Pelo Estado Entrevista: Raimundo Colombo

23.07.2012

“Perda de receita pode chegar a R$ 450 milhões”

Íntegra da entrevista exclusiva com o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo*

Por Andréa Leonora e Camila Latrova

ADI-SC/Central de Diários/CNR-SC

Governador Raimundo Colombo recebeu a reportagem da ADI-SC/Central de Diários para uma entrevista exclusiva. Fez um balanço dos seus 18 meses de governo, falou das angústias e inseguranças desse período e anunciou para breve mais duas viagens internacionais. Na Alemanha, vai tentar uma decisão positiva sobre a instalação da BMW no estado e, na França, deve fazer os últimos ajustes para a obtenção de um financiamento de 100 milhões de euros, recursos que serão investidos no saneamento. Colombo também enalteceu as mudanças de comportamento do colegiado diante do novo Modelo de Gestão e da necessidade de redução de gastos. “Agora há um comprometimento.”

 

Central de Diários - No lança­mento do Pacto por Santa Catarina o senhor decla­rou: “Esses 18 meses foram de angústia, de inseguran­ça muitas vezes. Foram momentos em que eu dis­se: não temos ainda o vo­lante”. Essa fase acabou?

 

Raimundo Colombo - Vá­rias pessoas amigas minhas dis­seram ‘você não pode dizer isso porque pode mostrar alguma fragilidade’. Eu acho que a gen­te ser honesto nunca é fragili­dade. O processo de conhecer o governo exige paciência, porque é lento. E você recebe muita in­formação, mas são informações dispersas, não sistematizadas. O que nós conseguimos fazer foi justamente sistematizar. Eu sei, hoje, todas as concorrências que o governo vai lançar. E eu sei se é necessário, se não é, e estou dis­cutindo a forma das concorrên­cias para sermos eficientes, para reduzir os custos. Nós temos hoje um sistema que permite acom­panhar todas as obras para que elas tenham começo, meio e fim. E dentro do cronograma. Até chegar nesse ponto, foram muitas as angústias mesmo. Fa­zer com que as pessoas come­cem a entender o pensamento da gente, romper determinados comportamentos, integrar o processo político. E ter o resul­tado. Algumas áreas foram mais ágeis, outras começam a engre­nar agora. Foi isso o que eu quis partilhar naquele momento.

 

 

CD - Fazendo um balanço desses 18 meses de gover­no, qual o momento mais difícil?

Colombo - Foram vários mo­mentos difíceis. As enchentes foram momentos duros, a fuga da Penitenciária de Florianó­polis também foi difícil de su­perar. Na gestão, a angústia de ter todas as informações, de ter condições de se posicionar. Por­que o posicionamento na gestão é justamente você ter informa­ções e ter informações corretas.

 

CD - E o processo que cul­minou com a aprovação do PRS 72?

Colombo - Esse foi e está sen­do um momento muito difícil. Ainda hoje (sexta, 20) pela ma­nhã nós estávamos discutindo o orçamento do ano que vem e tentan­do quantificar o tamanho do prejuízo que essa Resolu­ção do Senado vai represen­tar. Nós esta­mos conside­rando para o orçamento de 2013 uma per­da direta de receita da ordem de R$ 320 milhões. E há um cená­rio ainda mais grave, que chega a uma perda de R$ 450 milhões. A queda não será de atividade, mas é que nós vamos reduzir o imposto que era cobrado para manter as empresas aqui.

 

CD - E as compensações? O senhor esperava um va­lor maior?

Colombo - A compensação é o financiamento de R$ 3 bilhões via BNDES. Com esses recursos nós vamos fazer obras e melho­rar a infraestrutura para tornar o estado cada vez mais atrativo e a atividade econômica cada vez mais dinâmica. Essa é uma das linhas que o Pacto por SC vai trabalhar. Três bilhões de reais é um valor muito expres­sivo. Acho que Santa Catarina nunca teve um conjunto tão significativo de recursos para investimentos. E também acho que, na nossa história, é o maior investimento feito no Estado num mesmo momento. Porque não são só os R$ 3 bilhões. Tem outros financiamentos, de R$ 611 milhões, de R$ 560 milhões, tem recursos para saneamento, tem dinheiro para controle de enchentes.

 

CD - Tem novidades no controle de enchentes?

Colombo - Estivemos em Bra­sília, e a expectativa é de que a presidente Dilma Rousseff vai anunciar um valor significativo para Santa Catarina no dia 8 de agosto. Continua boa a relação com o governo federal, assim como com a Assembleia Legis­lativa, que tem sido muito par­ceira, muito solidária e ágil.

