[Pelo Estado] Entrevista Presidente da Epagri, Luiz Hessmann

24.04.2017

“Nossa pesquisa é aplicada ao mercado”

Médico veterinário, especialista em bovinocultura de leite pela Universidade de São Paulo (USP), é presidente da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) desde 2009. Na esfera pública, já atuou com prefeito de vereador em Ituporanga, um dos maiores núcleos produtores de cebola do país. Foi secretário executivo estadual do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) em Santa Catarina (2003 a 2005), e secretário executivo estadual do projeto Microbacias II (2005 a 2008). Nessa entrevista exclusiva à reportagem da Coluna Pelo Estado, Hessmann mostra todo o entusiasmo que tem pela empresa, uma das mais reconhecidas do país, e fala do sucesso que o trabalho realizado ali traz para o estado. “O importante é nós mostrarmos para a pessoa que está na cidade, no meio urbano, que o alimento que ela consome tem qualidade e que para isso houve um grande investimento em pesquisa, tecnologia, extensão rural.”

[PeloEstado] - Como demonstrar a importância da Epagri para Santa Catarina?
Luiz Hessmann -
Acho que a melhor forma é o Balanço Social, que segue uma metodologia científica em trabalho feito em parceria com a Embrapa. O de 2016 será lançado no mês de maio e ali vamos demonstrar que a cada R$ 1,00 aplicado na Epagri, seja em salários, em pesquisas ou em extensão rural, há um retorno social superior a R$ 4,00, um avanço importante sobre 2015, quando o retorno foi de R$ 3,59. Na verdade, as nossas publicações periódicas demonstram bem o trabalho que a Epagri desenvolve ao longo de mais de 60 anos de extensão rural e de 40 anos de pesquisa agropecuária. Falo do Catálogo de Cultivares, da Revista Agropecuária Catarinense, da Síntese Anual da Agricultura de Santa Catarina, da Pesquisa Agropecuária e do Relatório Técnico de Atividades.

[PE] - O que o senhor pode destacar entre tantas informações?
Hessmann -
O importante é nós mostrarmos para a pessoa que está na cidade, no meio urbano, que o alimento que consome tem qualidade e que para isso houve um grande investimento de recursos e tempo em pesquisa, tecnologia, extensão rural. Só para dar uma ideia do que isso representa, uma variedade de maçã desenvolvida pela Epagri, em Caçador, a Monalisa, hoje ocupa 32% do exigente mercado consumidor de maçã da França. Há 20 anos não tínhamos mais que 1,3 mil produtores de maçãs no estado e hoje temos mais de 2 mil, boa parte em pequenas propriedades. Duas das nossas variedades de maçãs, a Monalisa e a Daiane, estão agora sendo elaboradas para colheita intermediária, ou seja, no intervalo entre a colheita da Gala e da Fugi. Com isso, visamos aumentar a eficiência da propriedade, ocupando a mão de obra que ficaria parada e gerando custos.


[PE] - Maçã é o único exemplo?
Hessmann -
Temos muitos outros. A Epagri já lançou 30 variedades novas de arroz, nove variedades de cebola, 15 cultivares de maçã, além de aprimoramentos genéticos como no aipim e na pitaia. Uma variedade de alface que lançamos no ano passado, em Itajaí, indicada para cultivo orgânico, é maravilhosa em sabor, textura e concentração de nutrientes. A última variedade de arroz que lançamos exigiu 14 anos de pesquisas. A de cebola, nove anos. Para o pasto Missioneira Catarina, foram 30 anos. Trabalhamos o tempo todo para melhorar nossos produtos e, com isso, dar melhores condições de mercado aos produtores.

[PE] - Por que a Epagri se consolidou como referência para o país?

Hessmann - Recebemos visitas do Brasil inteiro, e também de outros países, interessadas no modelo de extensão rural da empresa. Estamos presentes em todos os 295 municípios catarinenses e conseguimos colocar pelo menos um agrônomo em cada um desses municípios, sendo que em alguns casos temos mais de um engenheiro agrônomo em uma mesma cidade. Isso sem falar nas nossas nove estações experimentais e nos nossos centros especializados.


