[Pelo Estado] Entrevista Presidente da Facisc Ernesto João Reck - 30/05/2016

30.05.2016

“O cenário é de freio de mão puxado”

"O empresariado, certamente, voltará a investir, contratar e expandir seus negócios se estiver seguro para tomar decisões."

Natural de São Lourenço do Oeste, é formado em Administração de Empresas e tem MBA pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em Gestão Empresarial. Foi professor de Logística na UnoChapecó e de Gestão Empresarial e Técnicas de Vendas na Funenseg. É membro do conselho de Administração do Laticínio Villa Láctea S.A. e foi presidente da Associação Empresarial de São Lourenço do Oeste de 2003 a 2005. Em 2013, foi eleito presidente da Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc) e reeleito em 2015. Reck vem atuando fortemente no fortalecimento do Sistema Facisc, na melhoria do ambiente empresarial, no desenvolvimento sustentável e na representatividade da classe empresarial. Atualmente, a Federação reúne mais de 34 mil empresas por intermédio de suas 146 Associações Empresariais, em 12 regionais. Presente em 220 municípios catarinenses, é o maior sistema empresarial voluntário do estado pela sua capilaridade de atuação e pela diversidade de setores que representa através do associativismo, como por exemplo, a indústria, o comércio, a prestação de serviços, o agronegócio, os profissionais liberais, o turismo, entre outros.

[PeloEstado] - Como o senhor avalia a atual conjuntura política e econômica do país?
Ernesto João Reck -
É um momento de incertezas e a inversão desse momento de crise acontecerá com a retomada da confiança. O empresariado, certamente, voltará a investir, contratar e expandir seus negócios se estiver seguro para tomar decisões. É necessário que ações que foquem nos gargalos estruturais do país, como a pouca infraestrutura de qualidade, a carga tributária elevada, a grande burocracia, entre outros fatores que também compõem o bloqueio frente à competitividade das empresas, componham a agenda macroeconômica. Precisamos construir um caminho de crescimento sustentável e de longo prazo.

[PE] - Já se pode afirmar que o ano de 2016 terá resultados negativos?  
Reck -
O que se espera com o fechamento do ano de 2016 é um crescimento negativo. Previsões do Boletim Focus (-3,8%), bem como do FMI (Fundo Monetário Internacional, -3,8%) apontam para esse resultado. Além disso, segundo próprias estimativas do FMI, a taxa de investimento sobre o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro se manterá baixa (19,1%) e inferior à média mundial (25%), sendo esse um dos grandes gargalos a se superar no país nos próximos anos.

[PE] - E Santa Catarina neste contexto?
Reck -
Santa Catarina sofre os efeitos da crise a exemplo de todo o Brasil.  O comércio dá claros indicativos. Para o período acumulado entre janeiro e fevereiro, comparado ao mesmo período de anos anteriores, 2016 registra a maior baixa histórica. É a primeira vez que Santa Catarina registra uma taxa de crescimento negativa maior que a média brasileira.
O destaque positivo vai para o setor de turismo. Nesse primeiro bimestre de 2016, as receitas nominais cresceram 3,4% em Santa Catarina. Esse resultado foi acima da inflação do período. O país também obteve ganhos reais de receitas nesse setor, onde cresceu 2,5% para o período analisado.

[PE] - Quais têm sido os efeitos da crise, especialmente no interior do estado?  
Reck -
O cenário é de freio de mão puxado. Existem empresas demitindo, sim, segurando produção e tentando se garantir de qualquer forma. Para nós, o resultado mais negativo são as demissões. A demissão é o último recurso de uma empresa. Se chega a este ponto é porque o restante já foi feito. Entre janeiro e março de 2016, o Brasil fechou seu saldo de vagas de emprego formal negativo em aproximadamente 320 mil vagas. Santa Catarina, por sua vez, para o mesmo período, criou 8.496 empregos diretos. Além disso, Santa Catarina ainda é o estado que mantém a menor taxa de desemprego no país (4,2%). A média nacional é de 9,0%.  Mesmo com o resultado abaixo da média nacional, o desemprego é o indicativo mais claro da recessão econômica.

