[Pelo Estado] Entrevista Presidente da SCGás Comes Polêse - 05/09/2016

05.09.2016

“Queremos entregar gás natural em todas as regiões”

"Há exigência de calor nas indústrias para a qualidade e a uniformidade dos produtos.

O poder calorífico tem que chegar onde as pessoas e empresas dele precisam."

 

É formado em Economia, Ciências Contábeis e Administração, com especialização em Economia e mestrado em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Sustentável. Antes de assumir a presidência da Companhia de Gás de Santa Catarina (SCGÁS), em 2011, Polêse ocupava o cargo de diretor de planejamento da Companhia de Desenvolvimento (Codesc) desde 2008, além de possuir como experiência a passagem em cargos de gestão do Sapiens Park S.A., Fundação do Meio Ambiente (Fatma), Ministério do Meio Ambiente e BESC. Nesta entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado, ele contou o que espera para o futuro da concessionária que hoje conta 135 funcionários, com sede em Florianópolis e quatro bases operacionais - Joinville, Blumenau, Biguaçu e Criciúma. Atualmente, a SCGÁS é a segunda maior distribuidora de gás canalizado em número de municípios atendidos e Santa Catarina é o terceiro estado com maior rede de distribuição de gás, em número de indústrias atendidas com gás natural e com maior rede de postos de GNV do país, atrás somente de São Paulo e Rio de Janeiro.

 

[PeloEstado] - A SC Gás vive um bom momento ou sofre as consequências da crise?

Cosme Polêse - Chegamos ao final do primeiro semestre com um lucro acumulado de R$ 82,7 milhões em 2016, 10.014 clientes atendidos e média de 1,782 milhão de metros cúbicos distribuídos por dia. O gás natural vem crescendo significativamente no mercado. Há exigência de calor nas indústrias, para a qualidade e a uniformidade dos produtos. O poder calorífico tem que chegar onde as pessoas e empresas dele precisam. Aqui em Santa Catarina, nosso contrato com a Petrobras é de 2 milhões de metros cúbicos de gás por dia, vindos da Bolívia ou mesmo de outros pontos de produção da própria empresa. A infraestrutura da SC GÁS atende parcialmente o estado.

[PeloEstado] - Por que parcialmente?

Cosme Polêse - A empresa é nova, tem 20 anos de atuação. E esse gasoduto de transporte, que traz o gás da Bolívia para cá, passou na costa catarinense, onde foram instaladas nove estações de entrega operadas pela TBG, empresa ligada à Petrobras. Nós trabalhamos a distribuição do gás a partir desses nove pontos que abrangem 63 municípios. Lamentavelmente, essa infraestrutura não passou no Oeste e tampouco no Planalto. Levar um gasoduto a partir do litoral para chegar ao Oeste exige uma elevadíssima monta de recursos. A SC Gás não trabalha com recursos públicos e sim com recursos do mercado para investimento. Recentemente entregamos o gasoduto de Rio do Sul e estamos implantando o da Serra catarinense, projeto que tende a ir para a direção do Oeste. Mas cada quilômetro desse gasoduto custa R$ 1 milhão! Um investimento muito alto diante do cenário que estamos vivendo. E não estão sendo considerados aí os custos com os ramais a partir do tronco principal.

[PeloEstado] - Quais os planos, então?

Polêse - A empresa vai continuar fazendo investimentos de acordo com a capacidade de captação de recursos e de acordo com a lógica de mercado, considerando competitividade, demanda e infraestrutura. É pilar da SC Gás, concessionária de serviço público, entregar o gás em todas as regiões do estado. Mas para isso precisamos de ferramentas. Exemplo: se tivéssemos um gasoduto passando pelo Oeste catarinense, acompanhando o traçado da ferrovia que está sendo projetada para a região. Dali poderíamos fazer a distribuição para todo o Oeste catarinense, assim como estamos fazendo no Sul. Não estamos no Extremo Sul, ainda, mas até Araranguá nós atendemos toda a região, como atendemos o Vale do Itajaí, o litoral Norte do estado...

Claro que tem GNC também, que é o gás natural comprimido, mas o custo de operação é bastante oneroso. O gás que recebemos precisa ser comprimido em um cilindro para ser transportado de caminhão para determinada região.

