[Pelo Estado] Entrevista Presidente da Santur, Valdir Walendowsky - 05/12/2016

05.12.2016

“Não existe turismo sem transporte e infraestrutura”

"Somos o terceiro receptivo do país, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, e não recebemos a atenção equivalente."

Presidente da Santa Catarina Turismo S.A. (Santur), desde janeiro de 2011, é um dos nomes mais reconhecidos do setor no estado e no país, e responsável por manter em alta o fluxo de visitantes para o estado. Valdir Walendowsky concedeu essa entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado para falar das expectativas com a próxima temporada de verão. Apesar de tudo apontar para crescimento em relação ao verão 2015/2016, ele prefere ser conservador ao estimar a chegada de 20% mais turistas vindo de países do Mercosul. E ainda poderia ser melhor, se não fosse a falta de aeroportos, terminais marítimos e rodovias dimensionadas para um estado com tamanha vocação turística: “É o nosso maior problema. Não existe turismo sem transporte e infraestrutura. Temos que ter meios mais rápidos e mais eficientes de chegar”. Walendowsky é natural de Brusque, cursou Engenharia Civil (FURB) e Administração de Marketing (Unisul). Começou a atuar na área desde 1980, na prefeitura de Brusque. E pela segunda vez exerce o comando da Santur. O primeiro período foi de 2007 a 2010.

[PeloEstado] - Como foi o ano de 2016 para o Turismo de Santa Catarina?
Valdir Walendowsky -
O ano começou com uma temporada de alto fluxo de brasileiros e crescimento acentuado de oriundos do Mercosul, principalmente pela relação do dólar com o real, que favoreceu a vinda de estrangeiros. Foram oito milhões de visitantes, entre regiões do estado, de outros estados e de outros países. Santa Catarina é um estado que tem excelentes produtos turísticos de Sol & Mar e a maior temporada, em qualquer lugar do mundo, é a de verão. Mas o ano foi bom mesmo nos demais meses. Nos destinos do inverno, nas águas termais, nos roteiros de vinho e de cerveja, as festas de outubro, nos destinos religiosos, tudo isso movimentando o turismo de compras, que faz parte de todos os roteiros. Tem aí o resultado de um trabalho muito forte feito pelos Convention & Visitors Bureau (organização de instituições que promovem o turismo e a receptividade de uma cidade ou localidade para convenções e visitação de eventos e atrações diversas. Existem 12 em Santa Catarina) e os equipamentos que têm áreas de eventos maiores, que contam com departamentos comerciais e de captação bem estruturados. Existem uma movimentação pública, do Estado e dos municípios, mas a área privada precisa manter seu capital rendendo e precisa de fluxo.

[PE] - E qual é a expectativa para a temporada 2016/2017?
Walendowsky -
Estamos projetando crescimento, mas sou muito cauteloso ao falar em expectativas. O que está se percebendo com mais elementos, como contratação de voos fretados e hotéis, é o crescimento do turismo do Mercosul em pelo menos 20%. Mas não há como dizer se o nosso turismo interno vai manter um bom comportamento. Depende muito do momento econômico do Brasil e dos demais países. Ainda assim, estamos contando com um crescimento, sim. Confirmando, será uma temporada ainda melhor que a passada. O período entre o Natal e o fim da primeira semana de janeiro é o grande boom.

[PE] - Estamos preparados para esse fluxo ainda maior?
Walendowsky -
Ao longo dos últimos três anos, principalmente, têm sido feitos muitos investimentos para melhorar os sistemas de água, esgoto e energia elétrica. Em termos de segurança, já temos a melhor Operação Veraneio do país há alguns anos. E não só no litoral, mas em todos os pontos que atraem turistas.

[PE] - A Santur é a empresa responsável pela promoção do estado. O que foi feito em 2016?
Walendowsky -
Todos estão acompanhando a situação do país, dos estados e das prefeituras. Caindo o consumo, cai a receita pública. Isso, naturalmente, se refletiu em queda de orçamento para todas as pastas. No caso da Santur, de 2015 para 2016 essa perda foi de 20% e acumula em 30% nos últimos três anos, aproximadamente. Ainda assim, fizemos mídias em veículos de comunicação e em redes sociais, participamos em várias feiras de turismo no Brasil e no Mercosul e trouxemos jornalistas especializados para cá, bem como agentes e operadores de viagens, para conhecerem nossos produtos. A iniciativa privada faz muita promoção também. Na semana passada estive no Beto Carrero e tinha jornalistas do Uruguai, do Paraguai, do Chile e do Peru. Acaba sendo um trabalho em conjunto, uma parceria público-privada na prática. É assim que tem que ser. E há uma reação positiva a isso: muitas cidades catarinenses estão percebendo as oportunidades que o turismo pode gerar e estão se movimentando para melhorar suas condições de estrutura e de capacitação de mão de obra.