[PE] - O que os três níveis de governo devem ou podem fazer para minimizar a crise?
Reck -
Nossas principais bandeiras junto aos poderes constituídos são: a melhoria da infraestrutura, a melhoria na aplicação dos recursos públicos, a aproximação com a classe política, desenvolvimento econômico sustentável, redução e simplificação da carga tributária e combate à corrupção.
A Facisc defende uma gestão mais eficiente dos recursos públicos e que o governo passe a fazer a sua parte, cortando gastos como cargos comissionados, cartões de crédito e outros benefícios garantidos a uma minoria, para que haja um controle verdadeiramente rígido dos recursos. Não é taxando a classe empresarial, a verdadeira classe geradora de riqueza e renda, que o Brasil voltará a crescer.
O governo precisa agir urgentemente para que, no final das contas, não venha a ser o próprio gerador do definhamento do sistema empresarial que contribui incisivamente com a economia do Brasil. Além disso, é esse sistema o principal mantenedor da própria arrecadação do governo. Será que param para analisar essa questão?

[PE] - Que ações a Facisc desenvolve para orientar e ajudar seus filiados/associados a superar o momento? E o que os três níveis de governo devem ou podem fazer para minimizar a crise?
Reck -
A Facisc busca o fortalecimento do setor produtivo em Santa Catarina através de ações que promovam o desenvolvimento econômico. Atuamos com projetos nas mais diversas áreas e dentro das diretrizes que definimos como prioridade.
Fechamos a última gestão (2013/2015) com 93 projetos e nesta nova gestão (2015/2017) já temos um portfólio com 53 projetos alinhados ao planejamento estratégico da entidade. Em resumo, buscam o desenvolvimento sustentável da sociedade. Exemplos disso são o projeto Geração Empreendedora, que visa estimular e orientar o empreendedorismo nos estudantes adolescentes; a Sociedade de Garantia de Crédito, que tem por objetivo facilitar o acesso ao crédito para as micro e pequenas empresas da região; e o Programa de Desenvolvimento Econômico Local (DEL), que estimula empresários a participarem efetivamente do planejamento e da execução de ações que favoreçam o desenvolvimento municipal.

[PE] - Fale um pouco mais sobre o DEL.
Reck -
O Programa Desenvolvimento Econômico Local tem como objetivo instituir um modelo de gestão capaz de contribuir para o desenvolvimento das cidades catarinenses. Através do DEL, os municípios unem iniciativa pública e privada para garantir a continuidade dos projetos de interesse da comunidade, em prol do desenvolvimento econômico sustentável. Tudo feito em parceria e por meio da implementação da política de desenvolvimento socioeconômico.
É uma iniciativa da Facisc e das associações empresariais catarinenses.
 
[PE] - Que municípios já aderiram e o que já se tem observado de mudança?
Reck -
O DEL já está acontecendo em 16 municípios e em negociação em outros 17. As maiores mudanças percebidas estão na maior participação dos empresários e da sociedade civil nas decisões e no planejamento das cidades. São mais de 600 voluntários envolvidos nas câmaras técnicas e conselhos, se tornando o poder pensante das cidades, além de um grande número de projetos viáveis realizados a curto, médio e longo prazo.

[PE] - Em junho a Facisc comemora 45 anos de criação. Como será a comemoração?
Reck -
Uma série de ações está prevista para comemorar os 45 anos da Facisc. Teremos o lançamento da pedra fundamental da nossa nova sede, um jantar comemorativo, sessão solene na Assembleia Legislativa, reunião de diretoria, criação de um selo comemorativo, ações de comunicação, a distribuição da nossa tela temática para os diretores voluntários da Facisc e a realização do Encontro de Estadual de ACIs, de 19 a 21 de outubro, em Balneário Camboriú.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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