[Pelo Estado] Entrevista Presidente da ACAV José Antônio Ribas Jr - 24/10/2016

24.10.2016

“Fazendo juntos, faremos mais e melhor”

Considerado um dos maiores especialistas na área, atua há 22 anos na produção de aves e suínos: foram 20 anos na Sadia e, agora, dois anos na JBS, onde é diretor de Agropecuária das áreas de Aves e Suínos. Engenheiro agrônomo de formação, concluiu pós-graduação em Gestão Empresarial pela USP/Unicamp. Preside a Associação Catarinense de Avicultura (ACAV) e a Câmara Nacional de Integração das duas principais entidades nacionais do agronegócio - Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Atualmente, Santa Catarina abate, em média, 1,3 bilhão de aves por ano. O estado conta mais de 17 mil suinocultores e avicultores, produzindo em um setor que emprega, diretamente, 105 mil pessoas e, indiretamente, mais de 220 mil trabalhadores. No país, o setor se desenvolveu copiando o modelo de parceria produtor/indústria implantado em Santa Catarina a partir do início dos anos 1970. Nessa entrevista exclusiva para a Coluna Pelo Estado, Ribas Jr fala sobre a importância de ações para manter a sanidade animal em Santa Catarina. “Pela relevância da produção de aves e suínos na economia do Estado, o tema sanidade deve ser agenda prioritária do governo e de todos que aqui vivem.”

[PeloEstado] - Qual o comportamento do mercado, nacional e mundial, frente à crescente concorrência de outros países?
José Antonio Ribas Jr -
Estamos passando por uma transição nos mercados. O crescimento da competitividade é fato conhecido. Entretanto, vários aspectos estão sendo incorporados à matriz de produção e de consumo no mundo. Fora a crise, que afeta muitos países, temos um crescimento na exigência dos consumidores. Destaca-se a relevância crescente na customização do consumo. Neste contexto, muitas oportunidades se abrem e os aspectos qualitativos ganham evidência. Obviamente que o foco em custo nunca perderá relevância, mas a qualidade e a diferenciação começam a ocupar espaço. Hoje falamos em bem-estar animal, uso racional de antibióticos, produtos classificados como orgânicos e saudabilidade como atributos necessários para participar dos mercados. Estar à frente nestas questões nos permitirá a conquista de mais e melhores mercados.

[PE] - Nesse contexto de competição, qual é a estratégia de SC?
Ribas Jr -
Santa Catarina tem competências que podem atender aos mercados mais exigentes do mundo. Muitas vezes citamos, como exemplo, os aspectos sanitários, pois o estado é livre das doenças mais críticas que afetam os rebanhos em outros países e que também são relevantes na produção de aves e suínos. Este patrimônio indiscutível somado à aptidão na produção de aves e suínos, que o estado é pioneiro, constituem em vantagens comparativas relevantes. Quando olhamos mais estrategicamente, precisamos construir vantagens competitivas que possam contribuir para a manutenção e perenização da nossa competitividade. Precisamos tratar de temas específicos do estado,  como a cadeia de grãos e a logística. Mas existem temas nacionais que afetam localmente, como  legislação trabalhista e carga tributária. Perdemos muito em competitividade frente ao peso que as empresas carregam nestes temas. Queremos desenvolver ambientes cada vez melhores de produção e trabalho, mas precisamos trabalhar somando esforços e não punindo quem tenta construir um país melhor. Precisamos de governos e instituições que ajudem a resolver. Afinal, somos auditados e respeitados pelos mais criteriosos e exigentes mercados do mundo.

[PE] - A sanidade é nosso grande diferencial competitivo? Somos, realmente, o melhor lugar do mundo para se criar aves e suínos?
Ribas Jr -
Sem dúvida. Comparativamente a qualquer outro lugar onde há produção comercial relevante de aves e suínos, somos diferenciados. Estamos livres das principais doenças. Este patrimônio deve ser resguardado por todos. De governos a produtores, todos devem ter clareza do seu papel e de sua responsabilidade. As empresas têm investido muito neste sentido, pois isso os mercados se abrem primeiramente para Santa Catarina e isso, por consequência, fortalece toda economia local. O Icasa (Instituto Catarinense de Sanidade Agropecuária) é uma iniciativa exemplar neste sentido, numa parceria com o Estado. Em muitas outras frentes trabalhamos com os órgãos públicos para proteger nossas produções. Pela relevância da produção de aves e suínos na economia do Estado, o tema sanidade deve ser agenda prioritária do governo e de todos que aqui vivem.

[PE] - Quais as principais dificuldades nas cadeias de aves e suínos?
Ribas Jr -
Falando especificamente de Santa Catarina, precisamos tratar da cadeia de abastecimento de grãos. Soja e milho representam algo em torno 65% a 70% do custo do animal vivo. Essa é a grandeza do problema. O estado é importador de grãos, o que impõe que busquemos competências em logística e armazenagem. Uma malha ferroviária eficiente traria ganhos absolutamente sustentáveis para o estado. Estamos atrasados 20 anos neste sentido. A cada ano perdemos competitividade comparativamente ao Paraná e ao Centro Oeste.

