Reportagem especial - Mídia Regional

17.09.2012

 

Interior do país tem cada vez mais acesso à informação

 

Quando a televisão surgiu, muitos decretaram o fim do rádio. Quando apareceu o vídeo para locação, substituído pelo DVD e agora pelo blu-ray, outros tantos apostaram no fim do cinema. Da mesma forma aconteceu com os jornais impressos, cujo fim foi previsto para poucos anos após o início da disponibilização de conteúdos jornalísticos na internet. Previsões que não se confirmaram.

Ao contrário, continuam surgindo emissoras de rádio e continuam sendo abertas salas de cinema, impulsionadas ainda mais pelas novas tecnologias, como o 3D. Quanto aos jornais impressos, o que se viu foi que mantiveram sua importância como veículo de comunicação de massa e que não se acovardaram diante da integração com o meio virtual.

Fenômeno

Este é um fenômeno especialmente observado nos jornais do interior do Brasil, com cobertura local ou regional. São inúmeros e cada vez mais comuns os cases de jornais impressos que têm em seus portais na internet uma extensão, um braço a mais para chegar ao leitor. Se a internet tem características imbatíveis, como a agilidade e a interatividade, também é certo dizer que é na versão impressa que se tem maior aprofundamento das informações, reportagens com mais fontes e textos melhor elaborados.

Com um detalhe: a internet permitiu o acesso direto às informações disponibilizadas por instituições, órgãos oficiais, empresas, ONGs e pesquisadores, dando aos jornais de pequeno e médio porte a possibilidade de independência em relação às agências de notícias e de uma edição apropriada às características de sua região. Com isso, a internet contribuiu para ampliar a cobertura dos veículos locais ou regionais e estimulou a melhoria da qualidade do jornal enquanto produto, tanto no conteúdo quanto no aspecto gráfico.

José Jorge Tannus Jr.

Mestre em Comunicação, Administração e Educação, professor de Ética e Legislação Publicitária, José Jorge Tannus Jr. afirma que a chamada mídia regional não perde espaço e ainda se fortalece por ter como principal função ser uma espécie de porta-voz da cultura daquela região. “Não há como ignorar o poder e a penetração que esse segmento tem.

Os assuntos de interesse local são tratados unicamente por esses veículos que, analisando bem, também promovem a interatividade de que tanto se fala. Os leitores sempre entraram em contato com o veículo, seja jornal ou rádio, muitas vezes com visitas pessoais, algo impossível nas grandes empresas de comunicação.

E, por sua vez, os veículos do interior sempre valorizaram esse contato como a chave que permite a relação entre o que a população pensa e quer e aquilo o que a mídia precisa fazer”, avalia o professor, que completa: “No entender da grande mídia mostrar o massacre no conflito judaico-palestino do que noticiar ações solidárias locais. Iniciativas preocupadas com o bem-estar de minorias são entediantes para essas empresas e suas equipes”.

Tannus, que migrou da cidade de São Paulo para Campinas, no interior do estado de São Paulo, vai além ao declarar que não se consegue, na mídia regional, ignorar uma tendência ou desprezar a participação popular, diferentemente da grande mídia, onde se trabalha com estatística e massa. “Na mídia regional, quando a Catarina do Jardim Oliveira faz uma reclamação, você pode até não saber quem é a Catarina, mas sabe as características da localidade e da população que mora ali.” Para ele, essa proximidade leva a formas de controle inimagináveis nas grandes redações. “No interior, o povo sabe a quem pertence aquele determinado veículo. E quando o comportamento tendencioso, ele corre o risco de perder a credibilidade muito rapidamente.”

