[Pelo Estado] Entrevista Presidente da Facisc, Ernesto Reck - 13/02/17

13.02.2017

“O nosso empresário tem que se reinventar”

Natural de São Lourenço do Oeste, o empresário do segmento de seguros está em seu segundo mandato como presidente da Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc) e vem atuando para o fortalecimento do Sistema Facisc, melhoria do ambiente empresarial, desenvolvimento sustentável e na representatividade da classe empresarial. É formado em Administração de Empresas e tem MBA em Gestão Empresarial (FGV). Foi professor na UnoChapecó, na disciplina Logística, e na Funenseg, nas disciplinas de Gestão Empresarial e Técnicas de Vendas. A Facisc reúne mais de 34 mil empresas – perto de 15% do total de empresas registradas em Santa Catarina -, distribuídas em todas as regiões. Por intermédio de suas 146 associações empresariais, em 12 regionais, está presente em 220 municípios. É o maior sistema empresarial voluntário do estado pela sua capilaridade e pela diversidade de setores que representa através do associativismo, como indústria, comércio, prestação de serviços, agronegócio, profissionais liberais, turismo e diversos outros. Nessa entrevista exclusiva que concedeu à Coluna Pelo Estado, Reck falou sobre o momento do país, a expectativa com as reformas e a necessidade permanente de qualificação: “Isso explica a baixa taxa de mortalidade dentro do nosso sistema”.

 

[PeloEstado] - O ano já começa com visita de ministro?
Ernesto Reck -
É o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, que estará conosco no dia 17. Fizemos um convite para que viesse ao estado porque estamos muito preocupados com a taxa de desemprego em nível nacional, que é crescente. Precisamos fazer algo que dê aos empresários certa segurança em contratar as pessoas. Há a necessidade da reforma nas leis trabalhistas. E nós queremos participar disso. Queremos entender do ministro qual o caminho que eles querem seguir e de que forma nós, empresários de Santa Catarina, podemos contribuir. Estive em audiência com o ministro em Brasília, fiz o convite, que foi aceito. Agora vamos reunir um bom número de empresários de todas as regiões do estado para entregas as nossas reivindicações. Estamos coletando sugestões e vamos compilar em um documento que vai dizer o que o meio empresarial catarinense pensa e espera da reforma trabalhista. Precisamos acima de tudo de um pouco mais de flexibilidade.

[PE] - A reforma tributária também é uma preocupação?
Reck -
Na Facisc, estamos conscientes de que são urgentes três reformas: trabalhista, tributária e política. E nós solicitamos às bases para saber qual a opinião das associações e dos empresários a elas associados sobre o que deve constar em cada uma dessas reformas. Queremos estar com esse trabalho pronto em breve e cada representante nosso no Congresso Nacional vai receber uma compilação dessas sugestões. A Confederação das Associações Empresariais do Brasil (CACB) tem um movimento no mesmo sentido, de forma que o Congresso receberá manifestações do país inteiro.


[PE] - As mudanças na Previdência, da forma como estão sendo propostas, agrada ao meio empresarial?
Reck -
Tudo que é mudança tem que ser questionado, discutido. Essa é a essência do associativismo: pessoas com ideias e concepções diferentes, debatendo e, juntas, construindo uma solução boa para todos. É o que queremos. Em todas as reformas queremos estar juntos para tentar construir um meio termo. Nem tantos direitos e nem tantos deveres, mas condições de segurança ao empresariado e oportunidade de emprego ao trabalhador. Mas, quando se fala em equalizar, ou seja, setor público e setor privado com as mesmas regras previdenciárias, soa bem para nós. Também defendemos a idade mínima, mas não sei se estipular em 65 é o melhor caminho. Tem que discutir muito. Mas há um consenso entre os empresários que a reforma da Previdência também é uma necessidade, até como forma de efetivação dos direitos adquiridos do contribuinte.

[PE] - Uma vez que a Facisc aglutina comércio, indústria e prestação de serviços, como o senhor avalia o momento atual?
Reck -
Basta ser empresário para se associar ao nosso sistema. Por isso somos um bom termômetro do que acontece na economia do estado. Houve o fechamento de algumas empresas, principalmente em comércio e serviços, e algumas regiões tiveram mais problemas que outras. Mas ainda estamos finalizando o levantamento sobre isso. O que posso afirmar é que não é nada muito significativo porque, normalmente, o empresário que está no Sistema Facisc tem acesso a mais informações e consegue tomar decisões preventivas. A informação é a melhor prevenção. Estamos trabalhando bastante nas bases e as nossas associações empresariais estão fazendo um trabalho muito bom junto aos núcleos setoriais e multisetoriais, trazendo o empresário para dentro das associações, dando cursos, orientações, verificando as dificuldades de cada região e promovendo soluções em conjunto. Isso explica a baixa taxa de mortalidade dentro do nosso sistema. Representamos 34 mil empresas das quais pelo menos 60% são micro e pequenas empresas. E é esse segmento que mais sofre.

