[Pelo Estado] Entrevista Presidente da ACATE Daniel Leipnitz - 29/08/2016

29.08.2016

Há vagas abertas no setor de Tecnologia em Santa Catarina

"Temos um associativismo forte, mas que precisa ser ampliado com a integração cada vez maior das regiões do estado."

Graduado em Administração (Udesc-Esag/1997), MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa e mestrado em Administração de Empresas (Udesc), é diretor Corporativo e de Relações Humanas da Visto Sistemas, empresa com atuação nacional. Há três meses assumiu a presidência da Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate), entidade na qual já foi diretor Financeiro (2014 a 2016). Atua também como diretor financeiro do I3 (Instituto Internacional de Inovação). É membro eleito e secretário do Conselho de Administração da Cooperativa de Crédito do Sistema Federação das Indústrias (CrediFiesc). Nesta entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado, Daniel Leipnitz fala sobre os objetivos da Acate, que está completando 30 anos em 2016 e congrega quase um terço do total de empresas de tecnologia instaladas em Santa Catarina. E chama a atenção para a necessidade de formação de mais mão de obra voltada para o setor. “Existem vagas abertas que não são preenchidas em função da falta de qualificação. Apesar de todo esforço, ainda falta mão de obra capacitada para o setor.”  

 

[PeloEstado] - Quantas empresas a Acate representa e quais os objetivos da entidade?
Daniel Leipnitz -
Hoje reunimos mais de 900 empresas, de micro a grande, em um universo de 2,9 mil empresas. Acredito que 90% têm característica de pequeno porte, empregando até 50 pessoas. O nosso objetivo como entidade representativa é justamente estruturar cada vez mais esse ecossistema para que empreendedores e empresas possam se desenvolver cada vez mais. Isso envolve trabalhar no sentido de minimizar o impacto da burocracia, fomentar o setor trazendo mais fundos de investimentos para conhecer nossas empresas, auxiliar essas empresas por meio de mentores e programas específicos de incubação e aceleração no que tange à capacitação, incentivar a atuação no mercado externo – as empresas têm que nascer pensando no mundo, não mais na sua cidade, estado ou país. Resumindo, queremos estimular cada vez mais a competitividade das empresas já consolidadas e das que estão sendo criadas.

[PE] - Como está o comportamento do setor?
Leipnitz -
O faturamento de 2015 chegou a R$ 11,4 bilhões, entre 10% e 12% mais que em 2014. O nosso segmento também foi afetado pela crise, principalmente as empresas que trabalham com soluções para o setor público. Por isso temos que ter cautela ao projetar crescimento. Mas é possível afirmar que na última década crescemos em média 20% ao ano, consistentemente.

[PE] - Portanto, cresce mesmo na crise econômica.
Leipnitz -
Continuamos crescendo mesmo na crise justamente porque somos solução para uma série de empresas que estão no mercado e precisam sobreviver à crise. Temos que oferecer soluções mais em conta, resolver problemas, inovar sempre para que o cliente possa se reinventar sempre e com isso superar o momento difícil. Tudo isso passa pela tecnologia.

[PE] - Há um diferencial entre o setor de tecnologia de Santa Catarina em comparação com os demais estados?
Leipnitz -
Sim. Temos diferenciais em relação ao país. Basta ver os nossos números. Proporcionalmente, temos um setor muito mais representativo do que nos demais estados. Hoje, aqui em Santa Catarina, o setor de tecnologia já responde por 5% do PIB (Produto Interno Bruto). Se fizermos uma análise comparativa, o agronegócio, indústria centenária e tradicional do estado, representa 7% do PIB. E a tecnologia é uma indústria nova, de apenas 30 anos! Nossa participação é bem significativa. É óbvio que existem mercados maiores, como São Paulo. Porém, proporcionalmente, a representatividade da tecnologia lá é menor do que aqui.

[PE] - O que a Acate faz para que as empresas de TI de Santa Catarina abram-se para o mundo?
Leipnitz -
Já temos diversas gerações de empresas. Hoje, as empresas que estão nascendo já vêm com essa mentalidade, de vender para o mundo. A grande maioria atua também no mercado interno, mas a maior parte do faturamento vem de negócios externos. Posso citar como exemplo a minha empresa, a Visto, que acabou de passar por uma fusão entre a Callisto (SC) e da paulista VM System (SP) para se tornar a maior empresa brasileira de softwares de gestão para cadeia da Saúde. Mesmo antes, mais de 90% do nosso faturamento vinha de fora de Santa Catarina. Nossas empresas são exportadoras de inteligência.

