[Pelo Estado] Entrevista Secretário de Estado da Saúde, Vicente Caropreso

30.10.2017

“Estamos focados em modernizar a gestão”

Natural de Blumenau, Vicente Augusto Caropreso é médico neurologista há quase 40 anos. Serviu como tenente-médico no 23° Batalhão de Infantaria de Blumenau e logo depois se transferiu para Jaraguá do Sul, onde reside e exerce sua profissão desde 1984. Entre 1997 e 1999, atuou como vereador do município. Foi deputado federal por Santa Catarina de 1999 a 2003 e em 2014 foi eleito deputado estadual. Na Assembleia Legislativa, foi presidente das Comissão de Proteção dos Direitos da Criança e do Adolescente e vice-presidente da Comissão de Saúde. Também foi membro das comissões de Prevenção e Combate às Drogas e de Proteção Civil. Em 16 de janeiro, licenciou-se do Legislativo para assumir o cargo de secretário de Estado da Saúde (SES). Nesta entrevista exclusiva que concedeu à Coluna Pelo Estado, Caropreso fala dos muitos desafios que enfrenta para dar conta de todas as tarefas de uma das mais complexas secretarias. Ao final, fala um pouco sobre política e, em um tom quase enigmático, afirma que tem medo de aventureiros: “Não acredito em milagreiros. Tenho receio das confusões que poderemos viver com milagreiros que surgem do nada. Não sou radical e não gosto de radicalismos. A divulgação a esmo de mentiras e o radicalismo têm dominado as mídias sociais. Receio o que possa vir daí. Se não nos entendermos, os aventureiros vão se instalar. Estamos vivendo a pior fase do país, com justiceiros surgindo e conquistando seguidores”. Leia a íntegra da entrevista em centraldediarios.com.br.

 

[PeloEstado] - O senhor está há nove meses à frente da Secretaria da Saúde, uma das mais complexas. Que balanço faz e o que ainda espera alcançar?

Vicente Caropreso - A Secretaria lida com um bem que não tem preço, mas promover saúde tem custos. Eu lido com uma situação surreal: a Constituição de 1988 deu direitos irrestritos, ou seja, são infinitas as demandas para um orçamento definido. Esse é um dos grandes desafios para qualquer um que sentar nesta cadeira. Encontrei aqui uma realidade completamente diferente da que vivemos em Jaraguá do Sul, que não tem uma presença tão forte ou essencial do Estado de Santa Catarina. Quando tem, são doações de órgãos estaduais ou federais, raros e fruto do prestígio de uma pessoa ou de outra que consegue aportar recursos, principalmente hospitais.

 

[PE] - Que realidade o senhor encontrou?

Vicente Caropreso - Aqui é totalmente diferente. Existem municípios e regiões em que a Saúde é completamente bancada pelo Estado, em seus três níveis (municipal, estadual e federal). O pensamento do empresariado e das pessoas é completamente diferente daquele que eu conhecia. Isso vai solidificando cada vez mais a impressão de que são três os níveis da saúde pública, mas só dá certo quando entra um quarto nível: o envolvimento da comunidade, do setor empresarial e do voluntariado. Aí sim as coisas vão bem. E isso é muito importante, porque as pessoas precisam saber quanto custa manter um hospital público, uma organização social (OS). E a repercussão desses custos para o orçamento de uma cidade! Existem municípios que verdadeiramente investem em saúde e outros que nada fazem, que viram as costas.

 

[PE] - Do que o senhor está falando exatamente?

Vicente Caropreso - Vou dar um exemplo – Florianópolis e São José. São municípios que recebem um grande aporte de recursos do Estado, porque ali estão as maiores estruturas hospitalares estaduais. Essas prefeituras gastam o mínimo na saúde, de uma maneira controversa com Jaraguá, Blumenau e outros municípios, onde não tem a participação tão intensiva do Estado. Há casos em que as prefeituras precisam aplicar o dobro do que é previsto em saúde, porque têm que manter plantão de UTI, de emergência e urgência. Essa situação é muito criticada, em Jaraguá do Sul, minha cidade, mas também em muitas outras que já percorri. Cobram a distribuição equitativa dos recursos da saúde. Sem o efetivo envolvimento das comunidades nas administrações hospitalares, cobrando e pressionando, esse quadro não vai mudar.