[PE] - O que explica isso?
Reck -
São empresários com um pouco mais de dificuldade na gestão. Quando falo que nossas associações estão fazendo um trabalho bom de base e que isso reduz o risco de encerramento de empresas, é justamente porque nos preocupamos com a formação do empresário. Se as micro e pequenas são um pouco mais frágeis de um modo geral, por dificuldades na gestão, aquelas associadas ao Sistema Facisc têm mais resistência pelo trabalho que desenvolvemos.

[PE] - A partir dessa análise, como o senhor projeta 2017?
Reck -
Temos que começar a analisar por 2016. Comparativamente, Santa Catarina esteve melhor que as demais unidades da federação. Mesmo assim, é inegável que houve um grande grau de dificuldade. No final do ano verificamos uma pequena tendência de melhora, mas nada que empolgue. Para 2017, temos que considerar, por exemplo, algumas posições do governo do Estado, como não aumentar impostos. Isso foi extremamente importante para o empresariado e a população como um todo. Por isso estamos com uma expectativa para 2017 um pouco melhor que outros estados. Estive em Brasília, para uma reunião da CACB, com representantes de todos os estados, e ficou claro que vivemos um momento muito mais positivo que outros estados. Vários manifestantes de outros estados vieram dizer que tinham inveja de Santa Catarina. Estávamos ao lado de empresários de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, estados grandes que estão com uma situação muito complicada. Para piorar, os governos estão aumentando impostos. Aqui percebemos tendência de melhora, ainda que nada excepcional.

[PE] - E como o empresário deve se comportar?
Reck -
Nós não podemos esperar grandes mudanças do governo federal. O nosso empresário tem que se reinventar. É nessa tecla que estamos batendo! Precisamos participar do associativismo, estar presentes nos eventos das associações que têm como meta justamente preparar o empresariado, permanentemente, para enfrentar o mercado.

[PE] - Nesse sentido, a Facisc tem um trabalho importante, o Desenvolvimento Econômico Local (DEL). Já há resultados?
Reck -
O DEL é uma metodologia alemã, que fomos buscar em Essen. Trouxemos para o nosso estado e adaptamos à nossa realidade e hoje já está implantado em 16 municípios catarinenses. O grande diferencial é pensar os municípios a médio e longo prazo e envolver mais pessoas, voluntárias, nesse processo. Quando isso começa a acontecer, a tomada de decisões é conjunta e tende a ser mais eficiente, porque há uma multiplicidade de conhecimentos e opiniões de lideranças. Isso dá respaldo aos prefeitos, por exemplo. No momento em que há interesse, a Facisc vai ao município e começa a implantar o DEL, com base em pesquisas. Já temos mais de mil voluntários, quase 80 câmaras técnicas instaladas e mais de 480 conselheiros. Fraiburgo, Itá, Seara e Quilombo foram os primeiros. Itá, por exemplo, deu um salto em turismo, um dos efeitos do DEL. Fraiburgo é outro exemplo. Há algum tempo só se falava em maçã e agora há uma diversificação na matriz econômica local. Hoje a dependência da maçã já é menor. Enquanto os políticos pensam para quatro ou, no máximo, oito anos, o DEL pensa para 20, 25 anos.

[PE] - O senhor está no segundo mandato, que acaba em setembro. Suas metas foram alcançadas?
Reck -
Até setembro, final do meu período, vou passar por todas as associações empresariais. Esse é um dos resultados do nosso trabalho: presença constante nas associações. Um dos grandes objetivos era a construção da nossa sede própria, o que estamos fazendo em parceria com a Acats (Associação Catarinense de Supermercados) na área continental de Florianópolis. Outro avanço do meu período é que conseguimos um fortalecimento e das associações, agora mais representativas diante da sociedade. Todos os movimentos importantes nos municípios envolvem as associações empresariais. As pessoas, nesse momento de crise, estão percebendo que o associativismo e a troca de informações que ele promove deixa o conjunto mais forte. Trabalhamos bastante para ampliar o Programa Empreender e os núcleos setoriais. São mais de 500 no estado e o princípio é que, mesmo sendo concorrentes, temos problemas comuns, e as saídas para esses problemas podem ser encontradas pelo conjunto dos empresários de cada setor. Esse movimento cresce todos os dias, com reuniões periódicas e acompanhamento de consultores preparados.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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