[Pelo Estado] Entrevista Presidente do CRC-SC Marcello Seemann - 20/06/2016

20.06.2016

Projeto do CRC-SC é exemplo para o país

Empresário contábil, pós-graduado em Auditoria (UFSC) e em Gestão Empresarial (FGV-RJ), assumiu a presidência do Conselho Regional de Contabilidade de Santa Catarina (CRC-SC) em janeiro, cargo que acumula com a de tesoureiro da Associação dos Conselhos Profissionais de Santa Catarina (Ascop). Antes de assumir a presidência do CRC-SC, onde atua como conselheiro desde 2001, foi vice-presidente de Registro, de Fiscalização, de Controle Interno, de Administração e Finanças e de Desenvolvimento Profissional do órgão. Em dezembro, o CRC-SC completará 70 anos. Atualmente, conta com oito macrodelegacias e 40 delegacias em todo o estado, além de ter 5 mil empresas e 21 mil profissionais registrados. Nessa entrevista exclusiva que concedeu à Coluna Pelo Estado, Marcello Seemann falou sobre o Contabilizando para o Cidadão, programa idealizado por ele e que pretende traduzir os números da administração pública em informações de fácil compreensão para a sociedade em geral.  “Só temos a valorização da categoria a partir do momento que o cidadão nos valoriza.”

[PeloEstado] - O senhor tomou posse no CRC-SC em janeiro. Quais são as suas metas?
Marcello Seemann -
A nossa principal meta é levar o CRC às bases do profissional contábil. Já estou rodando o estado inteiro, em cada delegacia, em cada região, ouvindo os profissionais e o clamor da categoria. E também comunicando o papel que desempenha uma autarquia federal como o CRC. Muita gente ainda confunde o Conselho Regional de Contabilidade com um sindicato ou uma associação. E, na verdade, o Conselho está sob a delegação da Presidência da República. Por isso tem que cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal e todos os controles impostos pela União. Quando os profissionais entendem a nossa verdadeira função, se dão conta da importância do CRC, porque o Conselho tem como função primordial proteger o cidadão e não o cliente, o dono da empresa. O nosso patrão é a sociedade.

[PE] - Nesses encontros está sendo apresentado o “Contabilizando para o Cidadão”. Do que se trata?
MS -
Eu já atuo no CRC-SC há 15 anos e passei em todas as diretorias nesse período. No primeiro dia do meu mandato como presidente, eu disse que ia ensinar o cidadão comum a ler balanço. Só temos a valorização da categoria a partir do momento que o cidadão nos valoriza. Até os conselheiros acharam que eu estava pensando alto. Chamei minha equipe, traçamos a linha de trabalho e desenvolvemos o Contabilizando para o Cidadão, pelo qual explicamos de maneira simples e lúdica os números e as informações contábeis para a sociedade. Fomos a cerca de dez órgãos de 13 prefeituras e do governo do Estado, acessamos os portais da Transparência, e captamos os dados, fazendo uma compilação para responder principalmente: de onde vêm os recursos? Onde foram aplicados? Informações sobre tributos, repasses do governo federal, áreas que receberam os recursos foram transformados em gráficos no formato de pizzas para facilitar a visualização.

[PE] - O que vocês detectaram com esse trabalho? E como isso é transmitido para o cidadão comum?
MS -
Por exemplo, falar que o governo do Estado arrecadou, em 2015, R$ 27,2 bilhões, pouca gente dimensiona o que é. Mas quando eu falo que cada pessoa que vive em Santa Catarina desembolsou, em média, R$ 4.002,20 em tributos, fica mais fácil de perceber o que isso significa. A partir daí eu informo, em percentuais, na pizza, quanto foi gasto em cada área, seja Educação, Saúde, Segurança, Previdência ou qualquer outra. A sociedade em geral não tem noção que a receita vem carimbada e que a despesa também tem obrigações, assim como temos na nossa casa. A despesa somou R$ 27,5 bilhões, ou R$ 4.035,29 per capita. Portanto, houve um descompasso entre o que foi arrecadado e o que foi gasto de R$ 33,00 por cidadão catarinense. Multiplica isso pela nossa população, de mais de 6 milhões de pessoas e teremos o impacto desse descompasso! Nas palestras, explico da seguinte forma: quero comprar um carro. Meu salário é de R$ 4.002,20 e minhas despesas já somam R$ 4.035,29. De onde vou tirar dinheiro para a prestação do carro? O mais prudente é não fazer a compra. De forma muito simples, consigo explicar para a sociedade que não adianta pedir nada para o governo. porque não tem recursos.