 

[PE] -  Que outros desafios enfrenta no dia a dia da Secretaria?

Vicente Caropreso - O corporativismo e a dificuldade de gerenciamento dessas grandes unidades hospitalares são o meu maior desafio como secretário. Por causa da complexidade. Pequenos hospitais são mais fáceis de administrar, mas hospitais que fazem desde conserto de uma topada no dedo até um transplante de medula óssea... é muita coisa para gerenciar. E esses hospitais da rede pública estadual, que são 13, não têm praticamente nenhuma autonomia e ainda sofrem com a pouquíssima participação da comunidade. Alguns têm conselhos de voluntários que ajudam nos momentos mais críticos, entretanto, são exceção e não regra. Sozinhas, essas 13 unidades absorvem R$ 1,1 bilhão por ano de um orçamento geral de R$ 3,2 bilhões. Por outro lado, junto com as cinco unidades mantidas pelo Estado por meio de organizações sociais, totalizando 18 hospitais, cobrem 28% da população. O restante é atendido por hospitais filantrópicos, terceirizados, privados, municipais. Isso cria uma grande chiadeira, porque todo mundo gostaria de ter alguns equipamentos de ponta bancados pelo Estado ou remuneração muito melhor por serviços prestados. E aí vem outro grande problema...

 

[PE] - Qual?

Vicente Caropreso - O custo, que é muito menor nos filantrópicos, me resolve mais do que um custo muito maior dos hospitais da rede pública e de OSs, que também são bancadas pelo público. Por isso estamos focados em modernizar a gestão, rever os contratos de gestão e implantar, pela primeira vez na Secretaria, o gerenciamento de todos os números produzidos pelos hospitais do Estado. Hoje, através do programa We Know (Nós Sabemos), temos controle sobre o tempo que uma pessoa ficou internada no pronto-socorro, quais as vagas de uma UTI, o tempo para o atendimento de uma pessoa em um pronto-socorro, quem é o médico e qual a sua produção, estoque de materiais e medicamentos, inclusive indicando a data de vencimento.

 

[PE] - No que esse controle ajuda?

Vicente Caropreso - Garante uma perspectiva boa de, pela primeira vez, fazermos um orçamento real. Estamos aplicando o sistema We Know há cinco meses e já economizamos, mantendo o mesmo nível de atendimento, R$ 50 milhões, em insumos, comprando melhor, contendo desperdício, controlando horas-extras. Por incrível que pareça, isso nunca tinha acontecido na Secretaria antes. E fizemos outros cortes. Reduzimos em 50% o número de terceirizados em funções não relacionadas à atividade fim, a prestação de serviços à população. O contrato, que era de R$ 4,5 milhões por mês, caiu para R$ 3 milhões. Sem perda das condições de trabalho. O Estado tem que cortar dentro da sua própria carne.

 

[PE] - O governador Raimundo Colombo sempre demonstra desagrado com o que chama de judicialização da Saúde. O que ocorre de fato?

Vicente Caropreso - Esse é um fenômeno que tem se espalhado pelo Brasil. O que deveria ser exceção virou regra. Vamos ter um impacto de R$ 250 milhões em 2017, valor significativo, uma vez que representa quase 10% do nosso orçamento. Mas não ficamos nos lamentando! Tratamos de importar do Estado de São Paulo, sem custos, o melhor sistema de rastreamento de ações que pedem medicamentos e tratamentos não previstos na saúde pública. É o S-Codes, que me dá o nome do paciente, do médico, do juiz, vara, comarca, medicamento, tempo de tratamento. Com esses dados em mãos, projetamos uma economia de pelo menos 20%, porque também não havia qualquer controle. Por exemplo, apenas três pacientes que judicializaram pedidos receberam remédios que perfizeram uma conta de R$ 400 mil. Apenas três pessoas! São casos de vida ou morte que exigem, da nossa parte, organização sim ou sim. Só pra você ter uma ideia, algum tempo atrás tivemos uma crise de falta de material cirúrgico no Hospital Infantil Joana de Gusmão, que recebe pacientes de todas as regiões. Precisei de apenas R$ 150 mil para resolver o problema, beneficiando centenas de crianças. Compare, então, com os R$ 400 mil que beneficiaram apenas três pessoas. É o direito coletivo versus o direito individual. Temos que obedecer as demandas judiciais, mas trabalhamos para levar mais informações aos juízes, que deram uma resposta muito positiva. Depois de tanto conversar, hoje o Judiciário é nosso aliado. O S-Codes foi implantado há duas semanas e estará em operação plena no início de dezembro.

