[PE] - Até que...

Turra - Até que eclodiu a Opera­ção Carne Fraca. Por ironia, nós estávamos no Uruguai, reunidos com países latino-americanos, eu e o diretor de Produção da ABPA, Ariel Mendes, e o Brasil dando aula de como conter a gripe avi­ária. Nós lá, ministrando um ver­dadeiro curso sobre o exemplo brasileiro, quando recebo um tele­fonema, vejo o conteúdo da ope­ração e tenho a certeza de que ia dar o que deu: interpretações das mais variadas, sensacionalismo absoluto. Adverti o Ministério da Agricultura do desastre que viria, porque estava claro que iam pro­pagar que estávamos praticando irregularidades. O problema não foi a operação, mas a generaliza­ção. Seria muito bom que aconte­cessem mais operações, para ficar em cima mesmo! Se o Brasil é glo­bal, não pode se dar a liberdade de ser relaxado.

[PE] - Qual foi o primeiro impacto no mercado?

Turra - Ao longo da primeira se­mana depois da divulgação da operação, 74 países suspenderam as importações. Alguns nós re­cuperamos em seguida, median­te explicações, informações das embaixadas, documentos que a ABPA apresentou, até com uma declaração da Polícia Federal re­conhecendo que houve excesso. Encaminhamos esses documentos mundo afora. Fomos correr atrás do prejuízo.

[PE] - Qual foi a queda nas expor­tações no primeiro momento?

Turra - Sentimos já no mês de abril uma queda de 15% sobre abril de 2016. Em maio ainda houve queda, mas em um índice menor. O trabalho que fizemos para defender e proteger a ima­gem da carne brasileira foi tão eficaz que hoje apenas seis mer­cados, bem pequenos, como Con­go e Benin, continuam cobrando informações e demoram a retomar as compras. Vale dizer que não é tanto pela certeza de que o Bra­sil cometeu irregularidades, e sim pela oportunidade do momento de praticar protecionismo. Essa restrição é porque o Brasil é muito competitivo no mercado mundial de carnes. Nossa carne tem bom conceito e sabor diferenciado.

[PE] - Voltamos para a primeira pergunta: como está o setor hoje?

Turra - Agora já estamos em re­cuperação. Junho, apesar de ain­da não termos o resultado final, posso afirmar que foi um bom mês, porque acompanhamos as vendas dia a dia. Ainda tivemos um problema com o Porto de Itajaí, o de maior volume de ex­portação de suínos e aves, por conta do excesso de chuvas. Não fosse isso, teríamos voltado aos patamares do início do ano. Se o cenário atual se mantiver e não tivermos nenhuma surpresa ne­gativa, vamos chegar ao final do ano com crescimento em volume e em receita. De uma maneira ge­ral, não houve tanto investimen­to em ampliação, mas houve em inovação e melhoria de processos, de qualidade. Tudo foi sendo apri­morado, até pela necessidade, pois seremos muito mais fiscalizados.

[PE] - Já sentem isso?

Turra - Sim. Países da União Eu­ropeia fiscalizam 100% dos con­têineres que saem daqui. Antes eles davam um voto de confiança, fiscalizavam por amostragem ou se baseavam no resultado das mis­sões às nossas instalações. Agora isso tudo mudou. O rigor é abso­luto. E temos que entender que a desconfiança só se desfará se agirmos com seriedade e muita transparência. Por isso nós até es­timulamos. Fiscalizem! Naquele momento mais difícil, o México estava com 300 contêineres com aves em seus portos e não queria receber. Nossa sugestão foi que analisassem um a um. Eles assim o fizeram e não encontraram um problema sequer. Aliás, estamos fazendo um grande esforço para abrir o mercado mexicano para a nossa carne suína.

[PE] - Um mercado importante?

Turra - Todo mercado é. Se abrir­mos Coreia do Sul, em que Santa Catarina é um estado privilegiado por ser livre de febre aftosa sem vacinação, é um reforço nesse pro­cesso com o Méxcio, porque tam­bém não aceita carne suína de es­tados que vacinam seus rebanhos. Santa Catarina é o único estado que pode atender esses mercados, mas será bom para o Brasil como um todo, porque vai desafogar a oferta interna. Se acontecer a abertura do México, a suinocul­tura terá estabilidade por vários anos, vai viver um momento mui­to positivo. Hoje já está melhor que anos atrás, quando vivia um terço do ano bem e o restante, quebrando, justamente pela falta de espaço para venda. A ABPA procura exatamente isso: criar condições para que a carne suí­na brasileira, que é maravilhosa, tenha espaço lá fora, ajustando os preços e garantindo boa renda para os produtores.

[PE] - É possível abrir o mercado do México ainda em 2017?

Turra - A abertura de um novo mercado demora muitos anos. A ideia que as pessoas fazem é de que é uma coisa fácil, mas não é. Temos 160 mercados abertos e ati­vos para suínos. Para aves, acor­dos com 85, dos quais não mais que 20 são clientes efetivos. Sobre o México, o mercado ia abrir jus­tamente no período em que eclo­diu a Carne Fraca. Já tinha data para o acordo e tudo pronto. Mas tivemos que apresentar novos do­cumentos, ainda sob análise. O processo de negociação, que estava concluído, teve que ser retomado.

[PE] - A imagem da carne brasi­leira ficou prejudicada.

Turra - Infelizmente. Só para você ter uma ideia, um jornal de Brasí­lia colocou como manchete “Bra­sil vende carne podre”. Mas não havia um único laudo detectando uma irregularidade. Foi uma ir­responsabilidade. Eu vi essa mes­ma manchete reproduzida no Wa­shington Post. Agora nós vamos realizar o Salão Internacional de Avicultura e Suinocultura, no dia 29 de agosto, em São Pau­lo, com o tema “Sanidade e Ino­vação”. E o objetivo é recuperar a imagem da carne brasileira. Es­tamos trazendo 50 jornalistas dos principais veículos do mundo para que eles relatem o que vão ver por aqui em granjas e em frigoríficos. Também vamos ter eventos sobre sanidade animal com ministros da Agricultura de toda a América Latina e de vários outros países do mundo. A palestra magna será feita pelo diretor geral da Organi­zação Mundial do Comércio, Ro­berto Azevedo. A avicultura e a suinocultura disseminam riqueza, emprego, renda, mudam a direção de propriedades rurais, por serem muito pequenas, não teriam outra finalidade. Nós temos a concep­ção de que temos que preservar isso como algo sagrado. A crise do alimento é para quem precisa do alimento, mas para quem pode produzir e oferecer esse alimento, é um privilégio. É o caso do Brasil.

 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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