[Pelo Estado] Entrevista Presidente da Apesc, Gerson Pedro Berti - 28/11/2016

28.11.2016

Berti: em uma década o mundo vai precisar de três vezes mais energia

Graduado em Administração e em Direito, tem especialização em Auditoria. É auditor fiscal de Tributos Estaduais, da secretara de Estado da Fazenda, aonde chegou a atuar como diretor da Dívida Pública. Foi conselheiro no BESC (Fiscal) e na Casan (Administração), diretor Econômico-Financeiro e de Relações com Investidores da Celesc, diretor-presidente da SC Parcerias e diretor de Desenvolvimento Sustentável da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e Sustentável (SDS). Na SDS, idealizou o Programa SC+Energia e foi diretor responsável pelo Programa de Incentivo e Atração de Indústrias para o Estado (Prodec). Foi chefe de gabinete da presidência da Eletrosul e atualmente é assessor da presidência do Instituto de Previdência (Iprev-SC) para Fundos de Investimentos. No dia 23 de junho, tomou posse como presidente da Associação dos produtores de Energia do Estado de Santa Catarina (Apesc) e foi nesta condição que Gerson Berti concedeu entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado. Ele fala sobre o momento do setor e ressalta a importância do potencial de geração de energia que existe em Santa Catarina, principalmente hidroeletricidade, na qual o estado é competitivo. Você poderá ler a íntegra da entrevista em www.centraldediarios.com.br

[PeloEstado] - Qual é o papel da Apesc?
Gerson Berti -
A Apesc surgiu há cerca de oito anos decorrente da necessidade de organização dos empreendedores que atuam no segmento de energia elétrica. Havia uma série de dificuldades de ordem burocrática, institucional e regulatória que inibiam os investimentos no setor. Santa Catarina tem potencial a ser explorado e que estava sem a priorização necessária, seja em geração hídrica, eólica, solar ou biomassa, fontes consideradas sustentáveis e alternativas. Enquanto a iniciativa privada sempre quis investir, e investiu mesmo com os grandes riscos, a parte pública não enxergava esse potencial com clareza.

[PE] - O estado é competitivo nessas fontes alternativas?
Berti -
O potencial é grande em todas as fontes, mas não conseguimos competitividade em eólica e solar. Nossos ventos não são constantes, como ocorre no Nordeste ou em áreas do Rio Grande do Sul, e os parques solares são empreendimentos que têm como perfil ideal terra barata e Sol forte ao longo do maior período possível do ano, condições que se encontram no semiárido brasileiro, também no Nordeste. Em contrapartida, em geração hídrica nós temos o estado da arte em Santa Catarina.

[PE] - O que isso significa?
Berti -
Temos toda a indústria verticalizada no estado. Não falta nada! Projetos, estudos ambientais, engenheiros e empreiteiros especializados, indústria voltada a motores, eletromecânica, sistemas de automação e monitoramento. Mesmo assim, estávamos tendo dificuldades de ter esses projetos aptos a participar dos leilões da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). A Apesc tratou de trabalhar para desobstruir esses gargalos, juntando todos os agentes interessados no processo de desenvolvimento do setor. E aí chegaram os investidores, porque enquanto os agentes produtores de mercado estavam atuando, era algo que não se via. Mas, no período de 2000, com a crise do setor elétrico, com os apagões, a atenção voltou-se muito à pequena geração. O país tem uma capacidade limitada de fazer os grandes empreendimentos, que demandam uma capacidade financeira muito alta. Já a PCH (Pequena Central Hidrelétrica) geralmente é feita com a soma das poupanças de um advogado, um dentista, um médico, um engenheiro... de pessoas do local, que enxergaram a oportunidade. É uma alternativa de investimento até para o pequeno poupador. Existem PCHs ou CGHs (Central Geradora Hidrelétrica) com 30, 40, 50 sócios. Enquanto a PCH produz de 5 a 30 megawatts (MW), a CGH produz somente até 5 (MW) e a UHE (Usina Hidrelétrica) produz acima de 30 MW.

[PE] - Isso explica o sucesso recente no leilão da Aneel?
Berti -
Sim. Das nove usinas catarinenses vencedoras no Leilão de Reserva da Aneel, realizado em setembro, oito estão cadastradas no Programa SC+Energia, num total de mais de R$ 164 milhões em investimentos. No total, concorreram 16 projetos de PCHs e 18 de CGHs, totalizando 137 megawatts (MW). Há dois anos, Santa Catarina praticamente não tinha projetos nos leilões do governo federal. Agora, devemos crescer em geração hídrica. Nossa condição para avançar é trazer mais e mais associados para sermos percebidos como uma entidade representativa forte. Para isso, precisamos ter conosco também as grandes geradoras. E vamos conversar com todas.

[PE] - O senhor sabe estimar quantas pessoas estão envolvidas com esse mercado no estado?
Berti -
Eu presumo que esse setor da economia catarinense empregue e aglutine algo entre 200 mil a 300 mil pessoas, direta ou indiretamente, em uma cadeia complexa e ampla. E a tendência é de crescimento, por conta do programa SC+Energia, sobre o qual falei, de incentivo a fontes limpas de geração de energia. O programa estima um potencial de mil megawatts, lembrando que cada megawatt tem um custo de implantação variando de R$ 5 milhões a R$ 6 milhões. Ou seja, temos aí uma projeção perto de R$ 6 bilhões de investimentos no setor. E tudo isso dinamiza a economia, desde o período de planejamento e projetos, até a operação, passando pela execução do projeto.