 

[PeloEstado] - Quais os segmentos atendidos pela companhia?

Polêse -  Atendemos prioritariamente o setor industrial e também fornecemos gás natural para o comércio, setor de alimentação, hospitais e o residencial. Não focamos na expansão do residencial, mas fizemos mais de mil quilômetros de rede de distribuição para chegar às indústrias e queremos explorar essa rede para ampliar o atendimento às residências. Tem ainda o gás natural veicular.  Hoje, em torno de 90 mil veículos usam o GNV em Santa Catarina. É muito pouco em relação à nossa frota, que passa dos 2,6 milhões de veículos. O usuário do GNV gasta a metade do que gastaria com gasolina ou diesel e obtém rendimento equivalente. Temos 132 postos de GNV em 45 municípios, igualmente no litoral, e um grande espaço para evoluir também neste segmento.
 

[PeloEstado] - Que setores hoje demandam o gás e não são atendidos?

Polêse - O setor papeleiro é um deles. Outro é o de carnes. A conversão da proteína vegetal em animal, que coloca Santa Catarina como referência internacional em carnes de frangos e suínos, não recebe gás natural. Usa GLP, usa lenha, soluções ambientalmente ruins para produtos que competem no mercado externo. Mas não temos infraestrutura para chegar lá. Temos um espaço significativo para evoluir, mas precisamos dessa infraestrutura para ofertar o energético nas diversas regiões para equalizar o atendimento. Mas preciso completar a resposta da pergunta anterior. Atendemos prioritariamente o setor industrial, mas também fornecemos gás natural para o comércio, setor de alimentação, hospitais e o residencial. Não focamos na expansão do residencial, mas fizemos mais de mil quilômetros de rede de distribuição para chegar ás indústrias e queremos explorar essa rede para ampliar o atendimento às residências. Volume para isso nós temos, mas o volume é pequeno e o retorno do investimento é mais demorado.

[PeloEstado] - Tem ainda o gás natural veicular.

Polêse - Isso. Hoje, em torno de 90 mil veículos usam o GNV em Santa Catarina. É muito pouco em relação à nossa frota, que passa dos 2,6 milhões de veículos. O usuário do GNV gasta a metade do que gastaria com gasolina ou diesel e obtém rendimento equivalente. Temos 132 postos de GNV em 45 municípios, igualmente no litoral. Temos um grande espaço para evoluir também neste segmento.

[PeloEstado] - Como interiorizar o atendimento da SC Gás?

Polêse - Para fazer chegar um gasoduto a Chapecó, a partir de Rio do Sul, teríamos que investir R$ 400 milhões. Mas podemos antecipar a interiorização do gás natural e já estamos trabalhando nisso na direção da Serra catarinense. O projeto do gasoduto entre Rio do Sul e a Serra já está sendo executado. Entretanto, lá na ponta, em Lages, vamos fazer um pequeno gasoduto dentro do perímetro urbano, de sete quilômetros, por exemplo, e vamos levar, de caminhão, o gás comprimido ou o GNL (gás natural liquefeito) para depois vaporizar. Esse gás será injetado nesse pequeno gasoduto e distribuído em rede, de forma isolada, ou seja, sem conexão com tronco principal. Assim vamos atender o mercado enquanto o gasoduto principal é construído. Quando chegar, só será preciso conectar. Aí os caminhões saem de cena e o transporte de gás fica restrito ao gasoduto. Este é o modal que estamos buscando como evolução. É uma experiência que conhecemos em Portugal e que podemos usar em nosso estado, atendendo prioritariamente as que apresentam menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e cujos municípios totalizam 1 milhão de habitantes. Levar o gás para essas regiões é dar ferramenta para o desenvolvimento.

[PeloEstado] - Quando?