[PE] - A estrutura da empresa é suficiente?
Hessmann -
É um esforço contínuo. Fomos contemplados no PAC Embrapa e nos últimos oito anos recebemos mais de R$ 36 milhões em equipamentos para os laboratórios. Temos, hoje, o maior Laboratório de Águas da América Latina, instalado em Itajaí. Em termos de recursos humanos, ficamos mais de 14 anos sem contratações, mas agora chamamos uma nova turma, de 31 extensionistas concursados, que vai incrementar a nossa força de trabalho de 1.740 funcionários, sendo 516 engenheiros agrônomos no interior. Essa renovação só foi possível com a execução de um plano de demissão incentivada. Mesmo assim, planejamos uma transição para que a empresa não perdesse a bagagem técnica e científica acumulada por pesquisadores com 25, 30 anos de casa.
 
[PE] - Outros assumiram as linhas de pesquisa que já estavam em andamento?
Hessmann -
Isso mesmo. Temos, hoje, 178 ações de pesquisas, desde modificações genéticas até a adaptação de cultivares. A nossa pesquisa não é meramente acadêmica, mas aplicada ao mercado. O que explica o sucesso da extensão rural associada à pesquisa é que o extensionista detecta uma doença, por exemplo, e transmite a informação à equipe de pesquisa, formada por um fitopatologista, fitotecnista, um entomologista, um melhorista de plantas e um soleiro (que cuida do solo), todos doutores em suas áreas e efetivos da empresa. Essa equipe estuda o caso e vai em busca da solução. O trabalho é articulado.

[PE] - Redução do uso de agrotóxicos é linha de pesquisa?
Hessmann -
Santa Catarina se destaca nacionalmente no esforço para reduzir a aplicação de agrotóxicos. Temos uma super oferta de herbicidas, fungicidas, venenos em geral. Nós testamos esses produtos e, ao mesmo tempo, tratamos de desenvolver resistências nas sementes ou mudas, no fenótipo e no genótipo da planta, para que seja possível reduzir o uso de agrotóxicos. Não são produtos transgênicos, mas, sim, melhorados geneticamente. A Epagri, aliás, não trabalha com transgênicos.

[PE] - Por que não?
Hessmann -
Porque os transgênicos não geram sementes. Hoje, uma saca de milho transgênico custa perto de R$ 1 mil, enquanto o nosso milho fica em torno de R$ 200,00, e ainda tem mais sabor e mais concentração de nutrientes. Além disso, a produtividade dos transgênicos não é tão maior: rendem 200 sacas por hectare contra 170 sacas por hectare do milho não transgênico. A nossa linha de pesquisa é no sentido de limpar os alimentos e da agroecologia, sempre em busca da sustentabilidade econômica e ambiental. Ainda tomando o milho como exemplo, nós pegamos sementes originais, crioulas, e as melhoramos geneticamente, resultando em variedades como a Catarina e a Fortuna. O mesmo foi feito com o aipim. O nativo passou por melhoramento genético.

[PE] - Como essa opção implica em sustentabilidade econômica?

Hessmann - Aplicar produtos nas lavouras é caro e nem sempre o produtor pode arcar com esses custos. O que temos que fazer é aumentar a produtividade por hectare e reduzir o custo de produção. Até porque 92% das propriedades rurais de Santa Catarina têm até 50 hectares e são tipicamente de agricultura familiar. Os principais clientes da Epagri são justamente os agricultores familiares e os pescadores artesanais. São eles que têm as maiores dificuldades para se manter.

 

[PE] - O estado está comemorando supersafra de vários produtos. Por que tão bons resultados?
Hessmann -
O período foi excelente do ponto de vista climático. Novamente falando de milho, Santa Catarina está colhendo uma supersafra que pode chegar à produtividade de 180 sacas de 50 quilos por hectare. Isso vai contribuir para reduzir o déficit do produto no estado de 45% para 35%, aproximadamente. Além da quantidade, a qualidade também está excelente, não só no milho, mas também na cebola, maçã, na uva para vinho, no mel. No caso da cebola, a produtividade era de 23 a 27 toneladas por hectare e agora estamos com 40 toneladas por hectare. O clima ajudou, mas a Epagri também desempenhou um papel importante para esse resultado no momento em que aumentamos muito a nossa capacidade de assistência técnica.

[PE] - Fale mais sobre o mel.

