[Pelo Estado] Entrevista Vice-governador Eduardo Pinho Moreira

07.08.2017

“Uma eleição se ganha com motivação e planejamento”

 

O vice-governador Eduardo Pinho Moreira retirou seu nome de qualquer possível disputa para o governo do Estado e declarou apoio ao deputado federal e presidente da sigla no estado, Mauro Mariani, em quem enxerga a motivação necessária. Com isso, abriu espaço para que o partido possa planejar alianças e campanha. Em entrevista exclusiva à Coluna Pelo Estado, deixou claro que recuou, mais uma vez, para garantir a união do PMDB catarinense em torno de um só nome, evitando - ou pondo fim - as disputas internas. Moreira também falou de sua relação com o governador Raimundo Colombo, dos partidos que o PMDB tem interesse em chamar para uma composição para as próximas eleições e dos dois partidos - PT e PP - com os quais não vê chances de uma aliança. Também abordou o avanço do PSD, que tem como pré-candidato o deputado Gelson Merisio, mas sem descartar a possibilidade de uma nova coligação entre os dois partidos. “Não descarto nada.” 

(Leia aqui a íntegra da entrevista publicada nos diários da rede CNR-SC/ADI-SC/Central de Diários)

[PeloEstado] - Por que o senhor retirou o nome para a disputa ao governo do Estado em 2018?

Eduardo Moreira - São vários aspectos. O PMDB corria dois riscos. O primeiro era a divisão interna e isso acabaria fragilizando a pretensão do partido. Observei isso ao longo dos roteiros do 15 em Movimento, a angústia dos nossos companheiros e companheiras que não se manifestavam fortemente a favor do Mauro ou do Eduardo para não ferir suscetibilidades. Isso nos enfraqueceu. O segundo era o isolamento. O PMDB deve buscar parceiros e é claro que se não tivermos logo uma definição de quem será o candidato, vamos procurar outros partidos sem saber o que oferecer. Essas duas condições me fizeram entender que era o momento de eu recuar mais uma vez, assim como fiz em 2010 (em favor da aliança que elegeu Raimundo Colombo governador), para permitir que o PMDB, unido e fortalecido, possa participar com grandes chances nas eleições do ano que vem.

[PE] - O PMDB-SC vinha trabalhando com alguns nomes para cabeça de chapa. Além do seu, o do prefeito de Joinville, Udo Döhler, o do senador Dário Berger e o do deputado federal e presidente do partido, Mauro Mariani. Por que escolheu declarar apoio a Mariani?

Eduardo Moreira - O Dário tem dado declarações de que o candidato dele é o Mauro e acho que não tem mais como voltar atrás. Vejo que o Mauro faz um trabalho importante pelo partido, com muita disposição. Uma eleição se ganha com motivação e planejamento. O partido precisa planejar desde já, faltando praticamente um ano para o final das convenções, como será o caminho até a eleição de 2018. E o Mauro está extremamente motivado, percorrendo todas as regiões, com muita vontade. Vai ao Oeste e volta ao Litoral, vai ao Norte e volta ao Sul... está com o que é necessário para ter um bom desempenho e ganhar a eleição. Ele tem méritos. Percebi isso e abri mão. Vou ajudar o Mauro.

[PE] - O nome de Mariani não é uma unanimidade na bancada estadual. Como resolver isso?

Eduardo Moreira - A partir do meu posicionamento, ele vai ter unanimidade. Com o deputado Antonio Aguiar tem uma questão local que vai ter que ser administrada e vencida. Mas, todos os deputados, secretários de Estado e prefeitos que estavam muito próximos de mim se sentiram liberados, com a minha autorização, de fazer um trabalho em favor do Mauro. Esse é o pedido que tenho feito a todos. Repassei o patrimônio. O foco agora é Mauro Mariani candidato a governador.

[PE] - O PMDB catarinense pode pagar parte da conta do que está acontecendo em nível nacional, uma vez que é o partido do presidente Michel Temer, que tem enfrentado denúncias?

