[Pelo Estado] Entrevista Presidente do Badesc José Claudio Caramori - 09/05/2016

16.05.2016

“Nosso foco não é ter lucro, mas gerar desenvolvimento”

Administrador de empresas e ex-prefeito de Chapecó, José Claudio Caramori assumiu a presidência da Agência de Fomento do Estado, Badesc, em janeiro. Ele recebeu a reportagem da Coluna Pelo Estado em seu gabinete para uma entrevista exclusiva, na qual falou sobre os resultados da Agência em 2015, as dificuldades das prefeituras, o esforço para apoiar os empreendedores e o interesse em fomentar a inovação tecnológica. Ele teve o auxílio do diretor Administrativo e Financeiro, Olívio Karasek Rocha, também administrador de empresas que presidiu o Badesc durante alguns meses em 2015. Caramori fez questão de destacar, mais de uma vez, as diferenças de um banco como o Badesc. “Não podemos ser confundidos com banco comercial. Não temos produtos de reciprocidade. Quando fazemos a liberação de um recurso, não associamos à venda de seguro, título de capitalização ou à operação a folha de pagamento. Nosso negócio é fomentar. É fazer com que o capital esteja a serviço do social, não por distribuição, mas transferência de renda por multiplicação do esforço.”

 

 

[PeloEstado] - O Badesc está divulgando os resultados de 2015. Foi um ano positivo?
José Claudio Caramori -
Foi um ano bom, considerando a situação econômica e política que já vem se agravando de longa data. Em 2015, nosso patrimônio líquido chegou a R$ 536 milhões e tivemos uma boa aplicação de recursos, totalizando R$ 356 milhões, entre público, privado e microcrédito, o que para o nosso tamanho eu diria que está bom. Praticamente 70% do total aplicado foi para o público e 30% para o privado. Isso reflete o momento e mostra o desespero das prefeituras num sistema municipalista que faliu. Não há financiamento de governo federal para aquilo que é mais importante para o cidadão, que vive nos municípios, que é Saúde e Educação. Os municípios brasileiros, em maior ou menor escala, estão cofinanciando a Saúde e entrando em seus orçamentos. Tanto é que a Constituição prevê 15% de investimento pelos municípios e tem municípios que aplicam 30% na área. Por conta disso, ficam sem recursos para investimentos e vêm buscar aqui no Badesc condições para a pavimentação de uma via, uma nova via, a ampliação de uma área industrial, um posto de saúde, um conselho comunitário.

[PE] - A diferença de percentual entre público e privado é um desequilíbrio?

Caramori - Esse percentual precisa ser revisto. Esse comprometimento com o poder público municipal, considerando que, inexplicavelmente, o Banco Central exige que todo capital aplicado no público seja destacado, portanto não serve para alavancar recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Apesar disso, trabalhamos com R$ 184 milhões no privado em 2015 e em 2016 não vamos ter uma alavancagem de recursos na mesma proporção. No primeiro semestre teremos apenas R$ 16 milhões pelo BNDES para o privado, contra R$ 90 milhões do primeiro semestre de 2015.


[PE] - Então 2016 pode ser um ano perdido para o Badesc?
Caramori -
Perdido, não. Mas com certeza um ano que não vai apresentar muita atividade, nem incremento no nosso patrimônio líquido. Não só pelos recursos a menor em relação a anos anteriores. Também pela queda na demanda. A economia realmente está retraída. O empresário não sabe o que faz. Se demite, se fecha... nós não vemos isso nas ruas ainda porque temos uma diversificação muito grande em nossa economia.

[PE] - Aumentou o fluxo de prefeituras em busca de recursos?
Caramori -
O cliente privado tem várias portas de entrada pelas nossas agências, instaladas em Chapecó, Lages, Joinville, Criciúma, Blumenau e Florianópolis. Os prefeitos têm que vir diretamente à sede. Aumentou significativamente o número de prefeitos em busca de apoio do Badesc, algo percebido já no ano passado. E 2016 é um ano eleitoral. Ou seja, quem vinha preparando projetos, chegou a hora de executar. Sem ferir a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei Eleitoral, mas ele tem que mostrar seus serviços para se reeleger ou fazer o sucessor. Estamos hoje com praticamente 170 prefeituras, entre projetos que estão entrando para análise e que já estão em andamento.

[PE] - E empresas privadas?
Caramori -
Temos visto muito mais empresários buscando capital de giro e soluções de manutenção de seus negócios para suportar esse período trágico. Para novos investimentos também existem consultas, ainda que não na mesma proporção. Mas há uma novidade interessante: são recursos para a área de inovação tecnológica, o Inovacred. É um dinheiro com origem na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) disponível para empresas que tenham produtos ou serviços que tenham inovação tecnológica. As pequenas podem pegar até R$ 5 milhões e as médias, até R$ 10 milhões. Isso é parte da política do governo estadual à qual nós estamos alinhados.

