[Pelo Estado] Entrevista Presidente da Fecomércio-SC, Bruno Breithaupt

22.05.2017

“As incertezas em Brasília freiam os investimentos”

"A duplicação da BR-470 é uma das obras de infraestrutura mais urgentes para o escoamento da produção catarinense."

 

Desde 2010 preside o Sistema Fecomércio-SC, que engloba o SESC-SC e o Senac-SC. O sistema representa 70 sindicatos dos setores de Comércio de Bens, Serviços e Turismo que, somados, respondem por 63,5% do Produto Interno Bruto (PIB) de Santa Catarina e 1,4 milhão de empregos. É diretor-secretário da Confederação Nacional do Comércio (CNC), membro dos Conselhos do Comércio e Indústria Breithaupt S.A., da Associação Comercial e Industrial de Jaraguá do Sul (ACIJ), das Federações Empresariais (Cofem-SC), e ainda dos Conselhos Deliberativos do Sebrae-SC e da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing (ADVB-SC). Breithaupt concedeu entrevista exclusiva para a Coluna Pelo Estado durante a qual falou sobre os primeiros sinais de recuperação da economia, justificou as reformas apoiadas pela entidade e exigiu celeridade na duplicação das BRs 470 e 282.

 

[PeloEstado] - Estamos quase na metade do ano. Como tem sido até aqui para os setores representados pela Fecomércio-SC?
Bruno Breithaupt - Depois de dois anos de economia combalida, começamos a esboçar a recuperação no Brasil. O comércio de bens, serviço e turismo sentiram no caixa a queda na renda da população e a restrição do crédito, além do desemprego histórico, que atingiu todos os setores. Até aqueles segmentos considerados “blindados”- como supermercados e medicamentos - congelaram o faturamento, fecharam as portas ou enxugaram o quadro de funcionários.
Uma série de indicadores econômicos sinaliza para novos cenários, mas a consolidação dessas mudanças ainda depende da questão política. O país passa por uma turbulência e uma crise institucional sem precedentes na história. As incertezas em Brasília freiam os investimentos e as reformas estruturantes, impactando no mercado financeiro interno e externo.

[PE] - Que indicadores demosntarm que estamos em um momento de recuperação?
Breithaupt -
Os dados do primeiro trimestre reforçam a tendência de retomada do comércio. A expectativa é que o ambiente de negócios esteja mais estável no segundo semestre deste ano
Santa Catarina teve crescimento de 10,7% no volume de vendas neste período e posiciona-se hoje como o estado que mais se recuperou em 2017 no país. Em março tivemos a quinta variação positiva (15,2%).
Mesmo que tímidas, a queda nos preços e a recuperação de postos de trabalho trazem um ar mais otimista para o setor e começam a devolver o poder de compra das famílias.
Nossa diversificação econômica faz com que o estado seja um grande empregador. Em abril, Santa Catarina voltou a gerar empregos formais: entre demissões e contratações, o saldo foi positivo em 1,8 mil vagas com carteira assinada. Apesar do desempenho negativo de março, com fechamento de 4,6 mil postos de trabalho, fevereiro havia registrado o melhor resultado nos últimos três anos.

[PE] - Há muitos registros de fechamento de empresas? Algum segmento ou região chama mais atenção?
Breithaupt -
O tombo no ano passado foi o maior dos últimos 15 anos: queda de 5,1% nas vendas e 5.440 estabelecimentos fecharam as portas. O número, porém, é um pouco menor do que 2015, quando 5.621 encerraram as atividades. Os segmentos mais dependentes das compras a prazo foram os mais afetados.
É o tal do “menos pior”. Em 2016, Santa Catarina foi o estado menos afetado que mercados consolidados como São Paulo (30,6 mil lojas) e Rio de Janeiro (11,1 mil) e ficou à frente dos dois estados vizinhos, Paraná (8.309) e Rio Grande do Sul (7.735).

[PE] - A Fecomércio-SC teve papel preponderante em assuntos que têm gerado grandes debates. Por que a entidade defende a:
Reforma da Previdência?
Breithaupt -
por acreditar que é elemento-chave para equalizar o déficit fiscal do Brasil, garantir a redução dos juros e a retomada da economia brasileira de maneira sustentada.