 

CD - Na última semana antes do recesso da Assem­bleia Legislativa, foi apro­vado o Revigorar 4, um dos programas da Fazenda estadual para melhorar a arrecadação. Alguns depu­tados votaram contra por considerarem que é privile­giar o mau pagador. Como responde a essa crítica?

Colombo - Nós não tiramos todo o juro e nem toda a cor­reção. Houve uma diminuição apenas. Mas, como a atividade econômica está diminuindo e as empresas têm mais dificul­dade, a ideia é praticar um gesto de colaboração para que todas elas continuem mantendo ple­no emprego e a sua produção. É claro que o ideal é que não fosse necessário um programa como esse, que todas as empresas tivessem com suas atividades normalizadas. Mas não é o que está acontecendo e por esta ra­zão fizemos esse gesto.

 

CD - Estamos numa crise financeira?

Colombo - Desde abril regis­tramos uma significativa que­da da arrecadação. É uma das maiores reduções dos últimos 20 anos. Nós temos uma reser­va de recursos acumulados nes­te período e isso supre as neces­sidades de manutenção da folha e de custeio, mas, evidentemen­te, se houver correção a médio prazo esta situação se agrava. O Estado tem uma folha alta, com um elevado número de inativos, ou seja, uma Previdência mui­to alta. Para 2013, a previsão é de que o déficit chegará a R$ 2 bilhões e o pagamento da dívi­da também é da ordem de R$ 2 bilhões. Esse conjunto tira a capacidade de investimento do Estado. Nós temos que fazer um esforço muito grande para corrigir.

 

CD - Está satisfeito com os resultados obtidos até aqui com o novo Modelo de Gestão?

Colombo - Ele não é estático. Ao contrário, é dinâmico. Nós temos um grupo, por exemplo, que está estudando uma refor­mulação, uma reforma admi­nistrativa, para redução e com­pactação de órgãos. O plano de gestão está evoluindo bem, os resultados são bons, nós temos hoje controle de dados. Mas o modelo vai continuar sendo aperfeiçoado a cada dia.

 

CD - Durante este proces­so, que momento foi mais difícil, de maior conflito com as secretarias?

Colombo - Reunir os dados e sistematizar as informações. Cada uma tem um tipo de in­formação e estamos conse­guindo colocar tudo dentro do programa.

 

CD - Mais que mudar a postura das pessoas?

Colombo - Eu sinto que há boa vontade. E com a experiên­cia das reuniões mensais para prestação de contas, as pessoas envolvidas estão se conscienti­zando e se com­prometendo. Sinto que existe um compro­metimento de todo mundo. As pessoas têm boa vontade, mas é preciso dizer o caminho, onde queremos che­gar e como de­vemos fazer. É o que nós estamos fazendo agora. Este trabalho de gestão é difícil, para dentro do governo, porém é necessário, pois forma as condições para influenciar toda a estrutura de governo. Por um lado, nós queremos aperfeiçoar a gestão, reduzir o custo. Se por um lado vamos conter despesas, por outro, nós vamos aumentar significativamente os investimentos. Além de proteger as pessoas, de melhorar as estradas, de construir novos hospitais, nós vamos também injetar dinheiro na economia, dinamizar o movimento econômico do estado, e manter a situação de pleno emprego como hoje Santa Catarina vive.  É um momento importante para o governo e para o Estado.

 

CD - O senhor se surpre­endeu com as mudanças no comportamento do co­legiado a partir do modelo de gestão e das ações para redução de gastos?

Colombo - Sem dúvida. Hou­ve um avanço muito grande. Melhorou muito a compreen­são e a solidariedade, o desejo de participar. Houve uma evo­lução extraordinária. E é o se­guinte: a gestão se impõe. Ou você moderniza, para diminuir custos e aumentar a eficiência, ou o processo vai se desarru­mar. Porque aquela atividade econômica dos últimos 15 anos, com reflexos no aumento da re­ceita, não vai se repetir. Acabou. E o governo vai ter que fazer um esforço para que a nossa econo­mia seja competitiva, para que o Brasil seja competitivo. Reduzir custos passa pela diminuição de impostos. Por exemplo, cer­ca de 12% da nossa receita vem da energia elétrica, e em 2011 e 2012 não houve aumento de tarifa. E a linha é essa! É o que tem que ser feito mesmo! Mas isso vai impor aos estados e municípios uma nova postura diante da realidade econômica.

 

CD - As resistências fo­ram quebradas?

