[Pelo Estado] Entrevista Secretário de Turismo, Cultura e Esporte, Leonel Pavan - 30/01/2017

30.01.2017

“Assumi uma responsabilidade muito grande”

No dia 17 de janeiro, Leonel Pavan tomou posse como novo secretário de Estado de Turismo, Cultura e Esporte (SOL). Ele é natural de Ponte Serrada, mas sua trajetória política começou  já em Balneário Camboriú, onde foi eleito vereador e, por três vezes, prefeito da cidade. Foi deputado federal, senador da República, governador do Estado e estava cumprindo o mandato de deputado estadual, pelo PSDB, quando recebeu – e aceitou – o convite para assumir o comando da SOL.

Pouco mais de uma semana depois da posse, a reportagem da Coluna Pelo Estado conversou com Pavan para saber de seus planos para as áreas pelas quais agora responde. No turismo, por exemplo, ele já lidera o Projeto Totens, que pretende lançar ainda em 2017 e que, ao fornecer informações sobre Santa Catarina em locais de grande fluxo de pessoas, será também uma ferramenta de divulgação do estado. Pavan também fala da repercussão de sua decisão, de aceitar a Secretaria, dentro do PSDB. “Não podemos botar a carroça na frente dos bois.” 

*Íntegra da entrevista. Contém trechos não publicados no meio impresso

[PeloEstado] - O senhor assumiu a SOL há menos de duas semanas. Quais as primeiras providências?
Leonel Pavan -
A primeira providência é montar uma equipe altamente técnica para cada uma das áreas, Turismo, Cultura e Esporte, e ainda estamos montando. É que isso aqui parece uma casa de consultoria. Você analisa projetos dos outros e tem que prestar contas sobre eles. Temos 661 projetos, de 2012, 2013, 2014, 2015 e 2016, que ainda não foram apreciados ou julgados pela Secretaria. Veja o volume! Temos um prazo para julgar isso. Essa equipe terá como desafio dar encaminhamento à prestação de contas de ações e eventos que já aconteceram, para então mandarmos para a Procuradoria do Estado. Uma verdadeira força-tarefa.

[PE] - E ainda chegam mais...
Pavan -
Sim. Paralelamente estamos recebendo e dando andamento os que chegam, e organizando os que se acumularam sem o devido encaminhamento. É uma questão de gestão. Sem boa gestão, nada acontece. Nesse curto espaço de tempo aqui, já nos reunimos com o Conselho de Turismo e também com o Conselho de Cultura. Fui me apresentar, apresentar as nossas ideias, mas, principalmente fui ouvir. No início de fevereiro o mesmo ocorrerá com o Conselho de Esportes. Queremos definir prioridades em conjunto com os conselhos, porque a Secretaria não tem caixa. Tivemos um corte muito grande no orçamento, aprovada na Assembleia. Um corte de 40%. Hoje praticamente não temos orçamento. O que há de recursos não atende às necessidades.

[PE] - O que fazer então?
Pavan -
O governador Raimundo Colombo está muito solícito. Quando me convidou, prontificou-se a ajudar, mas temos que apresentar os projetos. E ele tem apoiado tudo o que temos apresentado. Inclusive o Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura para 2017. Ele aprovou de cara, mesmo diante de um custo de quase R$ 5 milhões. Mostrou que tem sensibilidade, apesar das dificuldades financeiras. Por enquanto, na Cultura é a nossa melhor notícia.

[PE] - Há boas notícias também para o Esporte?
Pavan -
Várias. Na verdade, há um calendário vasto, sendo que o destaque do ano será o Jogos Abertos de Chapecó. O de 2016 foi suspenso por causa da destruição que aconteceu em Tubarão, com o temporal que atingiu a cidade. Em 2017, vamos fazer um evento diferenciado, porque será realizado também em comemoração aos 100 anos de Chapecó, que ainda sofre com a situação da Chapecoense. Mas esse objetivo não vai reduzir a atenção aos Jogos Abertos Paradesportivos (Parajasc), ou aos Jogos Abertos da Terceira Idade (Jasti), Jogos da Juventude Catarinense (Olesc), Joguinhos, Jogos Escolares (JESC), Moleque Bom de Bola e aos Jogos Escolares Paradesportivos (Parajesc).