Hessmann - Merece mesmo um destaque. Nós éramos o estado que mais produzia mel no Brasil. Veio uma contaminação e nossa produção caiu muito. Nos últimos dez anos houve um esforço para reverter isso e hoje o nosso mel é um dos melhores do mundo. Até o final de abril vamos colher mais de 7,5 mil toneladas de mel. Uma safra recorde! A produção ficou em 25 quilos por colmeia, superior à média dos últimos anos, que foi de 20,42 quilos/colmeia e muito superior à média catarinense de cinco anos atrás, que era de 13 quilos/colmeia. A do Brasil mal passa dos 10 quilos por colmeia.

[PE] - O leite também tem merecido atenção da Epagri?

Hessmann - Aumentamos muito a produção do leite e aqui vem outro diferencial: a nossa visão, na Epagri, é de que a vaca é uma transformadora de pasto em proteína na forma de leite. Não queremos colocar muitos concentrados – milho, soja, minerais, suplementos – na alimentação do rebanho leiteiro, porque acreditamos que é o pasto que deve ser transformado em proteína. Não somos adeptos à teoria de que a vaca tem que produzir 70 litros de leite por dia. Preferimos que ela produza o máximo possível, sim, mas dentro de um parâmetro de sustentabilidade para o animal e de rentabilidade para o produtor. O produtor que investe na alimentação para uma vaca produzir 70 litros tem um custo de produção muito maior do que aquele que usa somente o pasto. E é comum o resultado final ser desvantajoso. O que estamos fazendo, então? Investindo essencialmente na qualidade das nossas pastagens.


[PE] - Como está o programa SC Rural?
Hessmann -
É um programa muito interessante da Secretaria de Estado da Agricultura e da Pesca, pelo qual estamos treinando jovens nos nossos 13 centros de treinamento. São identificados 380 jovens por ano, pessoas que chamam a atenção dos nossos técnicos no meio rural. São cursos de alternância, entre os centros de treinamento e a propriedade da família, com acesso à tecnologia e uma discussão mais ampla, envolvendo a preservação ambiental, os aspectos sociais, identificação de atividades diferenciadas que podem ser desenvolvidas para atendimento de demandas no campo. Trabalhamos com base nesse tripé: sustentabilidade ambiental, social e econômica e 1,4 mil jovens foram formados em pouco mais de três anos do SC Rural, executado pela Epagri. Ensinamos a nunca ver algo segmentado, mas o todo - o próprio jovem e seus planos, a família e a comunidade.

[PE] - O objetivo é estancar o êxodo rural?
Hessmann -
O discurso fácil de combater o êxodo rural não pega mais. Temos que manter as famílias e, principalmente, os jovens no campo, dando boas condições de qualidade de vida. Por que um jovem da cidade pode ter internet com facilidade e o jovem do campo não pode? A SC Rural investiu em internet, em financiar computadores e impressoras sem juros. E sem pressa. Queremos envolver muitos jovens e suas famílias, mas realizando um trabalho de qualidade.

[PE] - O trabalho terá sequência?
Hessmann -
Tivemos 18 anos do programa Microbacias I, com recuperação do solo como foco, e Microbacias II, com um olhar para o associativismo e o investimento nas propriedades. Melhorar a autoestima das famílias foi o grande legado desse período, que tinha linha de financiamento a fundo perdido. Só na serra construímos quase 800 novos banheiros! O SC Rural I, que começou em 2011 envolvendo R$ 170 milhões, teve como meta incentivar os empreendimentos rurais, transformar o produtor em empreendedor, em gestor. Agora estamos conversando com o Bando Mundial (BIRD) para garantir recursos para o SC Rural II, para o qual deverá ser aprovado um plano piloto no Brasil que trará como desafio a disponibilização de novas tecnologias para o campo, como aplicativos específicos para a área rural. O pulo do gato dessa etapa é estimular as startups, geralmente movidas por pessoas do meio urbano, a pensar em soluções para a agricultura. O trabalhador rural é sensível a essas novas tecnologias, busca, se interessa, demanda. Nossa tarefa será promover essa percepção e ligar os dois universos.

[PE] - Quando terão uma posição do BIRD e qual o valor projetado?
Hessmann -
Para o período de quatro anos, estamos esperando de R$ 170 milhões a R$ 200 milhões e esperamos que haja uma definição até o final do ano. A realidade é que nosso gargalo hoje não está no Estado de Santa Catarina ou no BIRD, mas no Tesouro Nacional, que precisa aprovar a operação em meio a um momento conturbado.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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