 

[PE] - Como está a situação dos hospitais filantrópicos? E do Hemosc e Cepon?

Vicente Caropreso - Temos ainda uma dívida importante com eles. Recebemos uma ajuda do Ministério da Saúde, de R$ 25 milhões, para honrar cerca de um terço da dívida. É um alento. Estamos estudando e negociando com todas as OSs para definir até onde vai a responsabilidade do Estado, respeitando os limites orçamentários. Isso vai demandar que a sociedade encontre meios de participar da elaboração de outras formas de se fazer saúde, porque não adianta deixar a porta aberta e não ter condições de manter o atendimento com qualidade. No caso da Fahece (Fundação de Apoio ao Hemosc/Cepon), estamos negociando as dívidas, que estimo em algo por volta dos R$ 70 milhões, e temos uma boa chance de liquidar essa dívida até o final do ano, permitindo que tenhamos um relacionamento mais saudável e realista com a com a Fundação. São recursos do governo do Estado, aliás, única fonte de recursos das OSs.

 

[PE] - Nada do Ministério da Saúde?

Vicente Caropreso - Vem indiretamente. O Ministério, através de suas políticas, tem arranjado formas de participar cada vez menos do atendimento médico. Antigamente, tínhamos um orçamento no qual o Ministério da Saúde arcava com praticamente 50%. Hoje, mal chega a um quarto. O restante depende dos estados e dos municípios, que estão sendo altamente penalizados. É uma preocupação compartilhada com o Fórum Parlamentar Catarinense, com o qual temos perfeito entrosamento. Secretaria da Saúde, governo do Estado, deputados federais e senadores catarinenses estão sempre lutando por recursos extras e a melhoria das habilitações de vários serviços já instalados. Recentemente, recebemos mais de R$ 10 milhões que foram incorporados anualmente, em definitivo, para beneficiar cidades e serviços. Facilita muito podermos contar com dois deputados federais que já foram secretários da Saúde, a Carmen Zanotto e o João Paulo Kleinübing. Têm mais sensibilidade e solidariedade, até por já terem vivido as dificuldades daqui. Outra luta será mudar o nosso teto financeiro junto ao Ministério.

 

[PE] - O que isso significa?

Vicente Caropreso - Vou dar o exemplo dos três estados do Sul: Santa Catarina recebe R$ 208,00 por habitante ao ano (per capta), enquanto o Paraná recebe R$ 251,00 e o Rio Grande do Sul, R$ 254,00. Não vemos o motivo de tanta diferença. A correção disso poderia representar mais R$ 150 milhões por ano para nossa saúde! A cobrança é permanente, mas o Ministério resiste.

 

[PE] - O senhor tem dificuldades também com o próprio Executivo estadual?

Vicente Caropreso - A maior dificuldade é a imprevisibilidade no repasse de recursos por parte do Tesouro para a Secretaria, o que me impede de manter regulares as políticas públicas de saúde. Aí começa o sofrimento! Se faltam recursos, o que se tem é direcionado para o essencial. Ainda assim, às vezes não é suficiente. A mudança aplicada no ano passado na Constituição do Estado prevê uma evolução gradativa do orçamento da Saúde para 15% até 2019 sobre a arrecadação. Mas não está acontecendo. Fora o passivo que nos foi deixado. Fornecedores que fecharam as portas por não terem recebido seus pagamentos por parte do Estado ou, ainda mais pernicioso, abrir uma licitação e ninguém concorrer por receio de não receber e sair prejudicado. Felizmente, de setembro para cá melhorou bastante, mas essa situação gera muita ansiedade, muita angústia, e atrapalha o trabalho.

