[Pelo Estado] Entrevista Presidente da FIESC, Glauco José Côrte - 12/12/2016

12.12.2016

“É o investimento, sempre, o motor da economia”

A cada final de ano, o presidente da Federação das Indústrias (Fiesc), Glauco José Côrte, reúne a imprensa para fazer uma avaliação do período que se encerra e projetar o próximo. Nesse difícil 2016 não foi diferente. Na tarde de quinta-feira (08), ele apresentou um balanço da economia, com foco na indústria catarinense, e antes mesmo do início da exposição dos números já tinha uma conclusão: as turbulências políticas ditaram o desempenho econômico em 2016. “Pelo terceiro ano sucessivo a situação afetou muito o desempenho da nossa economia.” Ao finalizar a apresentação, o presidente da Fiesc observou que em nenhum outro momento a iniciativa privada dependeu tanto do governo. “Não em termos de subsídios, mas em reformas que conduzam a um cenário mais favorável, sobretudo para investimentos.” Como exemplo, citou as propostas que já estão no Congresso Nacional, como a que limita os gastos públicos e a reforma da Previdência. “Aguardamos encaminhamentos na área da relação trabalhista, não para retirar direitos, mas para valorizar as negociações entre empregador e trabalhador. É preciso que o governo dê seguimento também ao Programa de Concessões que tem condições de atrair principalmente investimentos externos. Há uma expectativa do empresário industrial lá de fora de voltar a investir no Brasil, dependendo do encaminhamento favorável das reformas já anunciadas pelo governo, mas que ainda precisam ser implementadas.” Reproduzimos aqui a entrevista por temas. A íntegra está em www.centraldediarios.com.br/cnr

 

 

Panorama macroeconômico

O acumulado do Produto Interno Bruto (PIB) nacional apresentou uma queda de 4%, acumulada entre janeiro e setembro, enquanto o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação, até outubro, ficou em 7,87%. Isso significa um aumento na taxa real de juros, que está em 13,75%. O que é preciso destacar é que o PIB cai (-2,9% no terceiro trimestre de 2016 em comparação com o mesmo período de 2015), o consumo das famílias cai (-3,4%, em igual comparação), o investimento cai (-8,4%), mas os gastos do governo não caem. No primeiro trimestre foi -0,8%, no segundo -0,5% e no terceiro ficou em -0,8% novamente. Isso mostra que o governo tem muita dificuldade de comprimir suas despesas.

Quando analisamos a evolução do PIB medida pelo Banco Central, a queda de Santa Catarina é da ordem de 2,9% e do Brasil de 4,9%. Nós temos um desempenho, portanto, melhor do que a média e isso vai se refletir em todos os principais índices que medem o comportamento da indústria catarinense.

Em relação aos investimentos, temos o recuo na importação de máquinas e equipamentos e na própria construção civil. Esse é um dos dados mais representativos para explicar a dificuldade que a nossa economia está tendo de reagir. Faltam investimentos e é o investimento, sempre, o motor da economia.

Produção, vendas e capacidade instalada

É possível perceber que tivemos um ano melhor em 2014 do que 2015 e 2016 em termos de produção, tomando como parâmetro o período de 2012 que, segundo o IBGE, não tivemos crise ou qualquer fato atípico. Em 2016, nós já entramos com uma defasagem de 22 pontos em relação a janeiro de 2012. No mês de junho, alguns índices apresentaram comportamento melhor em 2016 sobre 2015.

Em termos de vendas da indústria, tivemos uma queda de 11% em Santa Catarina, inferior à média brasileira que, no mesmo período de janeiro a outubro, caiu 13%. Quanto à utilização da capacidade instalada, Santa Catarina está utilizando quase 80%, quanto a média brasileira está em 77,9% (outubro). É interessante essa observação porque nós temos, ao mesmo tempo, queda na produção, queda nas vendas, mas o industrial catarinense procura manter a sua indústria em operação. E isso vai explicar, de certa forma, o comportamento positivo que a indústria da transformação de Santa Catarina tem na geração de empregos.