Eduardo Moreira - Não. Pelos nossos bons exemplos. Nosso grande líder foi o Luiz Henrique da Silveira. O que ele fez em 1º de fevereiro de 2015? Ele disputou a presidência do Senado com o Renan Calheiros (PMDB-AL), que representava fortemente esse grupo do qual você está falando. Hoje brigou, mas ele tinha o apoio do Michel Temer, do Romero Jucá, do Eduardo Cunha... dessa gente toda. Esse é um fato que tem que ser mostrado na campanha. Outro fato aconteceu em 2010, quando esse mesmo grupo me expulsou do partido (por ter aberto mão da candidatura ao governo em favor de Colombo). Moreira Franco foi o relator da Executiva que me expulsou. Ele, Geddel (Vieira Lima), Jucá, Renan. Todos votaram pela minha expulsão, menos um, Darcísio Perondi. Ele era da Executiva e questionou – vocês estão loucos? Expulsar o presidente do partido onde nós temos o melhor desempenho do Brasil. O motivo da expulsão não foi só eu ter aberto mão da candidatura para o Raimundo, mas não aceitar dar apoio para a Dilma (Rousseff), da mesma forma como Luiz Henrique não aceitava. Portanto, nós, do PMDB de Santa Catarina, temos posturas diferentes. O que não impede que tenhamos postura institucional com o presidente da República.

[PE] - O senhor teve um bate-boca pela imprensa com o senador Dário Berger. Como ficou a situação?

Eduardo Moreira - O PMDB deu ao Dário Berger a vitória e o mandato de oito anos que ele deve cumprir. Isso não é uma agressão. É uma constatação. E ele respondeu em um tom muito elevado. Essa confusão com o Dário atrapalhou o partido e ajudou na minha decisão de apoiar o Mauro. Os nossos adversários se aproveitariam disso e eu tratei de encerrar logo o assunto. E a base do partido ficou satisfeita.

[PE] - Qual deve ser o destino de Udo Döhler dentro do partido?

Eduardo Moreira - Ele é uma figura importantíssima dentro do PMDB. Prefeito da maior cidade catarinense, reeleito contra tudo e contra todos. É um bom exemplo do que o PMDB tem para mostrar a Santa Catarina. Faz uma gestão impressionantemente moderna, administra a cidade em um iPhone, tamanho o controle que tem. Udo é um home de visão e um depoimento dele a respeito do nosso candidato com certeza será um peso importante pelo bom exemplo que representa.

[PE] - Qual vai ser o seu caminho até as eleições? Assume o governo?

Eduardo Moreira -Eu preciso saber o que o Raimundo vai fazer. Ele diz que vai renunciar, mas quando não sabemos. Ele diz que vai concorrer a uma vaga no Senado, mas isso tem que ser construído conjuntamente. O ato de renúncia dele é pessoal e o meu ato de assumir é pessoal. Tudo vai depender de uma conversa que não tivemos ainda e que é inevitável que tenhamos. Conversamos sempre sobre questões administrativas, ele vai viajar agora para os Estados Unidos e eu assumo o governador durante sua ausência. Entretanto, sobre essa questão política não tivemos uma conversa definitiva, que vai existir oportunamente.

[PE] - O que pode levá-lo a não assumir o governo com a renúncia do governador?

Eduardo Moreira - Eu posso ter pretensão eleitoral também. Quem não gostaria de ser candidato ao Senado? Acho que seria uma oportunidade importante para mim. Mas é uma condição política e eleitoral que tem que ser administrada. Agora, a partir do consenso em torno do Mauro Mariani, o PMDB vai procurar aproximação e composição com outros partidos. Não sei se o PMDB ocupará apenas a cabeça de chapa ou outros espaços da majoritária. Hoje nós temos o candidato a governador. Os outros espaços são decorrentes das possíveis coligações.

[PE] - Em 2018, serão duas as vagas ao Senado. Pode haver uma composição com o seu nome e o do governador Colombo?

Eduardo Moreira - As circunstâncias políticas são dinâmicas e dependem dos encaminhamentos. Mas é claro que o PMDB gostaria que eu estivesse à frente do governo do Estado. E isso não está descartado, em nenhum momento. Se o governador renunciar, eu ficaria como governador por no mínimo nove meses. Quando eu assumi o governo para o Luiz Henrique disputar a reeleição, trabalhei para devolver o governo a ele com dinheiro e caixa. Agora não se trata de uma reeleição. Colombo vai concorrer ao Senado, é de outro partido... as circunstâncias são outras. E as conversas daqui para frente vão ser intensificadas. Não descarto nada. O quadro está totalmente aberto. Até porque, as denúncias que se sucedem poderão afetar em maior ou menos grau Santa Catarina.