[PE] - O que mais chamou a sua atenção?
MS -
A Previdência do Estado. Os servidores contribuíram com 2,7% do Regime Próprio, mas foram gastos 17,9%. Uma disparidade muito grande e que levou a um déficit de R$ 3,1 bilhões. Pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) é possível demonstrar que o Estado não pode mais contratar ninguém. Não tem limite orçamentário. Quando o governador disser que não vai contratar policiais, não é que ele não quer, é que ele não pode. E se o fizer vai descumprir a LRF, pois já está no limite. Outro dado que chamou a atenção é que o Estado de Santa Catarina investiu somente 2,3% de seu orçamento em Agricultura ao longo de 2015. Muito pouco para um estado com tradição agrícola como o nosso.

[PE] - Como tem sido a receptividade do projeto?
MS -
Estive em São Paulo, em um evento de contadores e auditores internos e a recepção é calorosa. Eles ficam fascinados e querem que a gente faça de todos os municípios de tão entusiasmados. Mas é um trabalho demorado, minucioso, que envolve vários dados de diferentes fontes. Também apresentei no Conselho Federal de Contabilidade, que disseminou para todos os Conselhos estaduais e vários destes já estão produzindo os seus Contabilizando para o Cidadão. O Estado de São Paulo já conheceu o projeto, nos chamou para uma reunião para explicações e agora o mesmo trabalho deve ser feito para todos os municípios do estado. Aqui teremos o levantamento de 13 municípios. Já temos de Florianópolis, Joinville, Criciúma, Chapecó... estamos fazendo com toda responsabilidade. Também estamos fazendo o levantamento dos indicadores sociais, que demonstra as boas posições de Santa Catarina.

[PE] - Como disseminar essa iniciativa?
MS -
Estamos capacitando contadores para que sejam disseminadores do projeto para a sociedade. Abrimos um link para inscrição de quem estivesse interessado em fazer o treinamento e em dois dias recebemos mais de 200 interessados. E todos os dias recebemos de 30 a 40 contatos de prefeituras pedindo para que façamos a análise dos dados dos municípios. Aliás, lembrando que estamos em um ano eleitoral, é muito importante que o eleitor saiba que não existe mágica. Que não adianta o político prometer isso ou aquilo se não tiver receita. Estamos em uma fase que é preciso eleger um profissional que saiba fazer gestão. E que seja político para atrair novos recursos, atrair novas receitas. Por isso eu digo que quando vem um investidor interessado em se instalar em Santa Catarina, nós temos que estender o tapete vermelho para ele, e não ficar afugentando com burocracia.

[PE] - As regras eleitorais agora exigem que a prestação de contas de campanhas seja feita por profissional da contabilidade. De que forma o CRC-SC atua para isso?
MS -
Estamos oferecendo treinamentos para contadores do estado inteiro. Contabilidade é algo transparente e muito tranquilo de fazer. É Matemática pura. Por isso, a sociedade em geral, e, neste caso, o político, tem que parar de querer dar jeitinho. É muito grande a pressão para justificar algumas práticas. E nós, do Conselho, estamos trabalhando muito firmemente contra a “contabilidade atrapalhada”. É um conceito que vamos reforçar cada vez mais. No segundo semestre, nós teremos um calendário de cursos de qualificação e capacitação com esse objetivo.

[PE] - O Conselho completa 70 anos em 2016. O que está sendo planejado para comemorar?
MS -
Exatamente no dia 8 de dezembro. As comemorações vão ser no sentido de homenagear os profissionais de Contabilidade que atuaram em Santa Catarina. E valorizar a profissão que, no mundo inteiro, é sonho de qualquer pai e mãe para seu filho. Aqui, nós queremos transformar essa profissão em uma referência no país. Que a sociedade entenda o que um profissional contábil pode fazer, especialmente em um momento de crise como que atravessamos agora no país.

[PE] - O Conselho completa 70 anos em 2016. O que está sendo planejado para comemorar?
MS -
Que custos devem ser cortados todos os dias. Não é porque o negócio vai bem que se pode relaxar. É preciso um aprimoramento constante dos processos. E com números é possível evidenciar isso. A nossa função é dar dados concretos para que o empreendedor possa tomar decisões corretas.
 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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