[Pelo Estado] Especial Saúde do Trabalhador - 31/10/2016

31.10.2016

Saúde do trabalhador: elemento para elevação de produtividade e diferencial competitivo

Nos Estados Unidos, somada a totalidade de trabalhadores, chega a 39 milhões o número de dias perdidos em um ano por causa de doenças relacionadas à obesidade. Quando o motivo é depressão, o número salta para 200 milhões de dias perdidos por ano. Por lá, 15,3% dos trabalhadores admitem perder dias de trabalho ou ter limitação em suas funções devido ao consumo de álcool. As informações foram trazidas pelo gerente dos programas de saúde do Centro de Controle de Doenças e Prevenção do governo americano (Center of Disease Control and Prevention – CDC), Jason Lang, durante o “Fórum Internacional Saúde e Competitividade: a saúde como ativo estratégico nas organizações”. Realizado na terça-feira da semana passada (25 de outubro), em São Paulo, o evento foi promovido pela Federação das Indústrias (Fiesc), no contexto da Aliança Saúde Competitividade, em parceria com o Instituto Coalizão Saúde (Icos).

 

     A reportagem da Coluna Pelo Estado cobriu o encontro, durante o qual Lang explicou que para as empresas, independentemente do setor, os problemas de saúde levam ao mundo do trabalho o fenômeno do iceberg. Ou seja, os custos visíveis, com médicos e medicamentos são apenas um terço do custo total. A parte invisível, de dois terços, é formada por baixa produtividade, faltas ao trabalho de curta ou longa duração, afastamento prolongado e custos tributários. “Somos o país que mais gasta com saúde no mundo. Mesmo assim, temos muitos diabéticos, cardiopatas e obesos. A longevidade está aquém do investimento que fazemos. É preciso sair do modelo médico, que foca no tratamento da doença, e partir para a prevenção. O caminho atual não é sustentável”, decretou.
     Ele citou o professor e epidemiologista inglês Michael Marmot – “Não é razoável esperar que as pessoas mudem seus comportamentos quando os ambientes sociais, cultural e físico ao seu redor conspiram contra eles.” – para defender a instituição de programas de saúde no ambiente de trabalho.
Segundo o representante do CDC, as vantagens para as empresas passam pela redução da rotatividade e das faltas, queda com custos gerados por doenças crônicas, aumento da satisfação do empregado e de seu comprometimento organizacional com a saúde, além do aumento da produtividade. Para os trabalhadores, as vantagens vão da melhor qualidade de vida, à elevação da autoestima, além da redução de gastos pessoais com serviços de saúde, mais segurança no ambiente de trabalho e mais oportunidade de desenvolvimento laboral e social.

     Pioneirismo de Santa Catarina

     Assim como aconteceu na Educação, tema que ganhou atenção da Fiesc com o Movimento a Indústria pela Educação e hoje evoluiu para Movimento Santa Catarina pela Educação, o esforço em prol da saúde do trabalhador como elemento estratégico para a obtenção de melhores resultados para as companhias também é uma iniciativa pioneira da Federação catarinense e que já desperta interesse de outras federações estaduais, bem como da própria Confederação Nacional da Indústria (CNI). “Queremos fazer um piloto em Santa Catarina que possa se irradiar depois para os demais estados brasileiros”, explicou o presidente da Fiesc, Glauco José Côrte.
     Ele estava entusiasmado com o encontro por se tratar da primeira vez, no Brasil, que fornecedores e prestadores de serviços de saúde, e suas entidades representativas, dialogaram com os que contratam esses serviços no setor produtivo sobre assuntos de interesses comuns.

     Côrte destacou que o Brasil precisa evoluir muito em relação ao tratamento das pessoas afastadas do trabalho. “Em outros países, esse afastamento sempre é parcial. O empregado não pode ficar muito tempo fora de seu ambiente de trabalho. É importante que, mesmo que não tenha condições de exercer plenamente a sua função, esteja no local de trabalho, que continue se relacionando com os amigos. Quanto mais tempo o trabalhador fica afastado, maior é a possibilidade de não haver retorno. O trabalho tem que ser considerado como um fator de saúde e não de doença.”
     Questões como essa estão no centro do debate da Aliança Saúde Competitividade, lançada pela Fiesc no mês de junho e que já conta com a participação de cinco federações de trabalhadores de diferentes áreas, do Ministério Público do Trabalho, Superintendência Regional do Ministério do Trabalho e Emprego, Tribunal Regional do Trabalho e INSS. O tema está sendo tratado em workshops sobre saúde do trabalhador nas 16 regionais da Federação. Já ocorreram encontros em Chapecó, Lages e Criciúma. Nesta terça-feira (1º de novembro) será em Itajaí. O calendário de workshops deve estar concluído até março de 2017.
     “Um trabalhador com boa saúde é também um trabalhador mais produtivo, que amplia as suas oportunidades de carreira na empresa e, por outro lado, a empresa de torna mais competitiva. Esperamos que a partir desse encontro nós possamos continuar sensibilizando, sobretudo, os industriais catarinenses, que precisam ter consciência de que é melhor prevenir do que remediar. O investimento na prevenção traz um retorno extraordinário para as indústrias.” No Fórum Internacional Saúde e Competitividade, o presidente da Fiesc foi veemente quanto à necessidade de uma mudança de postura das organizações frente ao tema. Para ele, saúde e segurança não devem ser assuntos restritos aos departamentos de Recursos Humanos. Ao contrário, tratados como estratégicos, têm que ganhar cada vez mais espaço na direção das empresas. Até porque, dados do SESI nacional indicam que, no Brasil, 11,54% da folha de pagamento das empresas são dedicados aos planos de saúde. Trata-se do segundo maior custo da área social das organizações.
     Ao final do trabalho em São Paulo, o superintendente do SESI-SC, Fabrizio Machado Pereira, destacou como encaminhamentos a definição de medidas que levem a mudanças de visão, como a promoção de encontros e debates com diretores e gerentes das empresas, o fortalecimento e a valorização do papel do empregador como agente de promoção de saúde, a oferta de assistência técnica para a gestão integrada de saúde por meio de uma rede de apoio e o suporte às empresas no relacionamento com as operadoras de planos de saúde, para adequar propostas de ação e custos. “Trabalhamos muito com o contexto da educação, da inovação, da infraestrutura, que são gargalos de competitividade, mas a agenda de saúde se torna cada vez mais importante, porque ela gera custos adicionais para as empresas e para a sociedade.”
     Pereira explicou que o Instituto Coalizão Saúde (Icos)fez o convite para somar esforços com a Fiesc por não terem identificado movimento semelhante em outro lugar. “Eles desconhecem outro local do país com um movimento empresarial e industrial que esteja tratando desse assunto com o foco que temos em Santa Catarina. Isso chamou a atenção deles. É um diálogo inicial e que tem como mote a saúde como fator estratégico nas organizações.”
     O presidente do Icos, Claudio Lottenberg, defendeu que é preciso atrair mais atores para essa discussão e parar de considerar saúde como um problema de hospital ou de médico. “Saúde é uma questão importante para todos e em todos os aspectos. Saúde envolve educação, modo de vida, hábitos e passa pelos processos tradicionais da Medicina, tecnologia da Medicina, novas drogas. Acima de tudo, é uma grande oportunidade.” De acordo com Lottenberg, no Brasil, hoje, quase 5 milhões de empregos são ligados diretamente à área de saúde e dentro da economia esse setor representa quase 9,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Por Andréa Leonora
redacao@peloestado.com.br

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