[Pelo Estado] Entrevista Presidente da Celesc Cleverson Siewert - 27/06/2016

24.06.2016

“O futuro é de muito mais energia e muito mais luz”

O presidente da Celesc concedeu essa entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado no dia seguinte à entrega do Prêmio Abradee 2016 (Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica), no qual a companhia ficou como finalista em cinco das oito categorias. Os resultados do prêmio foram comemorados por Cleverson Siewert, que preside a estatal desde fevereiro de 2013. Para ele, mostram que os ajustes que estão sendo realizados já há cinco anos são acertados. “Comemoro especialmente o terceiro lugar em Responsabilidade Social, pois confirma que a empresa não é simplesmente cabo e poste, mas se preocupa com as pessoas. Além de prestar bons serviços em sua atividade fim, quer também entregar outros bons serviços nessa troca de gentileza com as comunidades.” Na entrevista, ele fala sobre os investimentos feitos recentemente e os planejados, sobre os desafios para a manutenção da concessão e analisa o momento do país, que classificou como “delicado”, ainda que demonstre otimismo com o futuro. 

 

[PeloEstado] - Ainda comemorando o resultado do Prêmio Abradee 2016?
Cleverson Siewert -
Com certeza! Estamos entre as melhores do país em cinco das oito categorias. E nessas cinco, tivemos excelentes resultados. Por exemplo, a Celesc ficou como quinta Melhor Distribuidora do País, uma evolução importante, uma vez que no ano passado ficamos em nona posição. Além disso, conquistamos o quarto lugar na Avaliação pelo Cliente, o terceiro tanto em Responsabilidade Social quanto em Evolução de Desempenho, e ficamos como segunda melhor empresa da Região Sul. Ainda obtivemos a quinta posição em Qualidade da Gestão. Um resultado bastante positivo, de recuperação. Não se muda uma empresa da noite para o dia. É um processo. E o resultado do Prêmio Abradee indica que estamos no caminho certo.

[PE] - Uma disputa acirrada?
Siewert -
Bastante. O que chama a atenção é que grandes empresas, que normalmente faziam parte desse ranking, nem apareceram. Estou falando de Light (RJ), Cemig, AES e tantas outras que nem figuram mais no ranking. Estamos muito bem e o resultado do prêmio mostra que todo o trabalho que foi feito ao longo desses cinco anos vem dando resultado. Internamente, isso é muito positivo para a autoestima dos funcionários; externamente, para a imagem da Celesc. E mostra que podemos competir de igual para igual com grandes grupos, lembrando que a maioria dos que ganharam, fora a Copel, são empresas privadas. Também passa uma sinalização muito boa para o mercado, de que o planejamento feito foi acertado. É credibilidade que estamos conseguindo construir interna e externamente.

[PE] - O que foi feito para se chegar a esses resultados?
Siewert -
Envolvemos todas as pessoas, desde os funcionários, acionistas, Conselho de Administração e Diretoria Executiva, até o movimento sindical. Todos imbuídos de um mesmo espírito. Tem uma menção bacana, que foi feita pelo diretor geral da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Romeu Rufino, sobre a Avaliação pelo Cliente. Foram quatro finalistas e nós ficamos em terceiro, com indicador acima de 85% de avaliação entre ótimo e bom. Isso é um numerozaço! Fomos muito elogiados pela Aneel e pelo secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Paulo Pedrosa. Tudo isso é resultado do esforço de cada um e de todos juntos. Com um detalhe: somos uma empresa pública mostrando que é possível ser coerente na gestão e manter a competitividade.

[PE] - É bom o relacionamento com empregados e acionistas?
Siewert -
Está muito bom. Todos estão pensando em conjunto em função dos grandes desafios postos para a Celesc. O momento econômico e político e, principalmente, a necessidade da manutenção da concessão, mostraram que ou nos damos as mãos e caminhamos juntos ou vamos quebrar a cara. Se cada um puxar para um lado, não teremos êxito. É óbvio que sempre surge uma divergência, mas sentamos à mesa, conversamos... construímos um ambiente positivo.

[PE] - Qual o esforço que a Celesc está fazendo para cumprir as exigências da Aneel e manter a concessão de distribuição de energia?
Siewert -
No final do ano passado nós renovamos a concessão. Uma conquista para a empresa, mas que trouxe muita responsabilidade. Os indicadores técnicos, basicamente quanto ao número de vezes e número de horas de interrupção no fornecimento de energia ao longo do ano, devem melhorar até 2020 na ordem de 25%, um percentual importante. Por outro lado, do ponto de vista da sustentabilidade, os indicadores também são bastante robustos e exigem cada vez mais profissionalismo e eficiência no nosso trabalho. O que temos que fazer é acelerar o passo de todo o processo de transformação que já está em andamento. Temos dialogado muito com todos os interessados na empresa. Estou fazendo uma rodada de conversas com todos da administração central e vou passar por todas as agências regionais com a intenção de mostrar os resultados do primeiro semestre. Foram bons resultados, mas precisamos correr para alcançar as metas impostas pela Aneel. Não vamos esperar chegar a 2020. Temos que trabalhar puxado e com antecedência para ter tranquilidade lá na frente.

