[Pelo Estado] Entrevista Presidente do Badesc, José Claudio Caramori

02.01.2017

Badesc busca recursos internacionais para SC

O presidente da Agência de Fomento de Santa Catarina S.A., o Badesc, José Claudio Caramori, recebeu a reportagem da Coluna Pelo Estado para uma avaliação sobre o ano de 2016, considerado difícil e que, já prevê, não trouxe lucros. Há preocupação também com a inadimplência, um risco calculado, segundo ele mesmo afirma, mas que vem crescendo diante do recuo da atividade econômica. Mesmo assim, Caramori mantém o tom otimista e faz planos para 2017, como o lançamento do Badesc Cidades Gás, previsto para março, e a captação de recursos em organismo internacionais de financiamento para serem aplicados especialmente em obras de infraestrutura dos municípios catarinenses. “Essa é uma das metas para 2017, mas são tratativas bem demoradas. Por enquanto, o que podemos dizer é que há grupos internacionais interessados”, adianta.

 

[PeloEstado] - Como o senhor avalia o ano de 2016?
José Claudio Caramori -
Foi um ano que nos deixou muito apreensivos pela situação econômica do país, que prejudicou a iniciativa privada e também o setor público, notadamente as prefeituras. Mas, mesmo nesse cenário, conseguimos terminar o ano razoavelmente bem. Não temos expectativa de lucro, em função de provisionamentos e inadimplências dos últimos exercícios que por regramento do Banco Central precisaram ser lançados como prejuízo, ainda que lá na frente isso se reverta, seja por recuperação da empresa inadimplente ou por usarmos as garantias. Não é um prejuízo operacional, mas tivemos que provisionar. Pesou aí o Plano de Demissão Voluntária Incentivada (PDVI) que, mesmo que vá se concretizar ao longo dos próximos anos, também exigiu provisionamento. Isso tudo vai ser abatido contabilmente do resultado. Por isso o balanço de 2016 tende a ser negativo.

[PE] - Qual o comportamento das contratações do ano?
Caramori -
Houve uma redução entre 2015 e 2016. O ano foi de crise econômica e as empresas se sentem menos estimuladas a fazer novos investimentos. Por conta disso, tivemos menos contratações. As empresas estão em stand by, em sua grande maioria, observando como se comporta a economia, e seguramente, em 2017 voltarão a fazer novos investimentos. Por outro lado, temos que considerar que o repasse de recursos por parte do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) caiu de forma vertiginosa. Estamos falando de R$ 196 milhões em 2015 para R$ 32 milhões em 2016 do BNDES para o Badesc. Contingenciamento que se fez sentir em todas as áreas, bancos de desenvolvimento, agências de fomento e bancos comerciais. Todo o sistema financeiro sentiu esse impacto. Continuamos operando bons volumes da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), num total de R$ 22, 2 milhões, e utilizando também recursos próprios, em R$ 106,3 milhões.

[PE] - Como foi a distribuição de recursos entre público e privado?
Caramori -
Conseguimos manter certo equilíbrio. Aplicamos, do nosso capital, 58,7% no setor privado e 49,1% em prefeituras, ou setor público. Apesar da queda forte do BNDES, até porque o que nos aplicamos no setor público é de recursos próprios. Temos R$ 390 milhões de capital destacado só para isso. Mas é bom ressaltar que as contratações feitas em um período não necessariamente são liberadas no mesmo período. Na medida em que a obra é executada, faz-se a medição e a liberação. Então, em 2016 liberamos 53,3%, ou R$ 110,1 milhões para o setor público e 46,7%, ou R$ 96,5 milhões, para o privado.

[PE] - O senhor falou de inadimplência. Qual a preocupação?
Caramori -
O crescimento. Subimos de 3,5% em dezembro de 2015 para 12,2% em novembro de 2016, considerando a inadimplência total, ou seja, de todas as fontes. Só no que tange aos nossos recursos próprios, no mesmo período evoluiu de 4,9% para 9%; nos recursos do BNDES o salto foi de 2,8% para 16,2% de inadimplência. Mas não é um risco não dimensionado. O fato é que o movimento econômico das empresas despencou, de forma geral e em efeito cascata. Daí a dificuldade das empresas de honrar seus compromissos. Já os municípios, ainda que tenham dificuldades, logo resolvem, porque têm consciência de que se não honrarem, quebram a corrente, pois esse setor funciona quase que como um fundo rotativo e precisa ser constantemente realimentado pelos próprios pagamentos feitos. E se a prefeitura ficar negativada em qualquer um dos órgãos de crédito, vai ter problemas para receber recursos federais, repasse de emendas parlamentares ou firmar convênios. Todos os prefeitos sabem que o Badesc Cidades, que oferece 12 meses de carência e 36 para pagamento, é um programa de governo muito importante para o município realizar as obras importantes para a população.