[PE] - A escassez de milho em SC continuará sendo uma eterna ameaça ao setor agroindustrial?
Ribas Jr -
Com planejamento e investimento, não. Existem boas iniciativas acontecendo. Exemplo disso é a mobilização entre governo, setor de grãos e agroindústrias para planejar o futuro e acertar contratos onde todos tenham atendidas suas demandas. É uma frente pequena mas que certamente ajudará. Noutro aspecto, há investimentos que precisam acontecer. Desde o incentivo à produção e produtividade local, estruturas de armazenagem e, fundamentalmente, logística. O transporte de grãos gera custos adicionais que inviabilizaram e inviabilizam empresas locais. Empresas que poderiam estar empregando, gerando riquezas e contribuindo para o desenvolvimento. Este cenário tem que mudar. O governo precisa ser protagonista e liderar esforços para que as soluções saiam do papel.
 
[PE] - Há um claro esforço das entidades do agronegócio na capacitação dos produtores rurais, como, por exemplo, o recém-lançado curso de fluxo de caixa. Fale sobre isso.
Ribas Jr -
Capacitar as pessoas é o caminho mais seguro na busca de resultados superiores. Neste sentido, estamos ampliando nossa Parceria com a Faesc (Federação da Agricultura e Pecuária) e Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) para implantar um programa inédito no estado. Sempre há oportunidade de melhorias e este programa quer melhorar a gestão dos nossos produtores. Os investimentos se aproximam dos R$ 3 milhões. Mobilizamos especialistas para construir todo o material. Treinaremos mais de 17mil produtores. E tudo isso sem custo ao produtor. Parceria como esta, entre as empresas e os representantes dos produtores aqui do Estado, têm nos permitido grandes conquistas. Exemplo desta aqui citada, de Fluxo de Caixa, e também da Lei de Integração. Juntos fomos protagonistas de sua criação e juntos estamos em sua implementação.

[PE] - Além do solo, a água é um recurso natural vital para a pecuária intensiva. Como está o programa de gestão da água?
Ribas Jr -
Este é outro programa que nos orgulha. Um trabalho feito a muitas mãos - Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), UFSC (Universidade Federal), ACCS (Associação Catarinense de Criadores de Suínos), Sindicarne (Sindicato das Indústrias da Carne e Derivados), ACAV e também com a parceria com Senar e Faesc - está trazendo luz a este tema. O uso racional da água é uma preocupação mundial e a qualidade da água é fator crítico na produção. Precisamos fazer a gestão de todo o ciclo da água para garantir a sustentabilidade dos sistemas de produção. Estamos disponibilizando uma cartilha e vídeos que orientam e ensinam as boas práticas de produção que permitem o uso racional da água. É o começo. Mais trabalhos virão.

[PE] - O senhor pretende ampliar parcerias entre ACAV e Faesc, Sindicarne, Icasa, Senar, Acav?
Ribas Jr -
Este é um modelo vencedor. Vamos continuar e ampliar. Temos lideranças no Estado que estão a frente destas entidades e que estão comprometidas em fazer cada vez mais e melhor.

[PE] - A avicultura catarinense terá algum crescimento neste ano?
Ribas Jr -
O ano de 2016 está sendo muito desafiador. Todo o contexto do país trouxe repercussões duras para o setor. As produções serão menores do que 2015. Está sendo um ano de buscar soluções simples, baratas e efetivas para manter as produções e mitigar prejuízos. Mantemos-nos atentos à qualidade, pois sabemos que as crises passam. Acreditamos muito na força do nosso setor em superar este momento e continuar a jornada vencedora.

[PE] - Além da sanidade, que outros diferenciais SC tem, frente a outras regiões produtoras do Brasil e do mundo?
Ribas Jr -
O pioneirismo de Santa Catarina, sustentado por gente trabalhadora e empreendedora, é algo que faz ocuparmos destaque em todas as áreas nas quais atuamos. Nossa gente é um diferencial. Há fatos e dados que mostram isso. Ocupamos a liderança nos principais temas do Brasil. Somos pioneiros nas tecnologias de produção. As empresas que hoje se destacam no mundo, na produção de aves e suínos, começaram aqui.Mas nossos desafios não são pequenos. Temos que fazer nossas competências trabalharem a favor de nossa competitividade.

[PE] - Quais são suas metas no comando da ACAV?
Ribas Jr -
Temos diversos desafios para o setor. Nossas metas passam por manter o status sanitário que conquistamos, ampliar os mercados a serem acessados com nossos produtos, desenvolver e capacitar nossos sistemas de produção, nas competências necessárias e defender os interesses do setor na busca da competitividade. Em todas estas frentes de trabalho, acreditamos na parceria. Continuaremos a trabalhar fortemente em conjunto com governo, entidades de pesquisa, de ensino e entidades representativas. Acredito que, fazendo juntos, faremos mais e melhor.
 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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