Polêse - A concessão da SC Gás é até 2044. Mas já posso dizer que até lá, dificilmente, a empresa vai ter uma rede de gasoduto implantada para atender todas as regiões. Por certo, ainda haverá regiões não atendidas por gasoduto. Mas sim, provavelmente, dessa forma, com redes isoladas alimentadas por gás transportado em caminhões. Como temos 36 ADRs (Agências de Desenvolvimento Regional), na filosofia de descentralização administrativa do governo do Estado, da mesma forma queremos chegar com o gás, mesmo que de caminhão, às 36 regionais. Vou dar um exemplo de fácil compreensão: São Joaquim. Uma cidade fria e conforto térmico é o mínimo que se espera nesse momento civilizatório, inclusive para melhor explorar o potencial turístico. Ter uma rede de gás natural para atender comércio, restaurantes, hotéis, residências é uma equação necessária. Com uma rede no perímetro urbano isso se tornará possível.

[PeloEstado] - Em que etapa está esse plano?

Polêse - Estamos passando por um momento de evolução no Brasil. O modelo que tivemos até agora atendeu, mas não atende mais. Não dá para ficarmos perseguindo a chegada do gás por gasoduto. Temos que buscar inovações e esta é uma: fazer com que um porto de Santa Catarina tenha estrutura para receber navio de GNL, vindo de uma unidade de produção de qualquer parte do mundo. O volume de gás que está se produzindo no mundo é muito alto. Há uma oferta abundante, o que significa redução do preço. A partir do porto, o transporte do gás passa a ser feito de caminhão para darmos conta dessa capilaridade. Nenhum estado brasileiro apresenta essa condição. Queremos implantar essa solução em Santa Catarina. Se tivermos o GNL aqui na nossa costa, conseguiremos interiorizar a distribuição de gás natural.

As possibilidades de uso são muito amplas e o gás natural tende a ganhar uma importante fatia de mercado. Mas a SC Gás não pode ficar a reboque desse processo. Temos que ser pró-ativos e por isso estamos trabalhando nesse modal de inovação: transferir o gás para as regiões antes do gasoduto chegar.

 

[PeloEstado] -  O custo dessa solução é mais baixo?

Polêse - Sim. Fizemos uma licitação e já estamos quase que em condições de contratar. Estamos dependendo de um procedimento que está na Aresc (Agência de Regulação de Serviços Públicos), para poder fazer com que o custo dessa solução seja diluído no mix. Esperamos análise e deliberação sobre isso. O mercado não vai pagar o investimento do gasoduto ainda, mas o custo desse transporte vai onerar ao conjunto dos clientes.

[PeloEstado] -  Quando tudo isso deve ter efetividade?

Polêse - A Aresc tem demonstrado uma grande competência e tem dado bastante atenção ao gás natural. Esperamos a normatização da diluição do preço. Em paralelo, já temos licitação concluída para contratar o primeiro gasoduto isolado, em Lages. Já está licenciado, projeto aprovado, licitado, aguardando a regulação. Talvez contratemos a obra antes da definição da Aresc, mas a operação só ocorrerá depois. O custo pode ser diluído ou, lá nessas regiões, o preço ao cliente pode ficar um pouco mais caro. Mas já estamos nos antecipando.

Em dois anos, Lages vai ter gás por meio de GNC. Santa Catarina é um dos estados com mais unidades de compressão de gás e podemos fazer o transporte do gás comprimido até essa rede isolada. Não é a solução ideal, mas inclui no nosso sistema uma grande região. E cria mercado para quando o gasoduto chegar.

 

[PeloEstado] É um pouco o que vem primeiro, o ovo ou a galinha?

Polêse -  Exatamente! Você não desenvolve porque não tem gasoduto e não tem gasoduto porque não desenvolve. Temos quebrar esse paradigma. Como trabalhamos com recursos do mercado, temos que ser muito competentes com a gestão da companhia e ter cuidado para que os investimentos sejam sustentáveis. Estamos agora finalizando o nosso plano plurianual de negócios e todos os investimentos estão sendo desenhados para os próximos cinco anos. Só o projeto Serra catarinense, que vai atender a região e não só Lages, está orçado em R$ 100 milhões. Já temos a licitação de Rio do Sul a Trombudo Central pronta para executar em 2017. Dali o gasoduto vai para Pouso Redondo, Curitibanos, depois chega a Otacílio Costa, Correia Pinto e Lages. Isso levará em torno de dois anos. Depois segue pela BR-470, porque fazemos gasodutos pelas faixas de domínio das rodovias federais e estaduais e pagamos aluguel por este uso. Como tem que ser sustentável, esse projeto vai acontecer de acordo com a realidade econômica. Mas temos que atender a filosofia e a política de estado e atender regiões isoladas e com baixo desenvolvimento.