[PE] - As PCHs e as CGHs são alternativas para evitar grandes reservatórios?

Berti - A matriz energética brasileira é uma das mais limpas do mundo. Usamos muito pouco carvão e se Deus quiser vai acabar esse uso. O rio é a nossa principal geração – 70%. O governo brasileiro está indo na direção da diversificação da matriz, o que é positivo. Mas focou muito na eólica em detrimento da hidráulica e isso trouxe prejuízos, porque não se pode comparar energia intermitente com energia garantida. Em determinado momento, por pressão de ambientalistas, equivocadamente deixou de ter reservatórios. As novas hidrelétricas são chamadas de fio d’água. Ou seja, só gera se tem água. É o princípio das PCHs e CGHs. Mas a formação de reservatórios é boa sob vários aspectos: consumo humano, consumo animal, agricultura, recurso em períodos de estiagem e prevenção nas ameaças de enchentes. As represas podem inibir o efeito avassalador de uma cheia. A discussão sobre isso foi empobrecida por uma argumentação radical. Quando você deixa de produzir hidroeletricidade e precisa de energia, tem que buscar em algum lugar. As fontes eólica e solar são intermitentes, não confiáveis. Sofrem fortes variações. As fontes que dão segurança de fornecimento são as térmicas – carvão, gás natural, biomassa – ou as hidráulicas. Mesmo quando não se estoca água, se tem o fio d’água, que é perene. E aí surge um debate realmente importante: a necessidade de preservação da cobertura vegetal e das matas ciliares para manter essa condição, além da manutenção dos leitos sem assoreamento.


[PE] - Hoje a Apesc tem quantos associados?
Berti -
São 79 associados ativos, sendo que 40 são geradores de energia e 39 são prestadores de serviços, indústrias, empresas de engenharia e pessoas físicas. Há ainda uma quantidade que queremos atrair e nossa meta inicial é chegar a 100 associados. Queremos associar também os simpatizantes desse movimento, mas o foco principal é o gerador. É aquele que precisa de uma representatividade política forte, porque os debates são muito frequentes, assim como as mudanças na legislação. Recentemente, junto com a Associação Brasileira de PCHs, tivemos algumas vitórias importantes, com várias modificações na lei que beneficiam nossos associados. Mas isso só foi possível pela força do associativismo...

[PE] - Também no setor de energia.
Berti -
Também. O debate só é colocado em pauta pela força de uma associação. Você é mais respeitado quando é recebido na Aneel, na EPE (Empresa de Pesquisa Energética), na Assembleia, no Congresso. O que se faz é uma espécie de catequese, porque a ignorância é uma arma. Ignorar as coisas como são é uma posição confortável. É bom quando nos dão oportunidade de explicar o que é energia e de onde ela vem, as consequências para o país ou para o estado quando se pretere um empreendimento de geração. Às vezes se faz uma força tremenda para trazer uma empresa lá do outro lado do mundo para se instalar aqui e não se dá atenção a esses pequenos investidores, que são nossos vizinhos e que, em última análise, garantem a instalação da empresa que vem lá do outro lado do mundo.

[PE] - Como está, em Santa Catarina, a geração distribuída?
Berti -
Em termos relativos, Santa Catarina é o segundo estado do país em investimentos nessa solução. Tínhamos 32 em 2014 e hoje são cerca de 200. E para onde se olha tem um telhado que pode receber sistema de geração solar. A meta é chegar a mil telhados para ganhar escala. A microgeração distribuída, aquela que não é concentrada em um grande empreendimento, mas pode se dar a partir de sua casa, está muito em voga. E está sendo incentivada com benefícios fiscais e normativas que permitem que você gere sua energia, utilize o que precisar e o excedente segue para a rede de distribuição, para o sistema. Ainda existem dificuldades técnicas e de regulação que precisam ser transpostas, mas estamos avançando bem. É um mercado a ser consolidado porque o caminho é a autossuficiência energética. Estimo que em uma década ou pouco mais o mundo terá duas ou três vezes mais necessidade de energia do que tem hoje. Mesmo que os equipamentos sejam cada vez mais eficientes. Concomitantemente, as tecnologias para produção de energias limpas estão evoluindo e barateando.

[PE] - Como estimular mudanças nesse sentido?
Berti -
Aí está um debate importante. As pessoas com mais sensibilidade ao aquecimento global, que já aquece a água de casa com o calor do sol e captam água da chuva, fazem investimentos por sua conta e risco, sem incentivos. Hoje, esse investimento pode variar de R$ 30 mil a R$ 50 mil. Precisamos oferecer linhas de crédito para essas pessoas, e muitas mais, substituírem suas faturas de energia por uma conta de financiamento de três ou quatro anos para pagarem seus sistemas de microgeração. E terá 20 ou 30 anos de geração própria e gratuita. A geração distribuída é uma garantia para o sistema, pois não exige grandes linhas de transmissão. E é uma garantia para o consumidor, pois terá energia mesmo se o sistema de distribuição da cidade inteira cair. O BRDE já tem linhas de financiamento. Agora é preciso disseminar a ideia.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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