[PE] - Como está a sua relação com o governador Colombo?

Eduardo Moreira - Nossa relação pessoal é ótima. Eventualmente, há discordâncias sobre decisões administrativas. Nada que dificulte a relação. Quando eu não concordo, como sou vice, assumo a posição do governo e não me manifesto. A principal discordância está nas ADRs. Acho que houve um equívoco que não trouxe vantagem alguma para o governo. Se eu assumir o governo, vou trabalhar para colocar as secretarias nos trilhos novamente.

[PE] - Há possibilidade, dentro da dinâmica política, de PMDB e PSD estarem juntos novamente?

Eduardo Moreira - É uma possibilidade que não afasto nunca. Até porque nós fomos tão corretos com o governador Raimundo Colombo, que é o líder maior do PSD... o líder maior do PSD não é o Merisio (presidente do PSD-SC). É o Colombo. O PMDB votou maciçamente no Colombo para senador, nas duas vezes para governador, apoia na Assembleia. O governador poderia fazer esse gesto, mas ele acha que isso só deve acontecer lá para junho ou julho do ano que vem. Pode ser que seja tarde demais.

[PE] - Que partidos estão na lista de interesse do PMDB-SC?

Eduardo Moreira - O PSDB não está afastado e as circunstâncias nacionais acabam interferindo para um atendimento aqui. Eles poderem ter duas vagas em uma chapa majoritária conosco pode ser um argumento importante para essa aproximação. Eu brinquei com o Paulo Bauer: Paulo, eu te elegi senador, estou gostando do seu trabalho, gostaria que continuasse no Senado por mais oito anos (risos). Ele sabe que o PMDB foi muito leal a ele em 2010. Todos nós... Luiz Henrique, eu e todas as nossas lideranças. Então, eu diria que não está afastada a aproximação com o PSDB, com o PR, PTB e outros partidos. O PSB eu acho mais difícil, porque eles já assumiram posição de dar uma candidatura ao Senado para o Paulinho (Bornhausen, presidente da sigla no estado). Mas é uma alternativa.

[PE] - O PSD está bastante adiantado nesse processo de composição, com o nome do deputado Gelson Merisio e a aproximação com vários partidos.

Eduardo Moreira - Isso faz parte do jogo. Ele tinha muito poder quando presidente da Assembleia, tinha o comando absoluto da Secretaria da Fazenda. Tinha poder de fogo que hoje já não tem. Política é assim: não tem espaço vazio. Os outros ocupam. Mas é legítimo. Se ele quiser continuar candidato, nós o enfrentaremos.

[PE] - Algum veto a partido em 2018?

Eduardo Moreira - O PT não vai querer estar conosco por conta da situação nacional. E o PP não tem jeito. Eles nos excluem historicamente. Água com azeite não se misturam. Nós já fomos muito condescendentes com eles, aceitamos a participação no governo, na presidência da Assembleia, que sempre dividimos com eles, primeiro com o Joares Ponticelli e agora com o Silvio Dreveck. O PMDB aceitou isso a pedido do governador para ter uma maioria mais estável no Legislativo e aprovar as matérias importantes que tem aprovado. Não foi uma concessão ao Esperidião Amin, como ele coloca em entrevistas, mas ao Raimundo Colombo.

 

PMDB-SC quer manter a descentralização

 

[PE] - O senhor desiste do sonho de ser governador eleito?

Eduardo Moreira - Na verdade, ser governador ou não ser governador não é o que mais me importa. O que eu quero é um programa de governo. Como o que implantamos em 2003, Luiz Henrique (da Silveira) e eu, com a descentralização responsável, com as Secretarias de Desenvolvimento Regional (SDRs), que melhorou Santa Catarina. Hoje, estamos colhendo os frutos daquilo que foi plantado. Antes a administração era centralizada em Florianópolis. O governador era um imperador a quem todos tinham que procurar para decidir suas questões. Luiz Henrique deu uma grande demonstração de sabedoria política ao dividir o poder. Isso é nobre em um gestor público. Ele foi e até hoje é considerado o melhor governador que Santa Catarina teve. É vital que descentralização continue, porque não é salutar que as pessoas tenham que se deslocar lá de Dionísio Cerqueira, que tem a mesma distância de Florianópolis que de Florianópolis a São Paulo, para verem recebidos seus pleitos. Isso não é lógico. Nosso estado é relativamente pequeno em relação aos outros, mais partiu na frente com essa proposta, que foi levada muito a sério. Tão a sério que eu, na condição de vice-governador, era o responsável pela implantação. O Luiz Henrique não fazia reuniões separadas entre secretários setoriais e regionais. Ele dizia: vocês todos são do mesmo nível. Por favor, usem meu fax para falar comigo. E o fax dele rodava todos os dias, no gabinete dele na Casa D’Agronômica. Ele lia todos e sabia sempre o que estava ocorrendo. Para valorizar as SDRs, ele não recebia prefeitos. Eles tinham que resolver os problemas nas regionais. A menos que fossem de oposição e que ele quisesse uma aproximação.