Só dois estados brasileiros tiveram crescimento na produção industrial: Pará e Mato Grosso, muito influenciados pela exploração de minério e pela produção de grãos. Mas, entre os estados que tiveram queda na produção, Santa Catarina foi o que menos caiu. Nossa queda foi de 4,2%, Rio Grande do Sul ficou em 4,6% e o Paraná 6,8%. (O pior resultado foi do Espírito Santo, -22,3%). Mesmo com toda a pressão sobre a economia, Santa Catarina ainda se manteve acima da médica brasileira, cuja queda foi de quase 8%.

Para estimular vendas, é preciso estimular consumo, algo difícil em um cenário de juros altos, inflação alta, desemprego e redução do ganho real do trabalhador. Só há uma saída: retomar investimentos. Até porque não há economia que se sustente só com consumo. Precisamos gerar novas oportunidades para ampliar o quadro de trabalho, movimentar as indústrias. Por isso eu digo que o governo tem que efetivar o Programa de Concessões, pois não tem dinheiro para investir sozinho. E devemos estimular parcerias entre empresas brasileiras e estrangeiras para isso.

Setores industriais

Nossa conformação industrial é muito favorável quando comparamos com outros estados. Santa Catarina tem a indústria de transformação mais diversificada do país e também desconcentrada, uma vez que está presente em todas as regiões. Em todos os lugares nós temos indústrias e predominantemente pequenas e micro empresas.

Segmentos industriais que tiveram crescimento, como o de Alimentos (3,9%) e o de Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos (4,5%) têm uma participação importante na formação do PIB industrial (de 15% e 7%, respectivamente). Por isso, no desempenho médio industrial brasileiro o estado se saiu um pouco melhor. Sobre Alimentos, vale dizer que sempre foi um setor de ponta em relação ao mercado interno e às nossas exportações. A Fiesc tem chamado a atenção para a necessidade de o governo ter um olhar um pouco mais cuidadoso em relação à situação do Oeste, que concentra a produção, uma vez que nós dependemos de insumos e matérias primas que não temos em quantidade suficiente em Santa Catarina e temos que importar.

Comércio Exterior

Estamos com uma participação de 4,1% nas exportações brasileiras e somos o oitavo estado no ranking dos estados que mais exportam. No caso das importações, nossa participação sobre o total brasileiro é de 7,5% e somos o quarto estado em volume de informação. Nós já tivemos uma participação um pouco melhor no ranking dos estados exportadores. Por volta de 2003 e 2004 nossa participação era de 5%. Por conta da perda de competitividade, caímos para 3,5% em 2001, mas recentemente iniciamos um processo de recuperação e em 2015 já fechamos com 4%. O dado mais radical que vamos encontrar nas importações é que no mesmo ano, de 2004, representávamos 2,4% das compras brasileiras e no ano passado terminamos com 7,4%. Essa participação expressiva de Santa Catarina sempre causa surpresa, mas é bom lembrar que poucos estados têm a estrutura portuária que temos aqui – cinco portos, sendo dois inteiramente privados, que têm um bom nível de operação. Por aqui passam quase 25% do total dos contêineres exportados pelo Brasil, o que significa que nossos portos recebem produtos de outros estados para saírem daqui para o exterior. Da mesma forma, nos últimos anos houve um programa de incentivo às importações pelos portos catarinenses. Já chegamos a ocupar o quinto lugar no ranking dos estados exportadores, fechamos o ano passado em décimo e neste ano começamos um processo de recuperação. A valorização do dólar tornou nosso produto mais caro para a exportação, mas, por outro lado, abriu espaço para a produção local. Produtos que antes eram importados passaram a ser feitos no Brasil, o que já se percebe no setor de vestuário.

Os Estados Unidos tomou posição mais vigorosa de liderança e 16% de tudo o que exportamos tem como destino aquele país. A China representa 12%, a Argentina, 6%, teve uma queda, mas conhecemos bem as dificuldades que as empresas brasileiras tiveram de exportar para lá em função da restrição a produtos estrangeiros, a Rússia representa 5% e o México, 4%.

Os principais produtos da nossa pauta de exportação são a carne de aves, a soja e carne suína, que teve um crescimento substancial. Registramos queda nas vendas externas de fumo e de bombas de ar e compressores, produto tradicional e expressivo em nossa pauta de exportação. Chamou a atenção a exportação de carne suína, que teve um desempenho muito expressivo. Para a China, de janeiro a outubro do ano passado, saímos de uma exportação de US$ 5,5 milhões para quase US$ 163 milhões, crescimento de quase 3 mil%, um fator muito importante para o desempenho da nossa balança comercial. Para o Chile o aumento foi de 183%, para a Argentina, de 85%, Hong Kong, 33%, e Cingapura, 12%. A carne suína passou a ter uma representatividade bastante importante na nossa pauta de exportação.

