[Pelo Estado] Entrevista Presidente da Acavitis, Guilherme Sulsbach Grando - 16/01/2017

16.01.2017

“Existe turismo sem vinho, mas não existe vinho sem turismo”


A constatação é do presidente da Associação Catarinense dos Vinhos Finos de Altitude (Acavitis), Guilherme Sulsbach Grando, que está na função desde abril de 2016. Em entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado, ele falou sobre as peculiaridades de um setor que só faz crescer, mesmo no período de crise, e que a cada ano ganha reconhecimento pela qualidade. É advogado (Universidade Positivo/PR) e formado em Sommelier pelo Centro Europeu de Curitiba. No associativismo, atuou na diretoria da Associação Vinho de Altitude Produtores e Associados. É diretor regional da Associação  Catarinense do Setor Vinícola e representa a entidade na Câmara Setorial do Ministério da Agricultura, em Brasília, que hoje preside. Foi vice-presidente regional da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing (ADVB-SC). É vice-presidente da região Oeste catarinense na ADVB-SC na gestão 2016-2017 e é diretor da Vinícola Villaggio Grando.

 

[PeloEstado] - Como está o setor de vinhos de altitude do estado?
Guilherme Sulsbach Grando -
O setor de vitivinicultura está crescendo muito, especialmente espumantes e vinhos brancos. Ainda que, em geral, as pessoas comprem e consumam mais vinhos tintos, os brancos e espumantes catarinenses têm uma fama muito boa pela qualidade e têm um crescimento acima da média.

[PE] - O que leva a esse desempenho?
Grando -
É um ramo diferenciado e muito bem elaborado, porque não resulta de tradição, simplesmente. Todas as vinícolas catarinenses de altitude foram organizadas a partir de pesquisas e de pessoas de outros ramos que vieram a investir em um local onde a pesquisa dizia ser propício para este cultivo e para esta atividade. São empreendimentos menores, que buscam qualidade e não quantidade de produção. Como a qualidade se destaca, há reflexos positivos também sobre o volume de vendas.

[PE] - Mesmo em 2016, um ano difícil para a economia?
Grando -
É claro que 2016 foi um ano de crise. Mas os vinhos continuaram crescendo, especialmente, repito, os espumantes e brancos. Mas houve uma mudança. É que os grandes varejos e os grandes atacados estão tomando frente e movimentando um volume maior do que o que vinha acontecendo tradicionalmente, com volumes maiores sendo consumidos em restaurantes e hotéis. Ou seja, as pessoas estão deixando de consumir fora de casa e estão consumindo em casa. Não baixaram o nível de qualidade do consumo, mas deixaram de ir a restaurantes para isso.

[PE] - Há quanto tempo começou esse movimento dos vinhos de altitude em Santa Catarina?
Grando -
De 18 para 19 anos atrás, a partir de pesquisas realizadas principalmente nos municípios de Água Doce e de São Joaquim, que foram os dois centros onde mais se pesquisava via Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) e alguns outros institutos. E se descobriu que as uvas viníferas se adaptavam muito bem nesses locais. Depois disso, alguns empresários começaram a investir em plantio e na produção de vinho propriamente dita. Um processo diferente do ocorrido em Bento Gonçalves (RS), onde os imigrantes italianos vieram para o Brasil e continuaram fazendo vinho no local em que se instalavam. Aliás, também no Rio Grande do Sul e no mesmo período de Santa Catarina, está acontecendo a busca por terroir (Conceito da Revista Adega: conceito que remete a um espaço no qual está se desenvolvendo um conhecimento coletivo das interações entre o ambiente físico e biológico e as práticas enológicas aplicadas, proporcionando características distintas aos produtos originários deste espaço) diferenciado. Muita gente saiu da sua terra e começou a migrar para outras regiões. Mesmo em São Paulo e em Minas Gerais começaram a identificar locais propícios para o cultivo da uva vinífera. Tudo isso veio da pesquisa da Epagri, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e do setor privado.