[PE] - Já que estamos falando de inteligência, a remuneração é um atrativo para o setor?
Leipnitz -
O setor de tecnologia engloba profissões com padrão de educação mais elevado e por isso tendem a ser mais bem remuneradas. As empresas, por sua vez, costumam oferecer benefícios melhores, até em função da concorrência que há por mão de obra qualificada.

[PE] - Qual o maior mercado hoje para as empresas de tecnologia de Santa Catarina?
Leipnitz -
Não há uma regra, mas as empresas geralmente começam a ter uma expansão a partir da América do Sul. Muitas começam pela Argentina, Chile, Colômbia e daí expandem seu mercado para América do Norte e Europa. Mas também temos empresa que foi direto para os Estados Unidos, ou que se instalou na Suíça. Como eu disse, não há uma regra.

[PE] - A mão de obra ocupada no setor é essencialmente jovem?
Leipnitz -
Preponderantemente jovem. Arrisco afirmar que 90% dos trabalhadores do setor estão abaixo de 40 anos e 75%, abaixo de 30 anos. Mas nesse assunto tivemos uma grande surpresa. Participamos, junto com o governo do Estado, através da Secretaria de Desenvolvimento Econômico Sustentável, da Fapesc (Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação) e do I3 (Instituto Internacional de Inovação), de um programa fantástico de formação de mão de obra, o Geração TEC. Antes de ele começar, foi feito um mapeamento junto às empresas para a identificação de demandas: que tipo de profissional era necessário, que competências devia ter e em que momento esse profissional seria necessário. Assim, definimos os cursos conforme o tipo de profissional que deveria ser formado para atender vocações e demandas regionais. O que nos surpreendeu muito nesse programa é que ele foi, sim, elaborado para despertar o interesse de jovens, só que vieram muitas outras pessoas de outros setores, já fora da faixa etária de juventude, mas que decidiram aproveitar a oportunidade como ponto de virada em suas vidas. Temos cases interessantíssimos, como o de um mecânico de automóveis que hoje é programador e de um protético que virou analista de sistemas. Não tínhamos cidadãos de meia idade como público-alvo, mas eles vieram e foi muito positivo. É um programa que, como cidadão, me enche de orgulho, porque exigiu baixo investimento e trouxe um benefício enorme para a população. Por exemplo, a empregabilidade: 68% das pessoas que saíram desses cursos estão empregadas no setor, um índice altíssimo.

[PE] - Santa Catarina ainda atrai mão de obra de outros estados e de outros países?
Leipnitz -
Bastante. As empresas de tecnologia são grandes promotoras das cidades onde se encontram. Na parte de carreira, dentro dos sites dessas empresas, elas colocam “venham trabalhar aqui”, citando os benefícios não só da empresa, mas da cidade e da região.

[PE] - Existem vagas abertas no estado?
Leipnitz -
Existem vagas, sim. E não são preenchidas em função da qualificação. Apesar de todo esforço, ainda falta mão de obra capacitada para o setor. Por isso estamos nos esforçando para renovar o programa Geração TEC, que é um sucesso. Também estamos conversando com as universidades para formar mais diretores financeiros, gerentes de projetos, programadores, gestores de pessoas. Outra ação é atrair profissionais de outros lugares, ainda que nossa prioridade seja formar o povo catarinense, trabalhador, inteligente, capaz, persistente e que abraçou o setor. Porém, é interessante ter esse mix, porque engrandece o setor como um todo. O Vale do Silício, caso mais emblemático, conseguiu crescer e se desenvolver por importação de pessoas. Somou pessoas diferentes de culturas diferentes e diferentes visões de mundo.

[PE] - Houve demissão em função da crise?
Leipnitz -
Se medirmos o setor como um todo, pode-se dizer que houve um menor crescimento no número de contratações. Ocorreram demissões em casos pontuais, mas se pegarmos a curva de empregos do setor, continua crescendo. Ou seja, ocorreram mais contratações do que demissões. Em 2015, tivemos 3,6% de aumento do número de contratações, em média, no estado. Esse índice vai à contramão do panorama econômico geral, uma vez que Santa Catarina perdeu 2,88% de seus postos de trabalho no mesmo período.

[PE] - Quais seus planos para a Acate?
Leipnitz -
Fui preparado durante 12 anos para assumir a Acate, assim como já tem gente sendo preparada para as próximas gestões. Temos um associativismo forte, mas que precisa ser ampliado com a integração cada vez maior das regiões do estado, por meio da coassociação com entidades representativas. Vamos criar uma marca única para a indústria catarinense de tecnologia, que seja forte, que chegue a qualquer lugar do Brasil e do mundo reconhecida como um selo de qualidade. Parte do planejamento prevê também a abertura, até 2018, de um escritório em São Paulo. Será o espaço do empreendedor catarinense em tecnologia.

 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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