[PE] - Mas é inegável que Turismo é a sua paixão. O que planeja?
Pavan -
Trouxe para ser meu adjunto o professor Francisco Antônio dos Anjos, que é especialista na área e ministra aulas em Portugal, na Inglaterra, na França. Por enquanto ele está mais na área administrativa, organizando a casa, dando uma mexida aqui dentro para começarmos a preparar desde já os projetos de promoção do inverno, que está logo ali. De uma maneira geral, vamos trabalhar mais as ações de receptivo e também melhorar o acesso a informações que, na verdade, serão uma ferramenta de divulgação, de promoção do estado. Quando o turista chegar a Santa Catarina e parar, por exemplo, em um posto da Polícia Rodoviária Estadual, poderá obter, com seu próprio celular, informações sobre destinos turísticos em Santa Catarina. É um aplicativo que estamos desenvolvendo com base em QR Code (Wikipédia - sigla do inglês Quick Response, ou resposta rápida, é um código de barras bidimensional que pode ser escaneado pela maioria dos telefones celulares equipados com câmera). Estamos chamando esse projeto de Totens, pois além do código também teremos ali folders com as mesmas informações. Por enquanto, o projeto-piloto é com a Política Rodoviária Estadual, mas queremos expandir para os postos da Polícia Rodoviária Federal, shoppings, rodoviárias, aeroportos e outros locais com fluxo intenso de pessoas, não só aqui, mas em outros estados e países vizinhos. Estamos trabalhando em conjunto com o Ciasc (Centro de Informática e Automação) para lançar esse projeto em breve.

[PE] - O que motivou esse projeto?
Pavan -
O turismo de Santa Catarina precisa ter maior amplitude em sua divulgação. Já somos um destino turístico muito forte, mas essa queda de movimentação, que foi geral no país em função da crise, tem que ser revertida urgentemente e o caminho é mostrar as potencialidades que temos. E vamos trabalhar o turismo de forma regionalizada, seguindo as 12 regiões turísticas já elencadas pela Embratur. Queremos projetos que despertem a curiosidade dos visitantes, que precisa perceber que em tantos quilômetros pode estar ali ou lá adiante e conhecer paisagens fantásticas. O turismo perdeu força no Brasil. Santa Catarina sentiu menos, mas mesmo assim temos que fazer um grande trabalho de capacitação das pessoas que trabalham na área e também de mídia. Temos que, constantemente, fazer com que o Brasil pense Santa Catarina e escolha Santa Catarina para passear. E não só litoral, mas também os pequenos municípios, o interior.

[PE] - Há bom entrosamento com o presidente da Santur, Valdir Walendowsky? E com o trade?
Pavan -
Quando eu fui senador, indiquei o Walendowsky para assumir a Santur, já em 2002. Quando fui governador, ele ficou com a Santur e também com a Secretaria. E agora pedi para o governador mantê-lo, porque me dou muito bem com ele, conhece muito da área e é um trabalhador. Não tem preguiça. Na minha equipe não pode ter preguiça! É só me acompanhar!

[PE] - E com o trade turístico?
Pavan -
Foram os primeiros que me incentivaram a aceitar o convite do governador. A ABAV (Associação Brasileira de Agências de Viagens-SC), a ABIH (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis-SC), a Federação de Convetion & Visitors Bureaux do Estado, o pessoal do Beto Carrero... é um desafio! Estou com 62 anos. Se continuasse na Assembleia, ainda estaria de férias, e nem férias tive. Assumi uma responsabilidade muito grande, porque tenho que botar minha digital em tudo o que acontece aqui dentro. Eles podem esperar de mim muito trabalho e muita dedicação. Mesmo estando limitados pela falta de recursos. Não é mais como antigamente, em que se tinha o Fundo Social desvinculado. Era um dinheiro limpo para se fazer investimentos, até grandes obras. Não se pode cortar dinheiro da saúde, da educação ou da segurança. Mas para o turismo, a cultura e o esporte é possível dizer não. 

[PE] - As escolas de samba são um exemplo desse “não”?

Pavan - Muitas estão brabas comigo, mas assumi há poucos dias. Para evitar mais problemas, vamos repassar recursos para as prefeituras que apresentarem projetos de carnaval, conforme regras do edital. E cada prefeitura negocia com as escolas de samba da cidade. Estamos sofrendo muita pressão, porque tem cidades com carnavais tradicionais. Mas é preciso seguir estritamente as orientações do nosso Jurídico.

[PE] - O senhor vem recebendo muitos prefeitos. Algum assunto que já possa anunciar e que seja relevante?

Pavan - Já atendi, em oito dias, 46 agendas. Os prefeitos eleitos e os secretários trazem assuntos muito importantes. Mas o que mais me chamou a atenção até agora, também porque já estamos dando encaminhamento, foi o encontro com o prefeito de Santo Amaro da Imperatriz, Edésio Justen, sobre o Hotel Caldas da Imperatriz. É um hotel histórico, que recebeu a Família Imperial. Ele precisa ser recuperado. É um hotel público estadual e que está sob a administração do município. Vamos procurar a iniciativa privada para uma parceria e para fazer ali, aproveitando a vocação de Santa Catarina, um hotel-escola: turismo, gastronomia e hotelaria. E a cidade vai receber um tratamento que valorizará toda a simbologia daquele hotel. O Hotel São Pedro, no interior de São Paulo, também é de águas termais. A Fecomércio de São Paulo assumiu o projeto do hotel escola e hoje é um case de referência nacional e internacional. Queremos fazer o mesmo aqui.

 

[PE] - O centro de eventos de Balneário Camboriú foi sua pauta constante na Assembleia Legislativa. Como está a situação?