[PE] - Por que o vinho catarinense tem qualidade tão reconhecida?
Grando -
O fator principal é a altitude. Quando se começa a subir, encontra características geográficas e climáticas muito mais propícias. Por exemplo, existem duas faixas de altitude, uma no Hemisfério Norte e outra no Hemisfério Sul, propícias ao vinho. Nessas latitudes se encontram condições climáticas ideias. E Santa Catarina estaria fora dessas faixas. Entretanto, quando você começa a subir e vai acima de mil metros de altitude, começa a ter geografia e clima semelhantes aos das faixas do Norte e do Sul. Com isso, temos noites frias e dias quentes, menos umidade, seca na época da colheita, chuvas concentradas mais no inverno, solo que drena mais rapidamente a água, inverno rigoroso que permite que a planta hiberne e tenha uma primavera com velocidade e qualidade, maturação desde a primavera, quando começa a formar os cachos, passando pelo verão e vai colher em março, ao contrário de outras regiões que colhem em janeiro e fevereiro, que é época de chuva... todas essas são características encontradas em cima da Serra, na altitude. E por isso só podem entrar na Associação dos Vinhos Finos de Altitude de Santa Catarina regiões que produzem uvas viníferas com busca pela qualidade e acima de 900 metros de altitude. Hoje, todos os nossos vinhedos estão entre 1.100 e 1.300 metros de altitude.

[PE] - Em que municípios?
Grando -
Estamos falando de Água Doce, São Joaquim, Bom Retiro, Urupema, Urubici, Campos Novos, ou seja, estamos falando das cidades que apresentam essas altitudes em seus territórios. Caçador e Videira, por exemplo, estão a 40, 50 quilômetros de distância de Água Doce, mas têm altura máxima de 800 metros e Água Doce tem de 1.300. Isso muda tudo! O mesmo ocorre entre Lages e São Joaquim. São próximos, mas de picos de altura muito diferentes.

[PE] - Quantos produtores atuam hoje em Santa Catarina?
Grando -
Temos hoje 31 associados, pessoas que produzem uvas ou uva e vinho. Temos cerca de 20 marcas, mas não 20 vinícolas, porque alguns produzem suas marcas em terceiros. Temos ainda 200 rótulos dessas 20 marcas. Esse conjunto de empresas gera perto de 2 mil empregos, entre diretos e indiretos. Porque o ramo não emprega muito dentro da produção, até por causa da tecnologia. Mas na colheita há uma contratação massiva de mão de obra. São trabalhadores treinados para o período. No campo, é preciso ter pessoas que saibam podar, que saibam colher e acondicionar os cachos. Os profissionais mais importantes desse negócio são o enólogo e o agrônomo, que precisam ser muito bons! São profissionais que vinham de fora do país e também do Rio Grande do Sul, mas que agora são formados aqui no estado e em outros estados brasileiros.
 
[PE] - Tem como dimensionar o setor em movimentação financeira?
Grando -
Fala-se que nos últimos anos há uma crescente. Fechamos 2015 com uma receita gerada de R$ 30 milhões e em 2016 com certeza apresentamos crescimento, ainda não calculado e apesar da crise. Não temos como falar em percentuais de crescimento porque estamos enfrentando inadimplência, algo que não ocorria no nosso setor. Além disso, boa parte das vendas acontece exatamente entre novembro e dezembro. De qualquer forma dá para afirmar é que o mercado de espumantes no Brasil, e em média nacional, cresce 20% ao ano.

[PE] -  O que a Acavitis promove de atividades para seus associados?
Grando -
Temos o simpósio, para o qual trazemos especialistas que dão palestras, viagens técnicas a outros países para acompanhar a evolução do setor e também a participação em feiras. O simpósio e as viagens acontecem a cada dois anos. Já as feiras são mais frequentes. E também temos convênios com Epagri e Embrapa, parceiros nossos em vários estudos. Em 2016 fechamos uma parceria com o IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina) que vai nos auxiliar a encontrar soluções para problemas específicos. Eles têm verba e técnicos bons para pesquisas.

[PE] - Quais os planos para 2017?
Grando -
Vamos realizar a nossa Festa da Vindima dos Vinhos de Altitude de Santa Catarina, no dia 23 de março. Não pela festa em sim, mas pela divulgação que ela proporciona em nível nacional. Vamos fazer o simpósio e a viagem técnica provavelmente no inverno. Estamos hoje buscando também o que deve ficar como legado da nossa presidência, que é o IG, ou a Identificação Geográfica que vai garantir a origem dos nossos vinhos de altitude.

[PE] - Esse setor está intimamente ligado ao turismo. Como lidam com isso?
Grando -
Existe turismo sem vinho. Mas não existe vinho sem turismo. O que quero dizer com isso é que para fazer um setor vinícola realmente lucrativo, com uma marca forte, é preciso ter uma base turística no entorno. Os empresários do vinho entenderam isso e aplicaram recursos próprios, gerados pelo negócio vinho, no negócio turismo. Agora é preciso envolver as prefeituras. As pessoas têm que ter consciência de que não moram mais em uma simples cidade, por vezes uma cidade agrícola, mas em uma cidade turística. Temos que melhorar a qualidade dos serviços, do atendimento, do receptivo. É um processo que está acontecendo, mas muito lentamente.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

Visualizar todos