Temos que encontrar formas de democratizar o acesso ao gás por meio da interconexão de soluções, com o gás produzido em outros países, no nosso próprio país, ou em nosso próprio estado, a partir do biogás, biometano. Um combustível valioso para o qual a sociedade ainda não se despertou. Falta uma forte ação pública, federal e estadual, com subsídios, para transformação de excrementos de suínos e aves, ou até dos esgotos das cidades, que passarão de poluentes a energéticos. A SC Gás está pronta para comprar esse tipo de gás natural para injetar na rede. Mas ele precisa ser produzido. Pretendemos estimular essa produção.

[PeloEstado] - É um processo rápido?

Polêse -  A evolução está tão célere que acredito que logo vamos ver essa capilaridade acontecendo, fugindo do padrão convencional pelo qual não se consegue levar o gasoduto e aí não se tem nem ovo nem galinha. Ficar no sonho não nos levará à solução.

É absolutamente verdadeiro afirmar que tem espaço, aqui em Santa Catarina, para um terminal de GNL ancorado com uma termelétrica. Em qualquer dos nossos seis portos. Ilha da Madeira, em Portugal, é abastecida por gás em contêiner.Também é uma solução possível para as cidades não atendidas pelo gás em Santa Catarina. Dez contêineres por dia abasteceriam uma grande indústria cerâmica em qualquer lugar em que estiver. Em Canoinhas tem jazida significativa para a indústria cerâmica. Ma não tem gás. Podemos levar em contêineres para atender a cidade e o mercado industrial. O que fizermos nessa solução intermediária poderá financiar a solução definitiva.

Em 10 anos já vamos ter algumas unidades autônomas. Em cinco anos teremos em pelo menos quatro cidades, mas é preciso uma evolução regulatória também.

O gás natural vai ser o topo da matriz energética do mundo em no máximo 15 anos. Por isso precisamos nos preparar para ter a infraestrutura que nos colocará nesse novo grande mercado. Lenha vai desaparecer, petróleo vai cair muito. Em 2030, carvão, gás natural e petróleo estarão empatados no topo. Depois, só o gás cresce. As pessoas precisam perceber isso.

[PeloEstado] - O Estado brasileiro entende isso?

Polêse -  Não. Infelizmente não. Temos que nos repaginar. Vamos ter que fazer uma mudança profunda no Brasil para não perder essa oportunidade de desenvolvimento. Uma das mudanças é o desinvestimento em petróleo e o investimento em gás. O gás natural, no cenário ideal, com transporte por gasoduto, tira caminhões de GLP das estradas, melhora a mobilidade urbana, tem facilidade de gestão de estoque, entrega contínua, além das vantagens ambientais.

Vivemos, aqui na Capital, uma situação extremamente agressiva e ninguém se dá conta. Boa parte da população está na Ilha de Santa Catarina. Temos aqui uma frota superior a mil ônibus e nenhum a gás. Por que eles usam óleo diesel? Há cinco anos eu clamo por uma mudança, mas parece que não há interesse. O GLP é nocivo em tudo por tudo. Mas não se consegue destronar esse combustível.

Todos esses assuntos, toda essa máquina, é imperceptível para a sociedade. Ela clama um posto com GNV para abastecer seu carro, mas não sabe o que é necessário para isso. Tem um viés comprometido com uma filosofia de evolução com ferramentas de igualdade é algo que precisa tomar corpo. Nem o Estado sabe disso direito. Os instrumentos do Estado estão a serviço do capital, que desservem esse modelo pretendido.

Poderíamos ter um gasoduto cortando o Oeste do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. A partir desse gasoduto principal poderíamos abastecer a totalidade dos estados do Sul, porque poderiam ser feitas interligações com o que já existe no litoral. Mas não tem movimentação neste sentido. Uma solução dessa vem casada com a ferrovia. Você tem que ter o gás e a possibilidade de deslocamento do produto.

Muito mais do que fazer a distribuição nós temos que construir culturas. Fazer as pessoas entenderem que o gás natural é uma ferramenta que empodera a sociedade.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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