Pelo Estado Entrevista: Sérgio Arruda, Senai-SC

01.10.2012

“Nosso nível educacional precisa ser elevado”

Entrevista da Semana: Sérgio Arruda, SENAI-SC

Natural de Lages, é formado em Engenharia Elétrica (UFRGS/1966), com mestrado em Electrical Machines and Power Systems (Universidade de Londres/1970) e especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho (UDESC/1974). Foi chefe de Departamento de Engenharia Elétrica e diretor do Centro Tecnológico da UFSC, além de diretor-presidente da Fundação para Ensino de Engenharia (FEESC). Também atuou como diretor de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do governo do Estado e como pesquisador do CNPq/RHAE. Foi engenheiro na Celesc e diretor- superintendente do Senai-CTAI. Em 1998, é diretor Regional do SENAI-SC. Também é membro do Conselho de Curadores da UFSC, do Conselho Estadual de Educação (CEE-SC) e do Sebrae-SC.

 

[PeloEstado] - O que é o movimento “A Indústria pela Educação”, lançado na sexta-feira (28/09)?

Sérgio Arruda - Nós cha­mamos de movimento porque a ideia é envolver a indústria nesse grande esforço de me­lhoria e difusão da Educação em Santa Catarina. As casas do Sistema Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), que são Senai, SESI e IEL (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, Ser­viço Social da Indústria e Ins­tituto Euvaldo Lodi), traba­lham com Educação, a fim de oferecer condições para uma melhor preparação do nosso trabalhador. Mais que isso, com esse movimento quere­mos que a sociedade comece a interferir positivamente no processo educacional.

[PE] - O que está motivan­do esse movimento?

SA - A indústria, e a socieda­de em geral, têm reclamado que faltam recursos humanos devidamente qualificados e em número suficiente. E nós temos um programa muito grande, vinculado ao gover­no federal, que é o Pronatec (Programa Nacional de Aces­so ao Ensino Técnico e Em­prego), que pretende exata­mente preparar mais pessoas para trabalhar na indústria. Este é um setor que está mu­dando, a sociedade brasileira está mudando, e a Educação precisa acompanhar esse mo­vimento, precisa de uma qua­lidade mais adequada. A ava­liação da Educação do nosso país, pelas pesquisas que são feitas, notadamente a PISA (Program for International Student Assessment, traduzi­do para Programa Internacio­nal de Avaliação de Alunos), é muito ruim. Nosso nível edu­cacional precisa ser elevado. No PISA, entre 63 países ava­liados, nós ocupamos o 53º lugar em Matemática, por exemplo. Para melhorar nos­sa condição, precisamos fazer alguma coisa diferente do que está sendo feito. Daí a neces­sidade de trazer as empre­sas e os industriais para esse grande movimento em prol da melhoria e da ampliação da Educação, especialmente técnica e tecnológica.

[PE] - É uma corrida con­tra o tempo?

SA - Precisamos compensar o tempo perdido e avançar. Está no Mapa do Trabalho Industrial, divulgado na se­mana passada, que Santa Catarina vai precisar, no mí­nimo, de 461 mil novos tra­balhadores com formação técnica até 2015. Nós temos capacidade para formar toda essa mão de obra? Temos, mas precisamos do auxílio de toda a sociedade, principal­mente dos industriais, mas também do poder público em todas as esferas. Recursos existem, seja via Pronatec ou pelos programas tradicionais de SESI, Senai e IEL. O que queremos, agora, é focar nos empresários e mostrar que a participação deles é essencial, incentivando os empregados e dando condições para que se inscrevam e frequentem os cursos. Os empregadores de­vem ter em mente que, para que tenham competitivida­de maior, para que possam aportar tecnologia e investir em inovação, precisam ter gente qualificada. E que para qualificar pessoas, é necessá­rio melhorar todo o nível da Educação, em Santa Catarina e no Brasil.

[PE] - Hoje, qual é a maior carência em Santa Catarina?

SA - Isso é definido pela vo­cação regional. Santa Catari­na tem uma economia muito distribuída e, por isso, cada região tem um tipo de carên­cia. No Oeste faltam traba­lhadores qualificados para a agroindústria, no Norte, para a metalmecânica, no Vale do Itajaí, para o setor têxtil, no Sul, para materiais. É muito diversificado.

[PE] - A intenção é pro­mover só a formação téc­nica ou voltada para o de­sempenho profissional?

SA - Não. A atuação do SESI, por exemplo, é em grande parte voltada para a educação formal, no ensino fundamen­tal e no EJA (Educação para Jovens e Adultos). Já o IEL tem a visão de treinar executi­vos e o Senai oferece todos os níveis de ensino médio, cursos técnicos, de qualificação, cur­so superior e até pós-gradua­ção, mais voltados para a área tecnológica. O trabalho de um complementa o do outro.

[PE] - Quantas pessoas o Senai-SC atende na área de Educação?

SA - O Senai tem uma meta muito ambiciosa. Queremos saltar das 90 mil matrí­culas de 2011 para 180 mil em 2014. Veja que levamos 58 anos para chegar em 90 mil e ago­ra, em apenas três anos, queremos duplicar nos­so número de matrícu­las. Para isso, o Sistema Fiesc, via SESI e Senai, vai investir em torno de R$ 330 milhões até 2014. Desse montante, caberá ao Senai aplicar R$ 230 milhões, em instalações, la­boratórios e compra de equi­pamentos. E também no plano de implantação do Ins­tituto Senai de Inovação e do Instituto Senai de Tecnolo­gia, igualmente vinculados à área de Educação. Com isso, estamos prevendo para o pe­ríodo 2012/2014, em todo o Sistema Fiesc, quase 800 mil matrículas, envolvendo educação básica, educação profissional, básica e profis­sional articuladas, educação continuada, educação execu­tiva, programas de estágios e capacitações.

[PE] - Além da formação propriamente dita, o tra­balhador ganha também com o salário melhor.

SA - O acúmulo de conheci­mento, a formação e a quali­ficação profissional resultam, naturalmente, em melhores salários. A indústria está mu­dando. O Mapa do Trabalho Industrial mostrou que há ca­sos de remuneração inicial aci­ma de R$ 2 mil, com previsão de crescer mais de 170% em dez anos. Em algumas ativida­des técnicas, o salário inicial é de R$ 4 mil a R$ 8 mil, po­dendo ultrapassar esse valor. Em muitos setores em que é intensiva a atividade manu­al e se introduz a automação, há a substituição de postos de trabalho de baixa tecnologia pelos de maior tecnologia. Na indústria metalmecânica, por exemplo, quando você subs­titui um torno convencional, operado manualmente, por uma máquina CNC (Controle Numérico Computadorizado), passa a precisar de um técni­co mais qualificado. Por sua vez, esse trabalhador vai pro­duzir mais, impactando na re­muneração. O movimento “A Indústria pela Educação” tem preocupação, também, com essa mão de obra que sobra do processo de automação, que precisa ser requalificado para o mercado, evitando o desem­prego. Soma-se aí o fato de estarmos com nível de desem­prego em 5,5%, ou seja, quase pleno emprego. Quem procura trabalho e possui qualificação, tem uma vaga à espera. Não fica desempregado.

[PE] - Para se matricular nos cursos ofertados pelo Sistema Fiesc o trabalha­dor precisa estar empre­gado em uma indústria?

SA - Não necessariamente. Nós qualificamos o pessoal para a indústria. O trabalha­dor pode não estar empregado no setor, mas a formação que oferecemos é para atender às demandas industriais.

Florianópolis, 01 de outubro de 2012

Por Andréa Leonora

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