[Pelo Estado] Entrevista Presidente da Fecomércio-SC Bruno Breithaupt - 06/08/2016

06.06.2016

“Aumento da carga tributária deve ser descartado”

Confiança e cautela: essas duas palavras dominaram o vocabulário dos empresários em todo país. A primeira, pela falta - que respingou nos investimentos e no enxugamento das vagas. A segunda balizou o comportamento do consumidor, que comprou menos diante do crédito caro, endividamento e juros altos. Em Santa Catarina não foi diferente. Embora o tombo tenha sido menor por aqui, o estado amargou números bastante negativos: de acordo com o índice de atividade do Banco Central, a economia catarinense retraiu 3,9% em março de 2015, enquanto que a brasileira recuou 6,6%. O desemprego chegou a 6%, diante da média nacional de 10,9%. Mesmo neste cenário conturbado, o presidente da Fecomércio-SC, Bruno Breithaupt, acredita no DNA empreendedor, indicadores diferenciados e economia diversificada, que podem ajudar o estado a sair na frente na retomado do crescimento. “Em Santa Catarina, a crise é sem s”, afirma nessa entrevista exclusiva que concedeu à Coluna Pelo Estado. Ele está na segunda gestão como presidente do Sistema Fecomércio-SC/SESC/SENAC (2010-2014 e 2014-2018) e é diretor-secretário da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Os setores representados pela Fecomércio-SC respondem por 62,4% do PIB do estado e por 70,3% da arrecadação do ICMS atual, além de empregarem 1,4 milhão de pessoas.

 

 

[PeloEstado] - Sob a ótica dos setores representados na Fecomércio-SC, como o senhor avalia o momento do país?

Bruno Breithaupt - O atual momento é de incertezas por conta do esgotamento de um antigo modelo econômico que rendeu seus frutos, mas que se saturou quando os gastos superaram a capacidade de financiamento da economia, a inflação se elevou e os investimentos arrefeceram. Diante disso, o clima atual é de fim de um ciclo, mas sem uma definição clara do que virá do futuro. Aí surge a oportunidade, pois é o momento propício para o setor buscar destravar suas principais bandeiras, como a reforma tributária e a trabalhista.

 

[PE] - Qual a sua expectativa para a retomada do equilíbrio e do crescimento econômico?

Breithaupt - O principal desafio deste novo governo é a retomada da confiança na economia, com uma política voltada ao crescimento do mercado interno, acesso ao crédito, juros em queda, inflação em níveis aceitáveis, elevação da capacidade de investimento e produtividade. Com a chegada de Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda, que já deu sinais que a busca pelo equilíbrio fiscal será a tônica do governo, a expectativa é que Temer anuncie uma nova pauta que permita recuperar os empregos perdidos, reverter o saldo negativo de empresas fechadas e a compressão das margens de lucro em decorrência da queda do volume de vendas.

 

[PE] - Que medidas considera essenciais para que isso ocorra?

Breithaupt - O fundamental é dar estímulos à iniciativa privada e assim elevar a produtividade da economia. Com isso, a inflação tende a se estabilizar, os salários poderão crescer de maneira sustentável, garantindo o crescimento do mercado interno, e os juros poderão rumar a patamares condizentes aos praticados no mercado internacional, irrigando a economia com mais crédito, motor essencial para o dinamismo econômico. O aumento da carga tributária deve ser descartado pelo novo governo, visto que penalizaria ainda mais o setor produtivo. Também é necessário racionalizar o gasto público, a inflação e os juros básicos.

 

[PE] - Como a crise tem sido percebida pela Fecomércio-SC?