[PE] - O que isso significa?
Caramori -
A orientação do governador Raimundo Colombo é no sentido de observar as regiões deprimidas economica e socialmente, observando o IDH (Índice de Desenvolvimento Econômico). Com base nisso, vem a tomada de decisão com vistas à eficácia desse investimento. Nosso foco não é vender dinheiro e ter lucro, mas gerar desenvolvimento. Nesse contexto, o governo do Estado vem trabalhando, desde 2011, na área de desenvolvimento tecnológico, tanto é que foram criados os parques tecnológicos nas cidades-polo, em parceria com as prefeituras e instituições de ensino superior. Num segundo momento, o Badesc vai financiar, com recursos Finep, as boas ideias que surgirem nesses ambientes. No primeiro ano do Inovacred, 2013, foram aplicados R$ 6,3 milhões. Em 2014, R$ 11,1 milhões e, com 278,84% de incremento, contratamos R$ 42,2 milhões em 2015. BNDES e Badesc têm se destacado no cenário nacional como os maiores repassadores de inovação. E o auge ainda está por vir. É um recurso mais barato, extremante atrativo e que vai consolidar uma matriz econômica de alto valor agregado, que gera muita riqueza. Temos o exemplo de uma joint venture italiana com empresários catarinenses que vai lançar um produto inédito, de altíssima tecnologia, para uso na Medicina humana. Eles estão buscando recursos do Inovacred no Badesc.

[PE] - Como está o programa Juro Zero?
Olívio Karasek Rocha -
O Juro Zero independe de recursos de terceiros. São recursos próprios, equacionado pelo governo do Estado. Para o micro empreendedor individual ou informal o limite é de R$ 3 mil. A partir dessa faixa, até R$ 15 mil, o financiamento é tomado por meio de uma das 18 Oscips (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) de Santa Catarina. Até R$ 100 mil passa para outra linha de crédito, Badesc Fácil, que é totalmente online, com liberação em até uma semana. Estamos estudando aumentar a faixa para até R$ 350 mil.

Caramori – Tivemos também o Juro Zero Cidades, em 2013, que já encerrou com R$ 240 milhões em financiamentos. E também o Badesc Emergencial, para empresas e prefeituras de cidades atingidas por intempéries, que somou R$ 20 milhões. No caso do Juro Zero Microcrédito, até agora temos R$ 140 milhões financiados. E com inadimplência também zero! Só em 2015 foram R$ 12 milhões para este segmento. De 2011 até aqui, o governo do Estado arcou com R$ 37,4 milhões em juros, somando todos os programas de Juro Zero, ou seja, três Emergenciais, Cidades e Microcrédito. Queremos eficácia e não só vender o dinheiro.

[PE] - Continua o acordo com o Sebrae-SC para a capacitação dos micro eemprendedores?
Caramori - Via de regra nós recomendamos que antes de qualquer coisa os empreendedores procurem o Sebrae, que tem uma capilaridade fantástica no estado. Santa Catarina tem um Sebrae diferenciado, reconhecido nacionalmente. E nos ajuda muito! Não temos como ficar acompanhando cada micro empreendedor ou empreendedor. Não temos corpo técnico para isso. Fazemos a prospecção, o enquadramento, a parte legal... mas daí para frente, o acompanhamento da empresa, é o Sebrae que faz e com excelência.

[PE] - Qual é a procura por parte de empresas de ramos tradicionais?
Caramori -
Temos tido uma procura muito grande por parte de varejistas, por conta da queda nas vendas e aumento dos custos fixos. Estão sem saber o que fazer e buscam capital de giro. O setor de alimentação, de produção de proteína animal para consumo humano, também tem nos procurado, mas com projetos de investimento. Ou seja, uns para suportar e outros para crescer. O setor do vestuário nos procura com os dois objetivos, suportar o momento e crescer. Mas, em geral, há uma retração da economia.

Rocha – O Badesc não emprega recursos se não houver um projeto que mostre os objetivos daquela aplicação. Geralmente nos procuram os setores que não têm interesse para os bancos comerciais, portanto, setores em dificuldade. Não nos interessa ver a empresa fechando e só recuperar o dinheiro emprestado. Queremos ver a empresa em atividade, empregando, gerando riqueza, pagando impostos. Nossa visão é diferente.

[PE] - Há planos de novos produtos para 2016?
Rocha –
Já estamos aptos para o Inovacred Expresso. É para ser um crédito rápido, a ser liberado em uma semana. O problema das empresas de inovação é dar garantia real. Geralmente estão saindo de incubadoras, são jovens empreendedores ou empresas muito novas. A solução que buscamos é a criação de um fundo garantidor, com BNDES, Sebrae, Banco do Brasil, de forma a colocar esse produto no mercado já no segundo semestre.

Caramori - Tem também os arranjos de pagamento, um novo formato para o microcrédito que independe de conta bancária. Várias instituições e entidades estão trabalhando juntas para proporcionar meios de pagamento que permitam, por exemplo, limitar territorialmente onde esse dinheiro deve circular, estimulando a economia de uma região de interesse.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br
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