Empregos

Talvez um dos dados mais expressivos sobre o desempenho da indústria catarinense seja a questão do emprego. Em pouquíssimos estados a indústria de transformação gerou empregos no período. Saldo positivo só em Goiás, com menos de 800 postos, em Roraima, com menos de 40 postos, e em Santa Catarina o saldo foi de 5.146 postos abertos de janeiro a outubro de 2016, liderando, novamente, a geração de empregos no país (São Paulo fechou 51 mil postos e o Rio de Janeiro fechou 28,8 mil. Foram os piores resultados). Quero associar esse dado com aquele da produção, que apesar da queda das vendas e da produção, nosso industrial apresenta confiança na recuperação da economia, tanto que gerou empregos nesse período. Os setores que mais abriram vagas de janeiro a outubro foram Têxteis e Confecções, que volta a ocupar espaços que antes eram dos importados, e Metalmecânico e Metalurgia. Em contrapartida, entre os setores que mais fecharam postos de trabalho, em primeiro lugar está a Construção Civil e, associado a isso, o setor Cerâmico.

 

Índice de Confiança

É crescente ao longo dos últimos meses e é melhor do que era em 2014 e 2015. O nosso empresário industrial está considerando que os próximos meses serão melhores. Enquanto as condições atuais receberam índice de confiança de 46,6 pontos, as expectativas estão em 56 pontos (o índice varia de 0 a 100, sendo acima de 50 confiança e abaixo de 50, falta de confiança na economia). Apesar de 2016 ter sido um ano difícil, terceiro de uma série, o industrial acredita que 2017 será mais favorável. A crise mais aguda aconteceu em 2015. E 2017 deve ser considerado como um ano de transição.

Lembro que o crescimento da economia catarinense é muito dependente do setor industrial. Aqui, na região Sul, diferentemente do restante do país, em que a indústria tem participação de menos de 20% no PIB, aqui nós temos 30%. Ou seja, um terço da riqueza de Santa Catarina provém do setor industrial. Portanto, quando a indústria não está bem, o estado sente essa contração e tem mais dificuldade para crescer. E por isso o investimento em obras de infraestrutura é muito importante, até porque um dos aspectos que freiam nosso crescimento está relacionado com o setor da construção civil. Praticamente nenhum investimento novo em 2016 e os que estão em curso têm atrasos ou prazos expirados. O governo tem que fazer um grande esforço no sentido de retomar os investimentos para que a construção civil possa ser reativada em termos de obras de infraestrutura, uma vez que a construção de prédios e casas deve demorar um pouco mais.

 

Regiões

Nós temos a região Oeste ainda com um bom desempenho, em função da Agroindústria, e apesar de todas as dificuldades. Tem uma economia mais dinâmica e tende a manter essas características. O Norte do estado sente a contração do setor automobilístico. Temos ali um dos mais completos e eficientes setores Metalmecânico e de Autopeças, que está sentindo os efeitos da crise, mas está preparado para reagir. Móveis e Madeira, em parte da região Norte, Centro Oeste e Planalto, está com bom desempenho. O Vale do Itajaí vive uma recuperação em função do Vestuário que ocupa um espaço que antes era dos importados. O Sul enfrenta algumas dificuldades em função do carvão, que é uma riqueza que não podemos deixar de utilizar. Mas a região se diversificou e teve avanço do setor de confecções. Por outro lado, a indústria Cerâmica, que reagiu muito bem nos últimos três anos, agora vive um recuo, porque a cerâmica entra sempre no fim das obras. E esse ciclo terminou. Precisamos esperar projetos novos, o que deve levar uns dois anos. Mas o setor recuperou posições em exportação.

 

Mensagem final

O industrial catarinense tem sempre um espírito empreendedor muito aguçado e deve continuar fazendo o que tem feito nos últimos anos, buscando inovação, melhorando a qualidade de seus produtos e seus processos, mantendo a mente aberta para o que está acontecendo no mundo.

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