Breithaupt - Os empresários enfrentaram, em 2015, um dos anos mais amargos da história recente, quando ficou evidente o efeito dominó da recessão. O recuo na renda da população e a restrição ao crédito impactou no consumo das famílias e, consequentemente, no faturamento das empresas. Com queda recorde no volume de vendas, o varejo catarinense fechou mais de 5,5 mil lojas no ano passado, impactando também no mercado de trabalho. Por funcionar como um grande empregador, o setor é pilar vital para a manutenção do menor nível de desemprego no país. O indicador aumentou neste primeiro trimestre para 6%, mas permanece o mais baixo entre as federações. Em Santa Catarina, a crise é sem ‘s’. Somos uma legião de empreendedores determinados a superar este cenário conturbado, movidos por inovação, criatividade e estratégia. O estado ainda tem o diferencial de abrigar economia diversificada e ter distribuição de renda mais equilibrada, dois fatores que nos colocam à frente de outros mercados.

 

[PE] - Recentemente, a entidade lançou mais uma Agenda Política e Legislativa. O que o senhor destaca nesse trabalho?

Breithaupt - A quarta edição da Agenda Política e Legislativa do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina foi lançada em um momento bastante propício: o primeiro dia do novo governo Temer.  A publicação intitulada “Da agenda da crise à agenda do crescimento” elenca os principais temas para a recuperação do país e o raio-x do trabalho legislativo desenvolvido pela Federação na Assembleia. Este momento evidencia o papel essencial da participação social na política e a agenda reforça justamente a necessidade de uma atuação conjunta com o parlamento para fazer Santa Catarina e o Brasil voltarem a crescer, criando empregos e gerando riquezas. Em 2015, a Fecomércio-SC monitorou, atuou e contribuiu com diversas matérias nos mais variados segmentos. Das 648 proposições legislativas apresentadas, a Federação elegeu 111 para acompanhar por serem consideradas potencialmente impactantes às empresas do setor terciário.

 

 

Em um dos momentos mais emblemáticos da história política e econômica do Brasil, Blumenau reuniu cerca de 1.500 lideranças sindicais de Norte a Sul do país no 32º Congresso Nacional de Sindicatos Patronais, promovido pelo Sindilojas Blumenau, com apoio da Fecomércio-SC e Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Articulação política, novos rumos da economia e qualificação da linha de frente dos sindicatos deram a tônica do evento realizado de 25 a 27 de maio, no Parque Vila Germânica, com a participação de 16 federações e representantes do setor terciário.

Um dos anfitriões do evento, Bruno Breithaupt afirmou que os empresários são peças-chave para a retomada da confiança, do investimento, do emprego e do desenvolvimento econômico e social do país: “Este é um momento de articulação entre os representantes do setor que mais emprega e movimenta a economia”.

Menor índice de desemprego no Brasil, controle das despesas públicas, economia diversificada e indicadores sociais entre os melhores do país foram alguns dos diferenciais de Santa Catarina apresentados pelo governador Raimundo Colombo. Ele foi intensamente aplaudido pelo público no momento em que reafirmou o compromisso de não aumentar a carga tributária, pauta considerada prioritária pelo setor.

“Aumentar impostos não é o caminho. Precisamos de uma reação imediata na nova equipe econômica para o ajuste das contas públicas. Em Santa Catarina fizemos mudanças na Previdência estadual para diminuir a folha. Reduzimos os custos dos serviços e estamos perto de um entendimento da renegociação da dívida. Nos próximos meses vamos compactar órgãos para enxugar a máquina pública”, pontuou.

Os próximos passos no Executivo serão essenciais para o Brasil recuperar o rumo do crescimento, conforme o economista-chefe da CNC e ex-diretor do Banco Central, Carlos Thadeu de Freitas. Para ele, as incertezas no governo impactam na volatividade e pessimismo do mercado: “Se tivéssemos uma economia bem gerida e com mais autonomia nos últimos anos, não estaríamos nessa situação hoje. A conta chegou e agora está sendo paga. Mas, dependendo da credibilidade que o novo governo passar ao mercado, podemos ter um segundo semestre melhor”, afirma Freitas.

Editado por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br
Fotos: Fecomércio-SC

Visualizar todos