[Pelo Estado] Entrevista Presidente da Embratur, Vinícius Lummertz

09.10.2017

“O Brasil precisa de um choque de realidade”

 

Presidente da Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo) desde 2015, o catarinense Vinícius Lummertz é formado em Ciências Políticas pela Universidade Americana de Paris, e pós-graduado na Kennedy School, da Harvard University. Antes de presidir a Embratur, ele foi Secretário Nacional de Políticas de Turismo, no Ministério do Turismo. Em Santa Catarina, atuou como  secretário de Turismo, Esporte e Cultura de Florianópolis e foi secretário de Estado de Articulação Internacional e secretário de Estado do Planejamento. Nessa entrevista mais ao estilo bate-papo, concedida à reportagem da Coluna Pelo Estado, Lummertz fala um pouco de sua visão sobre o setor e do potencial do turismo para ajudar o Brasil a sair da crise econômica. Ele esperava para a semana passada a aprovação do regime de urgência para o projeto que transforma a Embratur em agência e para esta semana a votação do projeto propriamente dito. Mas sua ação mais importante à frente da Embratur, como ele mesmo classifica, vai ter que esperar um pouco mais. “A agenda negativa do Brasil está atrapalhando a agenda positiva”, lamenta.

 

[PeloEstado] - Há mais de um ano o senhor vem trabalhando para transformar a Embratur em agência. Qual a importância dessa mudança?
Vinícius Lummertz -
A Embratur já foi uma empresa e hoje é um instituto. Uma autarquia, parte da administração direta, independente na teoria, mas não de fato. Já tem mais de 50 anos de atuação e nós entendemos que a sua modernização passa pela transformação em agência, projeto que está no Congresso para ser votado. A proposta prevê 130 modificações na Lei Geral do Turismo e inclui também a abertura de capital das empresas aéreas, para que possam se capitalizar. Concluir esse processo é a minha mais importante missão na presidência da Embratur.

[PE] - Por que tanta demora?
Lummertz -
Tivemos vários movimentos para a transformação da Embratur em agência, mas a prioridade foi ultrapassada pelas sucessivas crises em Brasília. Esse processo começou há um ano, já na gestão Temer. Antes disso não havia muito espaço para esse debate. A agência será autônoma, nas características da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), uma estrutura que funciona, com recursos, com condições de fazer contratos no exterior, com um plano de cargos e salários competitivo para essa área internacional. A Embratur perdeu essas condições. A votação estava prevista para 30 dias atrás, mas estamos em um período de instabilidade política. A agenda negativa do Brasil está atrapalhando a agenda positiva.

[PE] - Aprovada a mudança, em quanto tempo já será possível sentir os efeitos positivos?
Lummertz -
Com gasolina o carro anda. Precisamos melhorar o carro, a parte institucional, regimento interno, plano de cargos e salários, estatuto, conselho com a participação de empresários... acredito que teremos um ano de transição, mas que os primeiros resultados virão em até seis meses. Vamos acelerar a partir do velho modelo e já temos campanhas preparadas para sair em vários canais internacionais de mídia. Reformulamos e já colocamos no ar a plataforma digital Visit Brasil, que tem claramente quais são as estratégias. Teremos uma modernização radical nesse período de um ano e estaremos na direção certa.

[PE] - O que mudará de fato?
Lummertz -
Teremos um orçamento independente, robusto. Veja bem, a Embratur já teve US$ 100 milhões para promoção e hoje está com US$ 17 milhões, valor contingenciado em 70%. Estamos com muitas dificuldades, enquanto os nossos concorrentes da América Latina investem na faixa de US$ 70 milhões a US$ 80 milhões em média, por ano. O Brasil já foi líder e ficou para trás. A Colômbia aplica US$ 110 milhões e o México, US$ 480 milhões. O turismo é muito sensível à promoção. Tanto que nós fizemos a campanha “O Sul é o meu destino”, junto com o Ministério do Turismo, para promover os destinos do Sul do país, e imediatamente a região passou do Sudeste em fluxo turístico. Quando se tem um bom produto, o mercado logo reage. Mas é preciso que esse produto seja promovido.

[PE] - De quanto o Brasil precisa para uma promoção eficiente?
Lummertz -
A Organização Mundial do Turismo indica que 2% sobre o faturamento com turismo são suficientes para uma boa promoção. O Brasil fatura US$ 7 bilhões por ano! O ideal, portanto, seria termos pelo menos US$ 140 milhões para uma ação efetiva nessa área. Estamos com menos de 15% do necessário. Com isso, não conseguimos gerar massa crítica entre os potenciais visitantes. Temos uma ação forte na Argentina, temos participação em feiras no Chile, Paraguai, no Peru, investimos recursos com as Embaixadas para fazer promoções. Se investíssemos mais, o retorno aconteceria em dois ou três meses. Para cada milhão de dólares do retorno é de US$ 20 milhões e em muito pouco tempo. Isso até certo ponto, quando se chega ao teto. Só que estamos muito longe desse teto. Atualmente, a Argentina investe mais aqui do que nós lá em promoção. Também precisamos melhorar as condições de investimento no Brasil.