Frente Parlamentar

O professor Tannus, que aplica as disciplinas de Ética e Legislação Publicitária, assina um artigo, intitulado “Comunicação regional fortalece a cidadania” em cuja conclusão afirma: “Os meios de comunicação locais devem ser prestigiados comercialmente pelas grandes empresas e os gerentes de marketing, que normalmente têm visão nacional ou internacional quanto aos seus investimentos em propaganda e comunicação e que escolhem os veículos de suas campanhas pelo índice apresentado pelos institutos de pesquisa. Eles devem lembrar que os números dos veículos regionais são sempre menores, porém, são eles que traduzem o espírito, a crença de uma população também consumidora, fiel a quem lhes dá a devida atenção e respeito.”

Deputado Federal André Vargas (PT-PR) 

Essa é também a linha de pensamento do deputado federal André Vargas (PT-PR), que hoje preside a Frente Parlamentar em Apoio e Fortalecimento da Mídia Regional. Instalada em maio de 2007, o objetivo da Frente é fortalecer e potencializar a comunicação regional, por meio do aprimoramento da legislação.

Vargas acredita que nos últimos anos estabeleceu-se uma política de democratização do acesso ao conteúdo, garantindo uma informação de qualidade para a população. “Chegam cada vez mais perto do cidadão, por mais que ele more no interior, as informações sobre o que ocorre em Brasília. Essa prática ajuda a fortalecer os meios de comunicação como um todo, mas especialmente os veículos regionais. É o reconhecimento de que o Brasil acontece fora das capitais ou dos chamados sete grandes mercados.

Tanto é assim, que a maior geração do Produto Interno Bruto (PIB) vem do interior do Brasil.” Ele destaca que no meio impresso, por exemplo, não existe um veículo nacional. “A distribuição até pode se estender por vários estados, mas a cobertura não é nacionalizada. Além disso, vários veículos, de diferentes segmentos, tratando de um mesmo assunto, garante que a visão da população será mais próxima da realidade. É uma interpretação mais plural dos fatos”, defende.

De acordo com o parlamentar, uma das funções da Frente é manter sempre aberto o debate sobre o tema. Com o tempo e a atuação dos deputados, houve a democratização também das verbas publicitárias. “O resultado é tão positivo, que hoje a iniciativa privada está tomando o mesmo rumo, buscando falar mais diretamente com o leitor por meio da mídia regional. Não tem motivo lógico só uma parte do Brasil ou só um segmento da comunicação receber de forma privilegiada a informação e também os recursos”, argumenta.

O deputado participou do 1º Congresso dos Diários do Interior do Brasil, realizado em dezembro de 2011, em Brasília. Naquela ocasião, ficou definido que se daria início ao processo de integração editorial nacional. Em março de 2012, a integração entrou em prática com a publicação quinzenal de entrevistas feitas com grandes personalidades nacionais. Cerca de 120 jornais diários participam do projeto publicando o material editorial.

O presidente da Associação dos Diários do Interior do Brasil (ADI-BR), Ámer Felix Ribeiro, contou que existem ADIs organizadas hoje nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em ocasiões especiais, soma-se ao projeto de integração editorial nacional também a Associação Paulista de Jornais (APJ). “É uma experiência que já se revelou exitosa. Com a soma de todos os diários e suas tiragens, temos força para lidar com as fontes e condições para levar ao leitor de jornais com abrangência local e regional entrevistas às quais normalmente não teriam acesso”, comemora. 

Âmer Félix, presidente da ADI-BR

Investimento pulverizado

A Caixa Econômica Federal é uma das instituições bancárias que mais investem na relação com os veículos de cobertura local e regional. Isso se dá tanto na parte editorial quanto na comercial. Ogerente nacional da Gerência de Publicidade e Propaganda, Wolmar Vieira de Aguiar, explica que a estratégia de comunicação da Caixa contempla mídia nos diversos meios (TV, rádio, jornal, revista, internet, mídia exterior, mídia indoor, cinema etc.), nas capitais e no interior.