Colombo - Sempre tem alguns que discordam do método, que acham que não vai levar a lu­gar nenhum, mas eu acho que eles vão ser superados. O convencimento faz parte do tra­balho.

 

CD - E quem não se enquadrar ao novo mo­delo?

Colombo - Vai sair, não tem outro jeito.

 

CD - Está sendo boa a co­lheita das viagens interna­cionais que o senhor rea­lizou? Tem alguma nova missão prevista?

Colombo - Sim. Vieram mui­tas empresas das que nós con­versamos lá fora. E no começo de agosto nós vamos para a Ale­manha, para uma reunião na sede da BMW.

 

CD - Pra bater o martelo?

Colombo - Pra bater o marte­lo. Nós estamos concluindo as conversações. Nossa expectati­va é que a fábrica da BMW no Brasil seja instalada em Santa Catarina e a definição deve sair nessa reunião. Outra viagem, que pode até coincidir com a da Alemanha, é para a França, para a assinatura de um contra­to de 100 milhões de euros para saneamento com a Agência Francesa de Desenvolvimento. Eles vieram aqui, está tudo ok, mas entre as cláusulas de finan­ciamento tem algumas que o governo de Santa Catarina não pode aceitar. Estamos negocian­do, porque é um dinheiro bara­to, de longo prazo e para fazer saneamento, o que é algo muito importante para o estado.

 

CD - Ano de eleições mu­nicipais. Qual a sua postu­ra neste momento?

Colombo - A eleição munici­pal tem características muito próprias, baseadas na realida­de local. Isso é assim em todo o Brasil. E não podemos consi­derar eleição municipal como decisiva no plano estadual ou federal. A minha participação será de apoio, de solidariedade aos companheiros, mas de res­ponsabilidade diante do meu papel de governador. Eu sou go­vernador de todos os catarinen­ses, daquele que tem partido, daquele que não tem, do gover­no da oposição. Minha partici­pação será muito limitada. Não vou me envolver diretamente na eleição.

 

CD - Uma das mais fre­quentes demandas da so­ciedade é por mais segu­rança. O que está sendo feito?

Colombo - Nós estamos in­vestindo muito em tecnologia. Estamos triplicando o número de câmeras de vigilância e mo­dernizando muito todo o pro­cesso de gestão da segurança. E também estamos aumentando o efetivo, da Polícia Civil e da Polícia Militar. O problema, no caso da Polícia Militar, é apo­sentadoria, que está em nível muito elevado. Estamos con­seguindo formar um número muito grande de policiais, mas, ao mesmo tempo, há um flu­xo bem expressivo de policiais indo para a reserva. O problema é que, para o Tesouro, ficam os dois, o inativo e o que foi re­centemente incorporado. Nós temos duas despesas. Mas nós vamos continuar a fazer este es­forço. São cerca de 1.500 novos policiais em 18 meses. E nós es­tamos formando uma nova tur­ma. A Polícia Civil também deve formar mais de 400 homens e mulheres. Nós estamos no limi­te da capacidade de formação. Ainda não é o ideal, mas esta­mos em um processo em que a saída é alta por causa do ciclo de idade do efetivo.

 

CD - Sobre o Pacto por Santa Catarina. Quais os próximos passos?

Colombo - No domingo (22) à noite nós teremos uma reunião com o Murilo Flores (secretário executivo do Pacto) e vamos fa­zer um levantamento de tudo o que as secretarias pediram para incluir nesse processo. Já tive­mos no BNDES, já aprovamos a lei na Assembleia, o Conselho Monetário Nacional já auto­rizou... a fase agora é escolher ações e definir prioridades. O próximo passo é execução. Mui­tos projetos já estão prontos e estes terão prioridade. Tem algumas obras que são ime­diatas, outras que já estão em andamento, como é o caso da recuperação da Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, e outras ainda dependem de projetos. O Murilo está reunindo todas as informações para partirmos para a execução. Se por um lado vamos conter despesas, por ou­tro, nós vamos aumentar signi­ficativamente os investimentos. Vamos injetar dinheiro, dina­mizar a economia do estado e manter empregos. É um mo­mento importante para o Go­verno e para o Estado.

 

CD - O Governo está fazendo investimentos agora, o que vai representar um custeio depois. Como isso vai funcionar?

Colombo -Nós temos sido muito cuidadosos com isso. Os investimentos não aumentarão os custeios. Mesmo os hospitais que nós iremos construir os cinco que já estão decididos, que será a ampliação em Chapecó, em Lages, em Joinville, em Blumenau e em Florianópolis neste primeiro momento, todos eles já são anexos de estruturas existentes, justamente para diminuir custos. Outro exemplo é a Penitenciária que vai ser deslocada de Florianópolis para a Imaruí, mas evidentemente que haverá aumento, mas estamos cuidando que ele seja o mínimo possível.