 

[PE] - Qual a sua meta como secretário da Saúde?

Vicente Caropreso - Deixar a área bem mais organizada e com uma política definida, processos que sejam mantidos independentemente de quem esteja secretário. Algumas coisas eu vou resolver, mas em um ano não se pode resolver tudo. Temos situações agudas, que exigem rápida solução, como transformar mais unidades próprias em OSs. Já estamos fazendo estudo de viabilidade técnica e financeira, para logo podermos tomar a decisão. A primeira deve ser a unidade de Ibirama e a segunda, a de Lages, dois hospitais públicos estaduais, hoje administrados diretamente pelo Estado. As vantagens dessa mudança são a redução de custos com recursos humanos e a celeridade na compra ou manutenção de equipamentos, infraestrutura. No mínimo, é possível reduzir em 20% o custo. Mas tudo será feito de forma muito cautelosa para não haver prejuízo aos serviços prestados. A equação é lógica – atender mais pessoas com a mesma quantidade de recursos.

 

[PE] - Como o senhor está se sentindo dentro do governo? Fica até o prazo final para a desincompatibilização?

Vicente Caropreso - Política é como o céu, num momento está carregado de nuvens e noutro, limpo como céu de brigadeiro. Tudo vai depender do encaminhamento de várias situações. Politicamente, tenho um limite para suportar fatos negativos que possam afetar minha imagem, minha trajetória. Vamos ver como ficarão os repasses para a Saúde, que vão me dar condições de honrar os compromissos assumidos, sem sofrer mais constrangimentos. Nos primeiros quatro meses aqui, passamos por situações bastantes críticas. Meu relacionamento com o governador Colombo é muito bom. Só o que eu preciso é que me repassem, mensalmente, o que a Constituição determina. Sem isso, vivemos situações de desgaste. Bilateral.

 

[PE] - Quais as suas pretensões para 2018?

Vicente Caropreso - Sou um pré-candidato à reeleição como deputado estadual. Está havendo alguma pressão para que eu concorra à Câmara dos Deputados. Vamos definir de acordo com o andar da carruagem. O importante é terminar bem o desafio aqui e voltar para a Assembleia com todo o gás para acelerar na política.

 

[PE] - O senhor receia respingos negativos do PSDB nacional na campanha estadual do ano que vem?

Vicente Caropreso - Todos os partidos tiveram problemas. O PT, o PSD, o PP, o PMDB... e o PSDB também, pelo suposto envolvimento do nosso presidente, o senador Aécio Neves. A grande tarefa do ano que vem não vai ser só pedir voto, mas convencer o eleitor a sair de casa para votar. De minha parte, estou com a consciência tranquila de que tenho feito o melhor.

A política é um ato contínuo. É preciso estar muito bem, com a cabeça muito tranquila, para saber fazer essa ciência que é a política; tem que deixar muito claro quais as suas intenções, comprovar a sua biografia e trabalhar bastante. Não acredito em milagreiro. E tenho receio das confusões que poderemos viver com milagreiros que surgem do nada. Não sou radical e não gosto de radicalismos. Gosto muito mais de ouvir todas as partes para não provocar qualquer confusão ou mal estar. A divulgação a esmo de mentiras e o radicalismo têm dominado as mídias sociais, mas o Brasil não tem em seu DNA esse comportamento tão grave. Receio o que possa vir daí. Se não nos entendermos, os aventureiros podem se instalar. Eles estão aí. Considero que hoje estamos vivendo a pior fase do país, com justiceiros surgindo e conquistando seguidores.

 

[PE] - Que partidos o senhor prefere que estejam em aliança com o PSDB em 2018?

Vicente Caropreso - A minha preferência é que tenhamos a cabeça de chapa. Ponto (risos).

 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

 

 

 

 

 

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