[Pelo Estado] Entrevista Presidente da ACASC, Carlo Lapolli - 23/01/2017

23.01.2017

Cerveja artesanal de SC ganha mercado

Advogado, pós-graduando em Tecnologia Cervejeira, Sommelier de Cervejas certificado pela Doemens/ESCM, professor da Escola Superior de Cerveja e Malte, preside a Associação das Cervejarias Artesanais de Santa Catarina (Acasc) desde março de 2015. A Acasc foi fundada em 2008, sendo a mais antiga associação do gênero. Reúne as cervejarias artesanais e outras empresas da cadeia da cerveja artesanal, como fornecedores, distribuidores e pontos de venda que trabalham com as marcas artesanais de Santa Catarina. Em entrevista exclusiva à reportagem da Coluna Pelo Estado, Lapolli falou sobre o crescimento do setor mesmo em meio à crise, sobre as dificuldades geradas pelas regras e alíquotas tributárias, projetou 2017 e ainda deixou um conselho para quem quer começar a investir no setor: “O primeiro passo é estudar muito. Apesar de ser um mercado apaixonante, é muito complexo. Se o empresário não se preparar para conhecer muito bem esse mercado, pode ter um prejuízo significativo”.

 

[PeloEstado] - Qual foi a melhor notícia de 2016 para o segmento das cervejarias artesanais de Santa Catarina?
Carlo Giovanni Lapolli -
A Acasc participou ativamente do movimento de recriação, digamos assim, da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva). É importante a existência de uma entidade representativa nacional por permitir uma interlocução um pouco mais forte no âmbito federal. A atuação da associação, tanto estadual quanto nacional, permitiu que o setor fosse percebido pelo poder público, seja Legislativo ou Executivo, e abriu um canal de comunicação importante para levarmos nossos pleitos. Foi esse fortalecimento, somado à união de forças de várias entidades, que nos levou à aprovação do Simples para as microcervejarias. Apesar de ser uma aprovação que vai valer para 2018 e que não vai abranger todas as cervejarias artesanais em função do faturamento baixo, é algo a ser comemorado. O Simples vai beneficiar cervejarias que produzem por volta de 10 mil a 20 mil litros. Ou seja, aquelas cervejarias menores, que estão começando e que vão ter o diferencial de ter uma carga tributária um pouco mais baixa. Foi o grande fato positivo do ano passado.

[PE] - Um ano difícil...
Lapolli -
Sim. Passamos por uma crise, mas nosso setor está bastante aquecido e isso se deve a uma mudança nos hábitos de consumo de cervejas. O consumidor está cada vez mais descobrindo a cerveja artesanal e está optando por essa variedade, levado por questões sensoriais, pela personalização da cerveja, estilo, sabor e até pela valorização do que é produzido localmente, prestigiando a pequena empresa e o comércio local. É um fenômeno que observamos também na alimentação, com o ressurgimento de produtos artesanais, envolvendo desde a panificação até queijos e embutidos. Isso nos garantiu um impacto menor da crise, mas não significa que ela não foi sentida, especialmente nas questões de crédito e aumento nos preços cobrados pelos fornecedores.

[PE] - As expectativas para 2017 são positivas?
Lapolli -
Acredito que vamos continuar crescendo, mas ainda em um cenário adverso pela necessidade de recuperação da economia, que não se mostra assim tão garantida. Vai ser um ano ainda de dificuldades, de investimentos menores e crescimento menor. Mas vamos ter crescimento, sim, forçado pela demanda. Não é pouca coisa. Há estimativas de que as cervejarias artesanais respondem por 1% de todo o mercado de cerveja do país, que movimenta algo em torno de R$ 140 bilhões ao ano. Em Santa Catarina não temos os dados do nosso setor e esta é uma das metas para 2017. Já estamos conversando com a Escola Superior de Cerveja e Malte, de Blumenau, para que a gente aprofunde um pouco mais a pesquisa econômica no setor de cervejas artesanais. Fizemos uma pesquisa em 2016 com relação aos investimentos e sabemos que Santa Catarina produz em torno de um milhão de litros de cerveja artesanal por mês. É um dos estados líderes no setor. Nem mesmo o Ministério da Agricultura, responsável por fiscalizar as cervejarias, sabe o número de cervejarias registradas no país hoje. Mas estimamos que sejam cerca de 500 no Brasil e, em Santa Catarina, somos quase 50 cervejarias em atividade, das quais mais de 30 estão na Acasc.