[PE] - Não são boas?
Lummertz -
Longe disso. O mundo inteiro quer investir no negócio turístico brasileiro. O Brasil é o maior potencial internacional natural e um dos maiores de cultura, além de um mercado interno vasto e a proximidade com todos os países da América Latina. Ao mesmo tempo, o Brasil está entre os de maior dificuldade para se abrir um negócio turístico no mundo. De 140 países no ranking, somos o 137º pior. Uma comparação simples: aqui, um equipamento de parque temático custa três vezes mais do que nos Estados Unidos, por conta da legislação e de impostos, que considera uma montanha-russa não um bem de capital, mas um bem de consumo.

[PE] - Por que tanta diferença?
Lummertz -
Temos muitos anacronismos no Brasil. Temos esse Estado gigantesco, perdulário, gastador, que paga juros astronômicos a um sistema financeiro que se locupleta. Temos o sindicalista que quer se aposentar antes dos 50 anos e o banqueiro que quer cobrar 550% de juros no cartão de crédito. É o pior dos mundos! Não vamos conseguir construir um país com tanto conservadorismo à direita e à esquerda. O Brasil precisa de um choque de realidade.

[PE] - A nova Lei Geral do Turismo mexe na questão tributária?
Lummertz -
O Programa Mais Turismo, que abrange todas as medidas, prevê a retirada desses impostos. Já aplicamos o regime de ex-tarifário durante dois anos, foi quando os parques conseguiram se modernizar, inclusive o Beto Carrero World. Mas há resistência dos cobradores de impostos, que precisam alimentar esse dragão, esse leviatã, esse mega Estado perdulário e gastador, fruto da Constituição de 1988, que avançou muito, é verdade, mas é muito mais parecida com a cabeça de um diretório acadêmico do que com o realismo de um adulto. Para solucionar, ao invés de tirar impostos para facilitar a vida dos empreendedores de turismo, criaram esse compadrio, onde emprestam dinheiro para um empresário tipo Joesley Batista (dono da J&F acusado de participação em esquemas de corrupção) que sai comprando empresas com dinheiro subsidiado do BNDES. Não é correto isso. Precisamos fazer uma reforma capitalista de mercado para ao mesmo tempo, Deus queira, construir uma Social Democracia em cima da produtividade. Já sabemos que a Nova República acabou, que não basta uma democracia para dar tudo certo. O Estado inchou e estourou. Ninguém mais consegue pagar essa conta. Os grupos de interesse estão aí, corvos querendo tirar mais um pedaço do cadáver. Temos que revigorar o mercado e no mundo inteiro o turismo é uma forma de fazer isso.

[PE] - Como avalia no turismo em Santa Catarina?
Lummertz -
Santa Catarina tem um problema muito sério de insegurança jurídica. Aqui, as marinas, os portos turísticos, as cidades históricas, os parques naturais, os empreendimentos na orla poderiam compor um bom programa de desenvolvimento do turismo, o que alavancaria a indústria, inclusive. Quando falo em marina, falo de eventos, de esportes náuticos, de mecânica de barcos, de quatro empregos por barco, de gastronomia, de moda. Está tudo interrelacionado! Estamos, em certa medida, perdendo tempo e espaço no mercado turístico nacional e internacional. Santa Catarina sofre com uma postura anti tudo: anti turismo, anti capitalista, anti negócio. Uma postura que considero imoral, porque tira as condições de desenvolvimento, tanto econômico quanto social.

[PE] - Quais as ações necessárias para o estado?
Lummertz -
Para que as regiões do estado se desenvolvam é preciso que haja um novo arcabouço de matriz econômica para Santa Catarina. É evidente que as palavras inovação e serviços, e turismo como principal dentro de serviços, poderão dar um futuro brilhante a cada uma das nossas regiões. A grande revolução é sairmos do planejamento setorial para o territorial. São os territórios, do Sul, do Norte, do Grande Oeste, dos Planaltos, que precisam ser entendidos como áreas de desenvolvimento dentro das quais os setores interagem. Isso não se faz em Santa Catarina. Ainda vivemos sob a ótica do capitalismo espontâneo catarinense, das décadas de 1960, 1970 e 1980, onde as coisas simplesmente aconteciam. E aqui tem outro aprendizado. O empresariado tem que deixar de ser ciumento. “É minha região, só eu posso fazer negócios aqui.” Então você vai atrasar a sua região! Com isso, temos o tipo de modelo que nos coloca como país subdesenvolvido ou eternamente em desenvolvimento. Gerações inteiras já foram perdidas por causa dessa visão.

 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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