Pavan - Nós começamos a tratar desse centro ainda em 2009. Discuti o projeto com o Luiz Henrique (da Silveira, então governador) e pedi para cuidar desse projeto. Aí, fizemos uma licitação do projeto e a empresa vencedora fez “o” projeto. Seria um dos maiores e melhores centros de eventos do país. Era uma obra muito cara, mas que poderia ser feita em etapas. Diante do custo, a prefeitura local fez modificações. Novas modificações foram feitas também aqui na Secretaria. E essas mudanças resultaram em erros que agora estamos procurando corrigir. No dia seguinte à minha posse, fui visitar a obra. Um dos erros é o tamanho pequeno de quatro salas, auxiliares ao pavilhão principal. Agora, depois de uma conversa com os bombeiros, as quatro salas, de 700 lugares cada uma, mais ou menos, viraram duas, salas de 1,5 mil pessoas e ainda são reversíveis em quatro.

[PE] - Quando esse empreendimento deve ser inaugurado?

Pavan - Se mantivermos o ritmo atual, no próximo mês de setembro o Centro de Eventos de Balneário Camboriú será inaugurado. Esse foi um dos bons motivos da minha paixão por assumir a Secretaria. Se o meu trabalho é o preço que vou pagar para ajudar a melhorar o turismo regional, eu pago o preço. Aquele centro de eventos tem uma grande importância.

[PE] - Essa é a principal obra da área e turismo no momento?

Pavan - É a principal, mas não a única. Estamos retomando as obras em Dionísio Cerqueira, Itapema e Garuva dos Centros de Atendimento ao Turista. Nós determinamos a aceleração das obras. O de Garuva está parado. Estamos multando e mudando a empresa. O de Itapema, faltam documentos e já estamos resolvendo isso. E o de Dionísio Cerqueira, autorizei os primeiros R$ 31 mil para a obra.


[PE] - O senhor ter aceitado assumir a SOL gerou um desgaste em seu partido. Como está lidando com isso?
Pavan -
Desde o dia em que fomos convidados, ainda em novembro, nos reunimos várias vezes com a bancada, que aprovou a minha entrada na Secretaria em todas essas reuniões. Mas precisava um ajuste, uma vez que a minha saída e a do Vicente Caropreso (hoje secretário de Estado da Saúde) da Assembleia abriu a suplência para um deputado que abandonou o PSDB (Nilson Gonçalves, de Joinville). Mas, quando aceitamos, não assumimos qualquer compromisso político. Aceitamos, isso sim, um desafio, na Saúde e no Turismo. É claro que me senti valorizado pelo governador, mas a questão política é outra coisa. Na Assembleia, nenhum outro partido foi tão fiel e leal ao governo sem ser do governo. Agora nós temos funções, que não nos obrigam a estar juntos depois.

[PE] - O senhor se refere às eleições de 2018. Não é uma incoerência estar junto agora sem pensar em estar junto depois?
Pavan -
Não. O PMDB também está no governo e tem a sua candidatura. E o PSD também tem sua candidatura. O PP também pode ter candidato. É a força da democracia! Eu era governador do Estado em 2010 e o DEM não estava no meu governo. Mas o PSDB apoiou o DEM, elegendo o Colombo (hoje no PSD). Era natural que eu fosse candidato ao governo, mas houve um convencimento de que o melhor caminho seria uma candidatura de Raimundo Colombo. E nós o apoiamos. Por que ele agora não pode nos apoiar se nós formos o melhor caminho? E por que o PSDB não pode apoiar o atual governo do Estado se o atual governo nos oferecer um caminho mais seguro para o Brasil, com apoio em nível nacional? Não se pode fazer uma oposição burra e não se deve ser uma situação intransigente. De qualquer forma, não podemos botar a carroça na frente dos bois.

[PE] - Como assim?
Pavan -
É tudo uma construção! Ainda falta um ano e pouco para definir candidaturas. Ainda poderá haver uma reforma política. Ainda pode acontecer alguma mudança no cenário nacional. Muita coisa pode acontecer. Apostar no errado agora, dizer que somos oposição, seria antecipar uma decisão. Sou, sim, do PSDB, mas minha lealdade ao governo em que estou hoje é pura. Nenhuma vez me pediram um comprometimento político, mas eu não me sentiria mal se tivesse que estar junto. E me refiro ao governo do PSD e do PMDB. Se alguém conversa com o PMDB e eu converso com o PSD, é governo igual! Não estou no governo de uma sigla!

[PE] - O senhor pretende retomar o plano de ser governador?
Pavan -
Já disputei muitas eleições, contribuí muito com meu Estado e com meu partido. Nós, mais ou menos, já sabemos quem serão os candidatos por outros partidos. O PSDB, que é a terceira maior força partidária do estado, tem muitos bons nomes, inclusive o meu. Posso ser candidato ou não ser nada. Não irei impor uma candidatura e ainda me coloco à disposição para construir uma coligação ou até para coordenar uma campanha. Não verão de minha parte uma candidatura intransigente, impositiva.

 

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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