A distribuição da verba publicitária da Caixa, acrescenta, parte de critérios utilizados pelo governo federal, como share e ranking de audiência em mercados pesquisados, bem como das necessidades mercadológicas e de comunicação, considerando o ambiente de alta competitividade do mercado financeiro. “A programação regionalizada valoriza a produção de conteúdo local e regional, gera frequência de exposição de mídia e adequação com os produtos Caixa”, resume Aguiar.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) também optou por descentralizar sua relação com a imprensa. "Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a uma pequena revolução do campo da informação. Nos municípios do interior, cada vez mais a população tem acesso às novidades, às tendências, aos debates que se impõem na cena política. Neste cenário, onde a inclusão digital ainda não se concretizou de forma completa, os jornais impressos ocupam espaço importante de formação e de disseminação do conhecimento”, justifica o diretor de Comunicação do CFM, Desiré Carlos Callegari.

Ele disse que os conselhos de medicina - federal e regionais - entendem que esses veículos são canais importantes para contato com as populações que estão fora dos grandes centros. Por isso, têm produzido conteúdo jornalístico abordando os problemas da assistência em saúde para distribuir a essa rede. Por outro lado, também têm inserido mídia publicitária para fazer com que sua mensagem institucional chegue aos médicos e aos pacientes de todo o país. “Essa é uma tendência que se consolida e que deve ser abraçada por gestores e tomadores de decisão."

Novas regras e democratização

Os critérios do governo federal citados pelo gerente de Publicidade e Propaganda da Caixa, Wolmar Vieira de Aguiar, foram adequados para atender a regionalização das ações e investimentos em mídia, adotada como premissa da área de Comunicação.

Fabrício Costa, diretor do Departamento de Mídia da Secom-PR

Segundo o diretor do Departamento de Mídia da Secretaria de Comunicação Integrada (Secom) da Presidência da República, Fabrício Costa, para apoiar os trabalhos a Secom priorizou o cadastramento de veículos além dos grandes centros populacionais. “Desde 2003 e até 2011, a quantidade de veículos cadastrados aptos a participarem de ações da Secretaria e do governo federal saltou de 499 para 8.519, nos diferentes meios, como TV, rádio, jornal, revista, internet e outros”, revelou. 

Costa explicou que um dos principais meios de apoio à regionalização é o jornal, contribuindo para aproximar as mensagens de governo a todas as regiões do país. Em 2011, jornal foi o segundo meio no total de investimentos de mídia do governo federal, enquanto em 2012 o percentual de investimento da Secom em ações regionalizadas representa cerca de 30% do total da verba de mídia publicitária realizada.

Em suas ações a Secretaria de Comunicação pratica ainda o “princípio de desconcentração de investimentos”, definindo programações em uma grande quantidade de veículos em vários meios, com investimentos proporcionais  ao tamanho de audiência  e de acordo com as médias de custos praticados. “Além da expansão do cadastro de veículos, a Secom vem investindo fortemente na qualificação do mesmo, com o objetivo de contribuir para o fortalecimento da profissionalização dos veículos”, destacou o diretor.

Ou seja, para ser considerado apto a receber investimentos em mídia, o veículo precisa atender a alguns pré-requisitos técnicos estabelecidos pela Secretaria. No caso do meio rádio, por exemplo, a emissora precisa estar licenciada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). No meio jornal, os veículos precisam comprovar a periodicidade e a regularidade - por meio de envio de exemplares - e atestar a tiragem do veículo por meio de declaração registrada em cartório.

“Acreditamos que, com isso, além de ampliar a cobertura e eficácia das ações, a regionalização da comunicação de governo contribui para a profissionalização de mercados regionais, principalmente em cidades distantes dos grandes centros. O processo de regionalização permite levar a mensagem do governo ao maior número de municípios, por meio da utilização de veículos ou comunicadores regionais que possuem maior afinidade e identificação com as suas localidades. E garante eficácia à mensagem, pois fala ao cidadão sobre as ações em andamento ou realizadas na sua localidade ou região”, completa Costa.

Entrevistas Nacionais

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