[PE] - Quais os investimentos recentes e os projetados? E qual o impacto para a Celesc?
Siewert -
Em termos globais, ao longo de 2016 vamos investir cerca de R$ 315 milhões na Distribuição de energia, contra R$ 470 milhões do ano passado. No primeiro trimestre já investimos quase R$ 94 milhões, mostrando que, independentemente desse momento delicado, econômico e político, que o Brasil vem atravessando, e que naturalmente se reflete nos negócios, a Celesc não tirou o pé do acelerador. Até porque estamos de olho na manutenção da concessão no longo prazo, uma definição do próprio Conselho de Administração que a diretoria Executiva segue à risca. A sociedade percebe isso por receber um sistema melhor do que a média nacional. Os nossos indicadores de DEC e FEC (Duração Equivalente e Frequência Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora), assim como no ano passado, são cerca de 20% melhores que a média do país. Na Geração, vamos investir R$ 250 milhões e mais R$ 30 milhões na Holding, que compra novos negócios nos quais estamos atentos. São R$ 595 milhões, compostos em 40% de recursos próprios e 60% de investidores e mercado. A nossa situação de alavancagem de recursos no mercado ainda é boa. Temos uma dívida de 1,5 x o Ebitda (sigla em inglês que traduzida significa Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), quando a média das concessionárias é de 3,5 a 4. Porém, o mercado está ou fechado, ou muito caro. Por isso estamos tentando nos ajustar com o que já temos.

[PE] - Como está o consumo de energia em Santa Catarina?
Siewert -
Continua caindo. No nosso mercado cativo, de janeiro a maio de 2016 sobre janeiro a maio de 2015, tivemos 2,9% de recuo. Mais do que aconteceu no ano passado inteiro, que ficou em - 2%, o que mostra que o mercado continua em retração. O segmento que mais cai é o industrial, com 14,7% de queda, um pouco pela retração de produção, mas também, cerca de 30% desse percentual, por migração para o mercado livre. O momento é delicado em todo país e não é diferente em Santa Catarina.

[PE] - Quais as expectativas para a revisão tarifária?
Siewert -
A revisão tarifária já está acontecendo. Tivemos a publicação de uma audiência pública há duas semanas e que ficará aberta por 30 dias. No caso da Celesc, a revisão acontece a cada quatro anos e, agora, por um alinhamento com as demais distribuidoras, passou de 7 para 22 de agosto. Basicamente, acontece visando uma lógica de ajuste de receitas para a companhia para os próximos quatro anos. A Aneel vem para dentro da Distribuidora, identifica gastos e investimentos dos últimos quatro anos e, com base nisso, estabelece a receita necessária para o próximo período. A audiência pública mostra a queda de tarifa, em 5,6% na tarifa média, em função do maior volume e frequência de chuvas. Para a Celesc também tem sido uma revisão positiva porque na Parcela B, que é o que teremos de dinheiro para investimentos e custeios, mostra um avanço, diferente do que aconteceu nas últimas revisões, quando tivemos queda nessa parcela.

[PE] - Quais os reflexos do momento do país para o setor?
Siewert -
O setor de infraestrutura e, especificamente, o de energia, sofrem bastante com tantas mudanças. O que se consegue perceber, e ficou claro nas manifestações das autoridades, durante a entrega do Prêmio Abradee, é que o momento é outro do ponto de vista da conversa. O novo ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, o próprio presidente (interino) Michel Temer, o Paulo Pedrosa, que conhece muito do setor e é muito aberto, claro e objetivo... ele quer interferir o mínimo possível e deixar que o setor tenha a previsibilidade que sempre teve. Perdemos um pouco disso nos últimos dois ou três anos. Tudo aponta para um caminho de recuperação. O futuro que nos aguarda me parece que é de muito mais energia e muito mais luz. Mas o momento é delicado.

[PE] - Como a Celesc chegará ao final de 2016?
Siewert -
Acredito que o ano será difícil em termos de gestão, com muitos desafios, mas promissor. As métricas estão sendo reavaliadas pelo Ministério e pela Aneel, o que nos dá esperanças de fechar o ano de forma positiva. O grande ponto que temos discutido com o órgão regulador e com o Ministério é a neutralidade da Parcela A, que nos últimos anos tem influenciado muito porque tem a ver com a compra de energia. E é nessa linha que a Aneel e o Ministério têm seguido. Quero reforçar a posição também do governador Raimundo Colombo e do vice-governador Eduardo Moreira, que não nos pedem nada que não seja gestão coerente da empresa. Isso dá muita tranquilidade para os acionistas, para a diretoria e para o próprio corpo funcional.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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