 

CD - Em todos os municípios é consenso que a Saúde deve ser prioridade dos gestores. Qual o planejamento financeiro no que se refere aos hospitais. As organizações sociais (OSs) são uma solução?

Colombo - A saúde é a maior prioridade do governo e a maior exigência da sociedade. Temos 14 hospitais com gestão própria, onde existe um esforço para melhorar a eficiência. E temos diversos modelos de gestão. As organizações sociais têm se mostrado um modelo exitoso pelo custo menor, eficiência maior, uma autonomia que facilita todo o processo operacional. No serviço público, se eu tiver um problema de ausência de um anestesista, por exemplo, eu preciso fazer um novo concurso. Nas organizações sociais, não. Na área pública, para fazermos a compra de equipamentos é necessário fazer uma concorrência que leva seis meses, enquanto a OS consegue autonomia para comprar imediatamente. Evidente que as condições operacionais são mais ágeis, mais dinâmicas e mesmo com preço menor. Eu me inclino muito para esta solução.

 

CD - Qual o planejamento financeiro do governo no que se refere aos hospitais?

Colombo - Estamos dando recursos muito grandes aos hospitais filantrópicos, pois a tabela SUS está defasada e os hospitais estão trabalhando com déficit. O teto da gestão plena não remunera de forma adequada. O Estado tem complementado com recursos do caixa, mas está ficando muito pesado. Temos feito um esforço muito grande para conseguir manter o sistema operando. E não é por falta de recursos. Neste ano devemos investir cerca de R$ 2 bilhões nos hospitais.

 

CD - O senhor prevê mu­danças para as secreta­rias de Desenvolvimento Regional?

Colombo - As SDRs têm um custo muito pequeno e elas terão maiores atribuições. As grandes mudanças ocorrerão na gestão central, uma vez que teremos fusão de órgãos. Mas tudo isso está em estudo. Teremos re­dução, por exemplo, de cargos comissionados. A nossa ideia também é reunir, num mesmo espaço físico, diversos órgãos que trabalham em paralelo e com um custo muito alto. Isso eficientiza a gestão e facilita a vida do cidadão que, ao invés de correr em diferentes lugares, vai encontrar tudo em apenas um endereço. Só na reorganização da estrutura do Estado teremos uma redução de custos muito significativa, porque repercute. Por exemplo: existe um escritó­rio da Cidasc em Herval do Oes­te e outro em Joaçaba. A única coisa que separa é o rio. Um em Balneário Camboriú e outro em Camboriú, e o que separa é uma via. Não tem sentido! Nós vamos fazer um trabalho de re­dução dessas estruturas.

 

Mãos inquietas


Raimundo Colombo tem a fama de contido, simples e mui­tas vezes preocupado nos encontros com a imprensa. Du­rante a entrevista realizada na tarde de sexta-feira (20/julho), ao receber as duas jornalistas da ADI-SC/Central de Diá­rios/CNR-SC, ele parecia concentrado. Não fugia às ques­tões e respondia mesmo quando lhe faltavam dados mais concretos. E todo o tempo manteve as mãos ocupadas com pequenos pedaços de papel, que, aos poucos, ia transfor­mando em rolinhos. Um hábito curioso que já o caracteri­za. A primeira coisa que faz ao sentar para uma conversa é pegar um pedaço de papel, fazer tiras ou quadradinhos. Talvez para conter a angústia, palavra sempre citada em suas falas, ele queira manufaturar algo que está totalmente sob o controle de suas mãos.

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*A Pelo Estado Entrevista é um produto da integração editorial de diários associados e parceiros da Associação dos Diários do Interior de Santa Catarina, Central de Diários do Interior e Central de Notícias Regionais (ADI-SC/CDI/CNR-SC), somando 140 mil exemplares/dia e com potencial para atingir 560 mil de leitores. Concedida com exclusividade pelo governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, foi editada para a versão impressa e disponibilizada na íntegra no Portal Central de Diários. As fotos que ilustram a versão on line são de Neiva Daltrozo/Secom e Camila Latrova (CDI). Participaram encaminhando questões: Juliana Stela Schneider/Chapecó; Celso Machado/Jaraguá do Sul; Keli Magri/Chapecó; Kelley Alves/Criciúma; Francieli Oliveira/Criciúma; e Jair Piloto Nunes/Porto União

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