[PE] - Fale mais sobre isso.
Walendowsky -
Participei nessa semana (semana passada) de uma mesa de debates sobre bares, restaurantes e similares em Navegantes. É uma cidade litorânea, com potencial e que agora percebe que precisa entrar num novo contexto no conceito de turismo. Blumenau, Pomerode, Treze Tílias, Piratuba, cidades serranas... todas estão se movimentando. Hoje, por exemplo, (a entrevista foi realizada na quarta-feira, 30 de novembro) começa um festival gastronômico em Praia Grande. É a primeira vez que isso acontece. Uma cidade pequena, mas que está na base dos canyons e precisa potencializar o fluxo que já tem para beneficiar uma série de restaurantes e pousadas instaladas ali. Garopaba, Laguna e Imbituba já aprenderam a trabalhar assim e têm movimentação ao longo do ano, mesmo que obviamente menor que na temporada. As cidades estão saindo da contemplação para a ação com viés turístico.

[PE] - Há a percepção de que o turismo é um setor econômico que pode contrabalançar perdas em outros?
Walendowsky -
Há, sim. E em função disso, está diminuindo a quantidade de pousadas e hotéis que fecham na baixa temporada. Em Balneário Camboriú, pouco tempo atrás, as portas fechavam depois da Páscoa e só reabriam para as festas de outubro. A visão do empresário mudou forçada por um fluxo turístico anual.

[PE] - As obras de infraestrutura que aconteceram contribuem para o turismo?
Walendowsky -
Sem dúvida. A conclusão da duplicação da BR-101 Sul contribuiu muito. Mas entre Florianópolis e Joinville já temos problemas. Aliás, todas as BRs são um grande problema, porque são os principais eixos rodoviários do estado e de outros estados para cá. E não temos o que fazer a não ser esperar o governo federal, sempre pressionando, é claro. A solução das rodovias federais melhoraria o fluxo turístico, reduziria risco de acidentes, pouparia tempo e vidas. Se tivéssemos a BR-470 duplicada, teríamos muito mais argentinos entrando no estado e ainda mais catarinenses circulando internamente. É o caso da BR-116, da BR-163... Faltam também aeroportos decentes. Somos o terceiro receptivo do país, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, e não recebemos a atenção equivalente.

[PE] - É a maior carência de Santa Catarina?
Walendowsky -
É o nosso maior problema. Não existe turismo sem transporte e infraestrutra. Temos que ter meios mais rápidos e mais eficientes de chegar. Tivemos momentos, na última temporada, em que o trajeto entre Curitiba e Balneário Camboriú levou sete horas. Tão inaceitável quanto um visitante argentino que entrou pelo Oeste demorar de sete a nove horas, pelo fluxo e pela burocracia do registro de entrada, o que também aconteceu. Já falamos com os órgãos federais, com o Fórum Parlamentar Catarinense, com o Fórum Nacional dos Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo (Fornatur). Precisamos, Santa Catarina e Brasil, trazer mais pessoas para melhorar nosso ranking e arrecadar mais e esses entraves só prejudicam.
    Também carecemos de cadeias internacionais de hotelaria fortes e mais linhas aéreas.  Isso sem falar em terminais marítimos adequados para o turismo. Já chegamos a receber 70 navios da região e transatlânticos e agora mal chegamos a 10. Eles não vêm pela falta de infraestrutra e excesso de impostos e burocracia. O Brasil fica balançando de um lado pro outro e o investimento não vem.

[PE] - Qual o futuro da Santur?
Walendowsky -
A Santur tem 35 anos e, na mesma proporção em que o mundo mudou, precisa passar por mudanças também. Já conversei com o presidente da Embratur, Vinicius Lummertz, e vamos ver a modelagem que vai ser adotada no âmbito nacional para buscar lá o caminho que devemos seguir aqui. A Embratur está se espelhando no que foi feito nos Estados Unidos. Eles criaram uma empresa público-privada que concentra toda a promoção do país. As mudanças estão se impondo também pelo advento das redes sociais e smartphones. Temos que fazer um trabalho efetivo já a partir de 2017, mas para isso também são necessários recursos. Nesse contexto, meu trabalho é observar o mercado, comportamento e tendências, reagir adequadamente e ainda fazer fazer o elo entre o público e o privado. O foco é sempre promover a ligação para não deixar o fluxo cair. 

 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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