[PE] - Falando em Badesc Cidades, o programa terá novidades?
Caramori -
Sim. Estamos em conversa com o presidente da SCGás, Cosme Polêse para lançarmos juntos, durante o XV Congresso Catarinense de Municípios, que vai ser realizado pela Fecam (Federação Catarinense de Municípios), em Joinville, no mês de março de 2017, o Badesc Cidades Gás, para incentivar o uso do GNV nas frotas das prefeituras. Estamos alinhavando um termo de cooperação técnica para definir as formas de financiamento. Uma iniciativa importante porque, além da redução do gasto com combustível, tem a vantagem ambiental. Num segundo momento queremos estimular que frotas de táxis, por exemplo, também sejam beneficiadas.

[PE] - Vamos falar de 2017. Quais as expectativas?
Caramori -
Temos obrigação, como instituição do Estado, de não ficar esperando que o Tesouro estadual alimente o nosso caixa. Por isso estamos nos planejando e trabalhando para melhorar a nossa captação de recursos. Hoje utilizamos BNDES, Finep e recursos próprios. Como BNDES não deve oferecer nada muito maior do que liberou em 2016 para o Badesc, estamos em tratativas com organismos internacionais de financiamento para países em desenvolvimentos, prospectando custos, prazos e áreas de atuação, e já temos algumas perspectivas de que poderemos ter recursos dessas instituições sendo repassadas para a nossa agência de fomento para daí fazermos a distribuição principalmente para a infraestrutura do setor público. Essa é uma das metas para 2017, mas são tratativas bem demoradas. Por enquanto o que podemos dizer é que há grupos internacionais interessados. Junto à Finep, queremos reforçar os recursos para inovação. Em 2016 nós contratamos R$ 22 milhões, mas temos limite de R$ 50 milhões. Queremos ampliar esse limite para R$ 100 milhões em contratações. Temos parcerias com universidades e fundações que auxiliam a formatação dos projetos nos polos tecnológicos e incubadoras para buscar esses recursos, que têm custo financeiro baixo. Quanto ao BNDES, tão logo eles nos informem qual será o limite que vão disponibilizar para o Badesc, vamos ver se nos satisfaz ou não. Se não, vamos pressionar para ampliar os recursos. Nosso desejo é recompor os valores de 2015, de R$ 200 milhões, mesmo sabendo que será difícil.

[PE] - O microcrédito continua sendo uma área importante para o Badesc?
Caramori -
É uma área de interesse social e econômico na qual vamos continuar operando, através das nossas Oscips (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) e cooperativas de crédito para fomentar os microprodutores individuais, aqueles que estão tentando se estabelecer como empresários, desenvolver seus talentos. Isso é uma decisão de governo. Até novembro de 2016 foram contratados R$ 16 milhões, o mesmo valor de 2015. São 20 instituições parceiras que dão capilaridade a esses recursos. A meta para 2017 não está definida, pois depende da demanda do mercado e do estoque de dinheiro a partir da composição sobre a qual falamos. É um segmento que merece nosso olhar diferenciado.

[PE] - O que há mais de planos para 2017?
Caramori -
Queremos começar a operar com crédito agrícola. Nosso estatuto permite e nós temos recursos para tanto. Estamos organizando a matriz de risco para entrar nesse segmento por meio de cooperativas ou de contratação direta. O agronegócio é uma realidade em Santa Catarina, mas não podemos pensar só nas grandes indústrias do setor que têm até mais facilidades para buscar crédito. Queremos atingir o produtor que muitas vezes precisa de um recurso para que sua pequena propriedade ganhe em valor agregado sobre os produtos. Isso vale para a cadeia do leite, para os integrados, para frutas e flores exóticas, produção orgânica... tudo para evitar que o produtor deixe o campo. O crédito terá valores mais elevados que o microcrédito, mas ainda não há definição do quanto vamos ofertar nessa linha.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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