[PE] - Há uma concentração dessas cervejarias na região do Vale do Itajaí. O que explica isso?
Lapolli -
O pioneirismo. A Acasc foi formada pelas cervejarias regionais do Vale do Itajaí. O movimento de cervejarias artesanais surgiu aqui no Vale do Itajaí, muito relacionado com a colonização alemã. Assumi a presidência em março de 2015 com somente oito associados. Desde então conseguimos estadualizar a atuação. Hoje temos associados na região Oeste, na Grande Florianópolis e estamos fazendo um trabalho de convencimento dos empresários sobre a importância do associativismo. Temos polos importantes também no Norte, no Sul e no Meio Oeste catarinense.
 
[PE] - O que a Acasc oferece aos associados?
Lapolli -
Em 2017 nós vamos intensificar a oferta de capacitação. Discutimos muito a necessidade de qualificação também dos fornecedores. Existe um fórum permanente dentro da associação para avaliar esses fornecedores, até porque a qualidade do que eles nos vendem se reflete na qualidade da cerveja que produzimos. Existem aventureiros entrando no mercado e nós fazemos uma depuração, algo muito importante, principalmente para quem está começando e ainda não conhece bem o mercado. Eu atendo muita gente na Acasc que está começando no setor. Mostro todos os caminhos, desde os modelos de negócio que podem ser adotados, os passos legais a serem percorridos, os registros que devem fazer, explico toda a área tributária pertinente.

[PE] - A questão tributária ainda é o maior desafio?
Lapolli -
Continua sendo o maior entrave. Não só pelo índice aplicado, mas porque temos 27 legislações diferentes para a cerveja, uma para cada estado do país. A carga tributária, portanto, vai depender muito do estado em que a cerveja artesanal é produzida e do estado para o qual será vendida. São muitas alíquotas diferentes. Isso cria uma grande dificuldade de comercialização e torna-se o maior entrave para se vender para fora do estado. Vou dar um exemplo prático: estamos mandando uma nota para o Amazonas e praticamente 50% do valor do pedido é imposto interestadual que eu tenho que recolher antecipadamente. Em um pedido de R$ 3 mil, estou tendo que recolher R$ 1,5 mil antecipadamente. Então, nesse caso específico, somando tudo, a carga tributária certamente passa dos 60%. Dentro de Santa Catarina essa carga fica entre 35% e 40%. Mais um detalhe: são 27 legislações para a cerveja e alguns estados ainda tratam o chope de forma diferente. A complexidade é muito grande e simplificar é o nosso grande desafio.

[PE] - É comum sair cerveja artesanal de Santa Catarina para outros estados?
Lapolli -
Algumas de nossas marcas têm presença nacional e há quem já esteja planejando exportar. Mas tem que se preparar. Estamos em conversas com o Sebrae-SC para capacitar os empresários interessados. Tem que haver um comprometimento muito grande, um desenvolvimento de mercado externo consistente. Não se pode abandonar um cliente por causa da variação do câmbio, por exemplo. Mas acredito que em no máximo três anos seremos exportadores.

[PE] - Em outra resposta o senhor citou a Escola de Cerveja e Malte. Do que se trata?
Lapolli -
Blumenau ainda é polo de produção, pela tradição. Há dois anos surgiu a Escola Superior de Cerveja e Malte, que oferece desde cursos de degustação até de mestre cervejeiro, formando mão de obra qualificada. Para 2017, vão oferecer o curso de Engenharia de Produção Cervejeira, com duração de cinco anos. Isso tudo prepara a mão de obra e os empresários para entrarem no mercado. Vem gente do Brasil todo estudar aqui. Outro fato muito positivo para Santa Catarina é que temos aqui as duas primeiras micro malterias. O malte é feito a partir da cevada, geralmente em grandes indústrias de presença global. E agora começou aqui o fenômeno que já acontece nos Estados Unidos, de produção de malte com uma pegada mais local, artesanal. A primeira do Brasil foi a Malteria Blumenau e já temos outra em Campos Novos. Um diferencial para a cerveja artesanal catarinense.

[PE] - É um setor que atrai turistas, a exemplo do que ocorre com o vinho?
Lapolli -
É outro fenômeno que está acontecendo e que vai se consolidar em 2017. São as Rotas Cervejeiras. A Acasc participou da organização do Vale da Cerveja, inserido na rota do Vale Europeu, que é uma das regiões turísticas criadas pela Embratur. O Vale das Cervejas organiza cervejarias, hotéis, restaurantes, o que envolve uma grande qualificação. Também estamos apoiando a criação da Rota Cervejeira Turística da Grande Florianópolis. Uma localidade não compete com outra. O importante é atrair turistas e fidelizar consumidores, criando uma identidade da cerveja catarinense.
 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

Visualizar todos