[PE] - O que mudou?

Eduardo Moreira - Hoje as SDRs (em 2015 passaram a Agências de Desenvolvimento Regional - ADRs) estão esvaziadas e isso é nítido. Foi uma decisão do governador Raimundo Colombo que temos que respeitar. É uma decisão de governo, uma forma de gestão diferente daquilo que o Luiz Henrique apregoava. Mas nós, do PMDB, queremos uma descentralização aprimorada. Isso não significa número de secretarias, que fique claro! Originalmente, no Plano 15, pelo qual fomos eleitos, previa 21 secretarias regionais e chegou a 36. Por que aumentou tanto? Porque no dia da posse, 1º de janeiro de 2003, Luiz Henrique governador e eu vice, o então presidente da Assembleia Legislativa, Onofre Agostini, pediu para criar a SDR de Curitibanos. Aí começou uma série de pedidos, feitos pelos deputados, para que fossem criadas secretarias em seus municípios ou microrregiões. Entidades do setor produtivo também fizeram movimento semelhante e o governador Luiz Henrique apenas atendeu os pleitos. Assim surgiram as SDRs de Braço do Norte, Palmitos, Itapiranga, Dionísio Cerqueira, de Seara e outras. Os próprios deputados, que hoje criticam, pediam para criar. Esse é o fato.

[PE] - A descentralização será mantida em um eventual governo do PMDB?

Eduardo Moreira - Será mantida, ainda que venhamos a discutir os números. É um modelo moderno. Atualmente, qualquer gestão pública moderna é descentralizada. Centralizar apenas no gabinete do governador é um grande equívoco que o PMDB não vai cometer.

[PE] - Mas na Assembleia se discute a extinção das ADRs.

Eduardo Moreira - É oportunismo. Foi criado um factoide de que é cabide de emprego. Só que se olhar a lei de janeiro e fevereiro de 2003, ela tirou os cargos comissionados de Florianópolis e remanejou para o interior. Não foram criados cargos novos. Portanto, é uma mentira, por falta de conhecimento ou má intenção, que foram criados cargos novos. É inconstitucional a extinção partir da Assembleia e eles sabem disso. Além disso, estão escondendo o custo das SDRs. Tenho até hoje, em meu celular, uma gravação do Raimundo Colombo, de 2014, dizendo que as secretarias regionais custavam menos do que o Ciasc (Centro de Informática e Automação do Estado). Há custos que existem com regional ou sem regional, como o do transporte escolar, repassado por meio dessas estruturas. Hoje são seis ou sete cargos comissionados, por secretaria, e 30 efetivos, das gerências de Educação, Saúde... Esse custo já existe! Eles querem que acabe tudo nas regiões e traga de volta para a Capital. É isso o que querem? Com um detalhe: quem indica os comissionados para as SDRs são os próprios deputados. Que contrassenso é esse? Sejam coerentes com suas posições e desindiquem!

[PE] - Esse assunto vai estar na campanha. O início desse bombardeio na Assembleia, contra as ADRs, já é um ataque ao PMDB?

Eduardo Moreira - Com certeza. Eles estão preocupadíssimos com a força do PMDB, notadamente agora que nós nos unimos. Não tem mais nenhuma voz dissonante com relação à candidatura do PMDB para 2018. O PMDB unido é forte em qualquer circunstância. Nas eleições municipais de 2016, elegemos ou reelegemos 101 prefeitos, muito mais que qualquer outro partido; elegemos o dobro de vereadores do segundo colocado! Isso mostra a força do PMDB, um partido que tem história, construído sobre bases sólidas.

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

Foto: Jeferson Baldo/GVG

Visualizar todos