Reforma Trabalhista:
Breithaupt - a modernização da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) é bastante positiva para o país, visto que a atual legislação data da década de 1940 e reflete uma realidade econômica diferente da atual.

Terceirização:
Breithaupt -
a terceirização permitirá a flexibilização e a modernização das relações de trabalho no Brasil. A ampliação do período de contratação de temporários, hoje restrito a três meses, deve afetar principalmente os setores representados pela entidade, como o comércio, serviços e turismo. As medidas trarão maior segurança jurídica aos empregadores e empregados, regulamentando uma prática já existente nas relações de trabalho, especialmente nas atividades que dependem da sazonalidade.
No início deste mês, convidamos o relator do projeto, o deputado federal Laércio de Oliveira, vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), para apresentar os principais pontos da Reforma Trabalhista e a lei que regulamenta a contratação de terceirizados em todas as atividades. Estamos estudando os textos para orientar os sindicatos e empresários.

Reforma do Ensino Médio:
Breithaupt -
O novo modelo de ensino médio integral, que está sendo adotado no Brasil, já está em operação em Santa Catarina como projeto-piloto.
Temos bons indicadores de educação, mas ainda estamos longe de ser uma referência se comparados aos melhores do mundo. Na Finlândia, por exemplo, 58% dos estudantes de ensino médio fazem curso técnico. No nosso país, o índice é de 11%.

[PE] -  Ainda falando de educação, a Federação aderiu recentemente ao programa Novos Caminhos. Qual foi a motivação e o que esse programa oferece?
Breithaupt -
O programa de apoio e qualificação profissional faz parte do Movimento Santa Catarina pela Educação, que a Fecomércio-SC aderiu em 2015. A iniciativa já atendeu mais de 650 adolescentes que vivem sob a tutela do Estado, em 76 municípios catarinenses. Novos Caminhos é uma porta de acesso ao mundo do trabalho, geração de renda e participação social.

[PE] - Outra ação constante da Fecomércio é a busca por competitividade, o que passa pela situação das rodovias que cortam o estado. Como está essa questão e que ações estão em andamento?
Breithaupt -
A Federação apoia o Comitê da Duplicação da BR-470, liderado pelo Sindilojas de Blumenau, para acelerar a duplicação da rodovia que corta o Vale do Itajaí. O trecho entre Navegantes e Indaial é uma das mais importantes vias de acesso ao Porto de Itajaí e ao Porto e ao Aeroporto de Navegantes.
Esta é uma das obras de infraestrutura mais urgentes para o escoamento da produção catarinense e impacta diretamente na competitividade do estado. A situação de sobrecarga e de má condição da rodovia ocasiona atrasos nas entregas de mercadorias, sem contar os riscos a que está sujeita a população em estradas cujo tráfego está acima de sua capacidade. A BR-282, na região Oeste, também necessita de duplicação por estar em uma região nevrálgica para exportação em Santa Catarina.

[PE] - Recentemente, o senhor esteve em missão empresarial a Cingapura e à Suécia. O que mais chamou sua atenção? O que o senhor conheceu nesses países que deveria ser aplicado com urgência no Brasil?
Breithaupt -
Desde o início de maio tive a oportunidade de mergulhar em duas realidades bastante distintas nas Missões Cingapura, voltada à educação, e Suécia, focada em inovação e sustentabilidade.
Em Cingapura o discurso do ministro da Educação tem força de lei, tamanho o peso da pasta na economia e desenvolvimento local. Conhecemos uma das referências no país asiático: o professor Lee Sing Kong, diretor do Instituto Nacional de Educação (NIE), considerado o líder da mudança na capacitação de docentes.  Queremos “importar” esta expertise e já firmamos uma parceria para a formação de professores de ciências e matemática. Eles lideram o ranking de 2015 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), da (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), nestas duas categorias.
O tão falado ‘estilo nórdico’ de fazer negócio, que tornou a Suécia uma das economias mais competitivas e diversificadas do mundo, é pautado na ‘tríplice hélice’, ou seja, interação entre universidades, empresas e governo para criar um ecossistema inovador.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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